Voltas às aulas: cresce o risco de surtos de catapora nas escolas e creches
A popular catapora é altamente transmissível. As crianças devem ser vacinadas ao completar 12 meses ou ao atingir a idade escolar, principalmente aquelas que freqüentam creches. A vacinação feita antes da chegada da primavera protege a criança contra os surtos que acontecem nesta estação do ano.
Mais de 90% dos casos registrados na última temporada de varicela no Estado de São Paulo foram de crianças entre um e nove anos. Os dados da Secretaria da Saúde do Estado referem-se apenas aos surtos, porque a doença, popularmente conhecida como catapora, não é de notificação compulsória. Foram 29.177 casos, dos quais 62,4% em crianças de um a quatro anos e 30% na faixa de cinco a nove anos. Causada pelo vírus Varicela zoster, esta doença infecciosa e altamente transmissível provoca lesões na pele e nas mucosas, coceira intensa, febre e dor. Em crianças, o número de lesões varia entre 250 a 500.
A varicela se alastra com extrema facilidade: contamina cerca de 80% das pessoas não-vacinadas ou que nunca contraíram a doença. Em ambientes fechados como creches, pré-escolas, escolas e enfermarias pediátricas a contaminação chega a 85%. Mesmo antes de saber que está doente, a pessoa começa a transmitir o vírus, porque os sintomas só se manifestam entre 14 a 21 dias após o contágio. Já o maior risco de transmissão ocorre 48 horas antes de surgirem os sintomas. Para se contrair a varicela, basta entrar em contato com as vesículas do doente ou as gotículas que ele expele pelo ar.
Os sintomas iniciais da varicela se parecem com os de uma virose: febre, coriza e tosse. Até que aparecem pequenas manchas nas costas, peito e abdômen. As manchas viram bolinhas vermelhas (pápulas), que se transformam em bolhinhas com líquido (vesículas) e, finalmente, em crostas (casquinhas). A recuperação demanda de sete a 10 dias, quando todas as lesões já viraram crostas.
A vacina é a melhor maneira de se evitar a doença. A vacina Varicela Biken, comercializada pela Sanofi Pasteur, oferece proteção superior a 95% contra as formas graves e moderadas e superior a 85% contra qualquer forma da varicela. Qualquer pessoa pode tomar a vacina, exceto as gestantes e as pessoas em tratamento com altas dosagens de corticóides ou com deficiência no sistema imunológico.
Quando não foi imunizada aos 12 meses, a criança deve ser vacinada antes de ingressar numa creche, pré-escola ou escola. "A varicela atinge pessoas de todas as faixas etárias, mas é mais comum em crianças na idade escolar, em especial as que freqüentam creches. Por isso seria bom que essas crianças fossem vacinadas como já acontece no Exterior", afirma Lily Yin Weckx, professora chefe de Infectologia Pediátrica da Unifesp, responsável pelo Centro de Referência para Imunobiológicos Especiais da Unifesp e membro da Comissão Permanente de Assessoramento em Imunizações da Secretaria de Estado da Saúde. Nos Estados Unidos, escolas de muitos estados já passaram a exigir a comprovação desta vacina antes da admissão do aluno.
"Estudos realizados na cidade de São Paulo revelaram que as crianças que freqüentam creches apresentam maior risco de complicações e óbitos quando contraem varicela, porque são expostas de maneira mais precoce e intensa à doença", explica Lucia Bricks, professora doutora de Pediatria da Faculdade de Medicina da USP e membro da Comissão Permanente de Assessoramento em Imunizações da Secretaria de Estado da Saúde de São Paulo.
COMPLICAÇÕES
A varicela pode provocar três tipos de complicações. De acordo com estudos norte-americanos, as mais comuns são as lesões na pele (de 45 a 57%), seguidas de problemas no sistema nervoso (15 a 18%) e nas vias respiratórias (10 a 14%). As lesões são, em geral, provocadas por infecções bacterianas secundárias, que surgem quando o doente se coça e deixa a pele vulnerável a este tipo de microorganismo. Entre as lesões mais freqüentes está a erisipela.
Levantamento em creches de Taubaté, no interior de São Paulo, feito pelo médico Ricardo Marcitelli para tese de mestrado defendida 2005 na Faculdade de Medicina da USP, revelou que mais de 80% das 664 crianças pesquisadas foram levadas à consulta médica e mais da metade ficou afastada das creches por mais de cinco dias. Deste total, 5,7% apresentaram complicações, uma em cada 100 precisou ser hospitalizada e cinco crianças ficaram com cicatrizes importantes após a doença. Todas eram crianças previamente saudáveis.
"Não raramente, crianças com varicela apresentam complicações tardias, após o desaparecimento das lesões de pele. Em um estudo realizado na Espanha, em que foi feito segmento por mais de 14 dias após a fase aguda da doença, verificou-se que a taxa de complicações foi superior a 10%", afirma a pediatra Lúcia Bricks.
IMUNIZAÇÃO
A vacina contra varicela é recomendada nos calendários de rotina dos Estados Unidos, Canadá, Alemanha, Austrália, Uruguai e Catar. Desde 1997, é recomendada pela Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP), embora ainda não integre o calendário oficial de imunização. Não é preciso aguardar a chegada da primavera para aplicar a vacina. O ideal é que a criança enfrente a temporada da doença já imunizada.
Há 11 anos, os Estados Unidos introduziram a vacina no calendário básico para reduzir os quatro milhões de casos, 11 mil internações e cem mortes por ano registrados até então. Dos óbitos, a maior parte era de crianças saudáveis até 14 anos. Além desses problemas, cada caso de varicela causava perda estimada de U$ 12,60, segundo estudo do Jornal da Associação Médica Norte-Americana. Em geral, as mães faltavam 2,5 dias no trabalho para cuidar dos filhos. A vacinação teve impacto positivo não só no público alvo, mas em toda a população, porque evitou a transmissão para menores de um ano e adultos.
Como é produzida com vírus vivos atenuados (enfraquecidos), a vacina deve ser aplicada em crianças maiores de 12 meses, porque até esta idade o bebê carrega os anticorpos da mãe. "E esses anticorpos podem neutralizar o efeito da vacina", adverte Lily Yin Weckx. Ela ressalta que a proteção da vacina é mais longa quando aplicada após os 12 meses de idade.
A imunização só deve ser feita antes de 12 meses, se o bebê entrar em contato com uma pessoa doente, porque a vacina evita a varicela quando aplicada até 72 horas após a exposição ao vírus - mesmo em crianças maiores, adolescentes e adultos.
VARICELA BIKEN
A Varicela Biken foi a primeira vacina contra varicela. Desenvolvida em 1974 na Universidade de Osaka, no Japão, é uma vacina diferenciada porque não usa gelatina como substância estabilizante, o que reduz as reações alérgicas. Os estabilizantes são usados para manter vivos os vírus atenuados da vacina. Embora raras - 11,6 casos entre 100 mil aplicações - essas reações podem ser graves: vão de dificuldade de respirar, inchaço nos lábios e pálpebras e até choques anafiláticos.
"Historicamente, acreditava-se que o maior causador das reações alérgicas era a proteína do ovo. Atualmente sabe-se que a gelatina é o principal causador dessas reações", afirma a gerente-médica da Sanofi Pasteur, Jéssica Presa. "As vacinas são utilizadas para prevenir doenças. Portanto, quanto menores os riscos de reações adversas, mesmo que sejam raras, melhor", afirma a pediatra Lucia Bricks.