Vera Cruz mostra que nunca é tarde para ensinar e aprender
Aprender e ensinar sempre. E, por entender que a alfabetização e educação são premissas de inclusão, a Associação Universitária Interamericana, entidade mantenedora da Escola Vera Cruz, na zona oeste de São Paulo, lançou em agosto de 2001 o Ilha de Vera Cruz, um projeto social de educação. Reverenciando uma das três denominações do Brasil à época do descobrimento do país pelos portugueses, o projeto objetiva a promoção da educação, particularmente a de jovens e adultos (EJA) que não tiveram a oportunidade de estudar em idade regular. Com aulas no período noturno, das 19h às 22h, de segunda a sexta-feira, nas dependências da escola, à Rua Baumman, em São Paulo (onde funciona o ensino médio da Escola Vera Cruz), os alunos de EJA são formados por um grupo de 110 voluntários e seis profissionais contratados.
Os voluntários atuam uma vez por semana, enquanto os profissionais trabalham diariamente. Ao ingressarem no Ilha, os voluntários recebem orientação e acompanhamento da coordenação. Mensalmente, acontece uma reunião pedagógica em que todos os voluntários são convocados e, semanalmente, as áreas disciplinares se reúnem para discussão da metodologia, conteúdo e avaliação. Os voluntários são orientados a desenvolver em sala de aula a competência de análise e leitura de mundo dos alunos com autonomia, criatividade e criticidade.
Para o voluntariado, são priorizados os licenciados e com experiência em sala de aula. Os voluntários que não possuem licenciatura podem trabalhar como auxiliares de classe em disciplinas que possuem relação com sua formação acadêmica. Por exemplo, engenheiros podem atuar como professores de matemática e jornalistas, como professores de português. Os pais de alunos da escola paga também são recrutados para atuar como voluntários de EJA.
O projeto foi criado para atender os adultos não alfabetizados e com escolaridade incompleta do entorno da escola. "No começo, oferecíamos aproximação da cultura escolar e alfabetização sem o compromisso da certificação. No início de 2003, iniciou-se então o processo de aprovação da certificação do ensino fundamental junto à Secretaria de Ensino", informa a coordenadora pedagógica Jussara Ferreira Paim.
O projeto conta com sete salas de aulas, duas de alfabetização (de 1ª à 4ª série) e cinco de educação de jovens e adultos (de 5ª à 8ª série). O público atendido é formado por adultos de baixa renda, com mais de 18 anos. O Ilha atende também os filhos dos alunos de EJA, com idade entre 0 e 7 anos. Atualmente, são 199 alunos matriculados, sendo 72 na alfabetização (1ª à 4ª série) e 127 na EJA (5ª à 8ª série), além de 28 crianças.
Ecos do Ilha
Para viabilizar o Ilha, não basta apenas recursos humanos. Outra necessidade premente é a questão da sustentabilidade, inclusive para garantir a perenidade do projeto. Para isso, foram envolvidos diversos parceiros. Entre eles, destacam-se a Empresa Brasileira de Correios e Telégrafos, que também cede três salas de aula e três laboratórios de informática para as classes de alfabetização em sua sede vizinha à escola; o Instituto Alana, que faz doação financeira para a complementação da folha de pagamento dos educadores; a Padaria Letícia, que oferece lanche aos filhos dos alunos de EJA; a Clínica de Olhos Dr. Suel Abujamra, que realiza consultas médicas gratuitas para os alunos; o Banco Itaú Social, que doa recursos para projetos educacionais; e a Gatti Turismo, que cede ônibus gratuitos para estudos do meio com os alunos do projeto.
A divulgação da iniciativa é feita por meio de faixas e cartazes permanentemente colocados na frente da escola e em locais estratégicos para atingir o público-alvo. Periodicamente, a coordenação da escola visita as comunidades e empresas da região para conscientizá-las da importância do retorno à escola, realizando palestras e distribuindo folhetos.
"Nos últimos quatro anos, certificamos quatro turmas de alunos. Dos alunos formados pelo Ilha, 12% eram funcionários da própria escola, 24% deram continuidade aos estudos e cursam o Ensino Médio em outras escolas de EJA", lembra a coordenadora pedagógica.
"Uma coisa que eu aprendi aqui no Ilha de Vera Cruz e que eu vou levar comigo para onde quer que eu vá é como a leitura é importante, é uma coisa maravilhosa. A gente aprende muita coisa com ela, até como escrever melhor", diz Mirella da Silva, 18 anos, casada e mãe de um filho, que recebeu o certificado do ensino fundamental em julho último.
Outra integrante do projeto conta que parou de estudar na quarta série, aos 17 anos. "Interrompi os estudos quando casei e tive filhos. Certo dia, fui procurar um emprego. Como exigiam o primeiro grau completo, resolvi vencer o preconceito de ser negra e ter 47 anos, e voltei a estudar. Minha filha, então aluna do Ilha, me incentivou a voltar para a escola. Estou no último semestre e já começo a sentir saudade, pois vou deixar para trás um bom aprendizado, com professores voluntários que nos ensinam com muita paciência e sem deixar nenhuma dúvida. Aqui, temos acesso à midiateca, às artes cênicas, à educação física com alongamento, à avaliação física e a outras matérias muito valiosas. O Ilha foi uma grande virada na minha vida. Agora eu vejo o mundo de outra maneira, me sinto outra pessoa, porque o projeto preencheu um vazio que havia. Encontrei a compreensão dos alunos e professores", revela Elizabeth Aparecida Ferreira, 49 anos, casada, com 5 filhos, que questiona: "Quem diria que um dia eu seria capaz de saber escrever contos, resenhas, crônicas etc.? Só pude encontrar isso aqui, onde participei de três revistas feitas com orientação dos professores de português.
Segundo a coordenadora pedagógica, o projeto procura desenvolver o exercício da cidadania, uma visão reflexiva sobre o mundo e a autonomia do pensamento. "Essa prática favorece uma relação significativa por meio do processo de ensino e aprendizagem dos alunos e uma relação amistosa com a comunidade", salienta Jussara, para quem as pressões exercidas sobre os sistemas produtivos das sociedades contemporâneas mais e mais têm exigido que as empresas tenham seu corpo de funcionários melhor qualificado.
Ela observa que muitas empresas têm buscado incluir em sua política de recursos humanos estímulos para que seus funcionários completem a escolaridade básica e adquiram competências e conceitos que os coloquem em condições de se apropriar dos conhecimentos complexos socialmente elaborados e de ampliá-los em sua atuação pessoal e profissional.
" Jovens e adultos têm buscado espontaneamente oportunidades para completar ao menos o nível de escolaridade obrigatória, o ensino fundamental. São trabalhadores ou não, que, por motivos diversos, não completaram essa etapa. Por essa razão, eles foram excluídos dos benefícios que uma escolaridade bem-sucedida lhes traria", revela a coordenadora.
A necessidade de retomar os estudos é reconhecida pela lei nº 9394/96, cujo artigo 37 prevê que as pessoas que não tiveram acesso ou não puderam dar continuidade aos estudos no ensino fundamental e médio na idade adequada têm o direito a freqüentar programas de Educação de Jovens e Adultos. Diante dessa constatação, justifica Jussara, o Ilha planeja experiências de aprendizagem mais produtivas para cada aluno que busca a modalidade de EJA, além de condições para uma participação mais crítica e competente na sociedade e no mundo do trabalho.
"A Educação de Jovens e Adultos é um campo pedagógico que busca afirmar uma nova identidade, reunindo práticas e saberes articulados ao redor de princípios e objetivos. Ela impõe determinadas perspectivas políticas e novas atitudes no ensino. Tratas-se aqui de considerar as características cognitivas dos alunos, muitos deles já incluídos no processo produtivo, e articular os conteúdos escolares com os saberes adquiridos em sua experiência de vida. Isto conduz à necessidade de se planejar experiências de aprendizagem adequadas às características da população atendida, que lhes garantam sucesso no alcance dos objetivos colocados para cada nível de escolaridade", diz Jussara.
Para que esta tarefa educativa tenha sucesso em qualquer contexto, de acordo com ela, é necessário abandonar as formas tradicionais de ensino e a grade curricular por séries e por disciplinas, e apoiar o educador envolvido na organização de novas formas de integração e tratamento de conteúdos, novos meios didáticos e atividades de aprendizagem para propiciar o maior progresso possível dos alunos, considerando ainda a diversidade que inevitavelmente caracteriza o público de EJA.
Em 2005, a Escola Vera Cruz contabiliza 1800 alunos. A instituição igualmente incorpora o tema da responsabilidade social em seus valores educacionais, procurando sensibilizar alunos, funcionários e pais de alunos para se envolverem com práticas socialmente responsáveis. Fora o projeto Ilha de Vera Cruz, que editou 13 publicações, entre produções literárias e autobiografias, os pais e alunos do ensino fundamental promovem rodas de leitura em creches. Já a unidade de ensino médio participa de um grupo de trabalho preventivo em favor das crianças e adolescentes em situação de risco pessoal e social da escola de educação municipal infantil (EMEI) de Vila Leopoldina, onde estudam 240 crianças com idades entre 3 e 6 anos. Todas as segundas-feiras, os alunos do ensino médio do Vera Cruz se reúnem para planejar as ações junto com seus orientadores e se revezam nas tardes de terça a sexta-feira, realizando atividades de esporte (educação para a preservação do corpo e aptidões), biblioteca (incentivo à leitura), artes (coreografias, construção de brinquedos, expressão corporal, brincadeiras de roda, ritmos), música, dança, teatro e informática.