09/05/2022

UTILIZANDO A EQUAÇÃO DE VALOR PELA METÁFORA DA SOCIEDADE POR AÇÕES PARA ANALISAR AS ORGANIZAÇÕES EDUCACIONAIS

O valor é algo capaz de tirar uma pessoa de sua indiferença, fazendo-a inclinar-se para uma determinada direção ou a executar uma ação. Para ter valor, esse algo deve ser percebido pelo significado que tem para as pessoas. Como esta definição pode ser melhor compreendida pela metáfora de uma organização educacional e o que isso se conecta às competências essenciais para o educador contemporâneo?

A equação de valor é simples e bem conhecida pelo setor de serviços. Valor é o resultado do conjunto de benefícios gerados pela proposta ou entrega do serviço, subtraindo-se os custos para quem os receberá, ou seja:

Valor = Benefícios – Custos.

Com esta definição a questão emergente passa a ser: Valor para quem? Pois tudo dependerá da perspectiva de quem receberá o serviço, já que, tanto os benefícios quanto os custos são variáveis vinculadas à percepção das pessoas que devem receber/participar da construção do serviço. Pode ser que um benefício seja percebido como tal por uma pessoa e, ao mesmo tempo, nem ser percebido por outra pessoa.

Para os alunos esta valorização demonstra-se diretamente vinculada à preparação para o mundo do trabalho, pois há, na cultura educacional universitária brasileira, forte correlação entre ensino superior e empregabilidade. De modo geral os alunos buscam o serviço educacional para conquistar um emprego ou para melhorar suas perspectivas quanto à carreira profissional. São também percebidos pelos alunos como benefícios os estudos que habilitam para a continuidade de estudos acadêmicos, os que legitimam por meio da diplomação ou da certificação uma competência já adquirida ao longo da vida ou simplesmente os que proporcionam uma autossatisfação.

Na perspectiva dos alunos os custos dividem-se em duas categorias. A primeira são os custos de financiamento dos próprios estudos por meio de mensalidades, a contratação de empréstimos com terceiros, a aquisição de livros, tecnologias e outros materiais didáticos, os aluguéis de espaços para residência, o deslocamento até o campus (traslado), a alimentação, dentre outros custos que envolvem despesas relacionadas às atividades discentes. A segunda são os custos não financeiros, que não são claramente avaliados, mas interferem significativamente no valor percebido pelo aluno, pois são mais tangíveis, podem ser medidos: O tempo que o aluno deve empenhar para estar presente às atividades acadêmicas, bem como as horas de estudo e para deslocamento até o campus; a sensação de insegurança diante de contextos violentos no entorno dos campi (custos sensoriais); o custo de oportunidade por não estar fazendo outra atividade julgada pelo aluno como mais rentável; os custos físicos, decorrentes do cansaço; os psicológicos que surgem a partir das pressões dos processos avaliativos presentes nas metodologias de aprendizagem; os sociais, por afastamento da família, dos amigos, em função da falta de tempo livre para a socialização, dentre outros custos que poderiam ser classificados nesta categoria. Com o passar dos anos a percepção quanto a estes custos tende a aumentar, desequilibrando a equação de valor na medida em que cresce mais do que a percepção de benefícios.

Ai está um primeiro ponto para a conexão entre valor e competências essenciais do educador contemporâneo. Ele deve ser capaz de desenvolver, não apenas propostas de valor para todos os que estão envolvidos nos processos educacionais, mas saber comunica-las para que possam ser bem compreendidas. Aqui estamos lidando com duas habilidades essenciais: 1) Gerar valor; 2) Comunicar valor.

Na perspectiva dos professores a composição da equação é a mesma. Mas o principal benefício percebido é o de atender à vocação natural para a docência, o que pode provocar no professor uma percepção de felicidade na maior parte do tempo no trabalho. A sensação de estar aprendendo por meio da docência, o prazer de observar o desenvolvimento dos alunos e a convivência numa organização voltada para o desenvolvimento das pessoas e por isto, mais humanizada, mais desafiadora, são exemplos de outros benefícios que valorizam a atividade docente. Ainda melhor é pensar em desenvolver esta atividade como um meio de vida, pois os salários parecem compensar os custos financeiros e também os não financeiros inerentes às atividades dos docentes.

E na perspectiva de quem oferta um serviço educacional no ensino superior? Os maiores benefícios do investimento público ou privado numa oferta educacional devem ser o cidadão e o profissional bem formado e o próprio conhecimento que se produz no contexto da organização educacional.

Os investimentos públicos em educação devem ser avaliados e confrontados com os benefícios que a sua ação educacional proporciona para o conjunto da sociedade. Para o investimento público o que mais importa é a eficiência e a eficácia na utilização dos recursos, pois a meta deve ser a de fazer o máximo possível com os recursos que são disponibilizados, o que implica em fazer da melhor maneira, desde que o aluno aprenda efetivamente.

A mesma lógica e os mesmos resultados sociais devem ocorrer na gestão de investimentos privados no ensino superior, pois sem qualidade a empresa educacional não se justifica para a parceria com o Estado e nem sobrevive ao mercado concorrencial. Mas para o investimento privado a rentabilidade deve compor a análise de benefícios, pois é dela que se remunera o capital investido e que se fortalece a atividade econômica em torno da educação.

De fato, os serviços educacionais constituem-se em uma ação com grandes impactos sobre a sociedade e devem ser considerados como atividades sociais, independente da natureza dos investidores. O capital privado deve se estabelecer para compor, em conjunto com o setor público, uma oferta educacional de boa qualidade, pois sem este benefício sua participação não será valorizada pela sociedade (não terá qualquer valor). Como parceiro do Estado na educação a iniciativa privada deve contribuir realmente para o desenvolvimento social e esperar mais do que apenas regulação, avaliação e supervisão por parte do Ministério da Educação.

Se na análise do valor de uma instituição educacional pública devemos levar em conta não apenas os benefícios que ela proporciona, mas também o retorno social deste investimento para seus credores - a sociedade e, se o maior desafio é o da qualidade com a melhor aplicação dos recursos e eficácia quanto aos objetivos e metas propostos, a análise do valor da instituição privada depende de sua capacidade para gerar os mesmos resultados da instituição pública, pois aí reside a sustentabilidade de seu projeto e, mais, dos dividendos que proporciona aos seus investidores, pois assim ela se justifica como um bom negócio para quem investe. Eis o grande desafio da universidade privada: Alta qualidade com boa rentabilidade.

Então, a equação de geração de valor é aplicável não apenas para educadores, mas para todos os que estão envolvidos no processo educacional e na cadeia produtiva do setor, e isso inclui os financistas investidores e o próprio Ministério da Educação. A ideia é (ou deveria ser): Todos maximizando a geração de valor para todos!

Mas... hipoteticamente, poderíamos indicar que as pessoas não pensam assim. Talvez porque foram treinadas para buscar soluções e executar tarefas e não para pensarem no valor que as outras pessoas dão às coisas. Não desenvolvemos um sentido de empatia em nossa formação acadêmica. Ouvimos pouco e somos resistentes a ideias novas – que logo classificamos como fora da caixa. Porém, deve-se reconhecer que tudo isso está dentro da nossa caixa mental e fora dela também, ou seja, nem faz mais qualquer sentido pensar em caixas mentais num mundo onde a virtualidade e fluidez das circunstâncias já nem nos permite o modelo dos empacotamentos. E esta poderia ser uma outra soft skill? Pensar com fluidez? Com leveza? Saber lidar com tantas incertezas? Não querer controlar tudo? Não seriam estas competências um conjunto de agilidades emocionais (David, 2018), essenciais para os educadores do século XXI?

A complexidade destes desafios pode ser compreendida também pela convergência entre as perspectivas, financeira e acadêmica (mais um exemplo), mas a união destas perspectivas na gestão das instituições, talvez por aspectos históricos que moldaram a cultura nessas organizações, tem se demonstrado algo ainda mais complicado do que a própria complexidade deste contexto tão desafiador.

Para analisar melhor a gestão de uma instituição é preciso compreender que questões financeiras não pairam apenas sobre o capital privado, pois as organizações públicas sobrevivem de recursos da sociedade, seus investidores públicos. Este capital deve ser gerido com eficiência, pois só assim terá grande valor. E, por outro lado, será preciso perceber também que a preocupação com o impacto social de uma oferta educacional no ensino superior não diz respeito apenas ao investimento público em educação, pois a qualidade é um pressuposto para a sobrevivência de instituições privadas no mercado competitivo e só atrairá novos investimentos se a empresa apresentar competitividade.

Mesmo pela ótica da administração financeira os educadores de instituições educacionais deveriam entender que as questões são essencialmente as mesmas apresentadas pela perspectiva da academia. Utilizando a equação de valor pela metáfora da sociedade por ações para analisar as organizações educacionais pode-se reconhecer grandes semelhanças entre as características e objetivos das empresas geridas pela doutrina financeira e os ideias acadêmicos que marcam a cultura da gestão de instituições de ensino públicas e privadas.

O valor da empresa por ações será maximizado se o risco do investimento for menor, se a empresa apresentar boas oportunidades de crescimento e se seus ativos demonstrarem grande liquidez. Quando um investidor (público ou privado) aplica capital em um empreendimento educacional ele deve esperar que o risco deste investimento seja realmente pequeno, que o empreendimento cresça e tenha valor no mercado caso queira se desfazer deste ativo. Ora, isso só vai acontecer se o empreendimento apresentar grande qualidade, pois é o benefício capaz de transformar a sociedade por meio da educação e este é o grande retorno econômico e social sobre o investimento na educação. O crescimento quantitativo e qualitativo da instituição decorre de sua proposta diferenciada de qualidade e o valor para o mercado é resultado deste sucesso empresarial.

O principal objetivo dos gestores de sociedades por ações é a maximização da riqueza dos acionistas. Uma forma de mensurar a riqueza dos acionistas é a maximização do preço das ações, pois funciona como um termômetro do valor do empreendimento. Utilizando a metáfora da instituição como sociedade por ações percebe-se que os benefícios do aumento dos preços de suas ações estão diretamente relacionados ao bem estar social. De modo geral, os donos das ações é a própria sociedade, que investiu na educação e a maximização do valor da instituição exige uma gestão eficiente que produza serviços de alta qualidade ao menor custo possível para a sociedade. O investimento na formação de quadros gestores, professores e colaboradores é um caminho certo para a melhoria dos serviços educacionais e a redução dos custos de produção acadêmica, pois é exatamente pela qualificação de seus profissionais que a instituição promoverá a inovação necessária para que possa fazer melhor a um custo mais baixo para a sociedade. A mesma lógica pode ser aplicada na análise de organizações privadas, pois o investimento privado exige a mesma eficiência na gestão de recursos para a obtenção de resultados satisfatórios na educação superior. Sem esta eficiência o investimento não gera riqueza social e muito menos riqueza financeira e assim o projeto não encontra valor algum para seus investidores privados e nem para a sociedade.

A instituição educacional deve produzir e maximizar riqueza social e financeira para seus acionistas, mas o que gera a maximização desta riqueza é basicamente, a habilidade que tem de gerar fluxo de caixa no presente e no futuro. Não me parece adequada a ideia de que a instituição, pública ou privada, representem apenas mais um custo para a sociedade. A mentalidade deve ser outra, não importando a natureza jurídica da organização educacional. É imprescindível que tenha uma gestão acadêmica e financeira de alta qualidade para que possa gerir autonomamente seus recursos institucionais, estabelecendo objetivos e metas, diferenciais estratégicos, planos de remuneração, políticas de controle da qualidade, dentre outras ações próprias da administração profissional.

O aumento do fluxo de caixa decorre da quantidade de unidades vendidas. Para a metáfora aplicada às instituições privadas a venda representa o número de vagas ocupadas mais a permanência dos alunos até o final dos cursos de graduação, extensão e pós-graduação. Para as instituições públicas representa ganhos de eficiência na utilização de recursos que financiam a sua atividade. Outra maneira de gerar fluxo de caixa é aumentar e manter a margem de lucro operacional, após ter recolhido os impostos e ter arcado com as obrigações salariais e o pagamento de fornecedores. Isso requer uma maior eficiência na utilização de recursos institucionais. É o fazer melhor e da melhor maneira possível. Uma inovação na maneira de gerir os recursos pode fazer o fluxo de caixa aumentar. Por exemplo, a implantação de projetos no contexto dos núcleos docentes estruturantes pode gerar uma economia na utilização de recursos financeiros na atividade de gestão acadêmica ou aumentar a arrecadação da instituição para que possa financiar programas culturais ou de esportes, reduzindo a necessidade de desembolsos do caixa para criar ou manter esses programas. Tudo isso pode aumentar o fluxo de caixa e maximizar a riqueza dos acionistas.

E o que fazer com essa riqueza financeira? Pela metáfora aplicada às organizações educacionais temos duas opções. A primeira é reinvestir na atividade para melhorar ainda mais os serviços educacionais da instituição. A segunda pode ser explicada pela chamada política de distribuição de dividendos. A distribuição de dividendos da operação da instituição impacta em grande medida na acumulação dos fluxos de caixa, pois os dividendos são pagos aos investidores exatamente pelo que a instituição educacional acumulou na operação. Quanto maior a distribuição, menor será o fluxo de caixa e, portanto, a maximização da riqueza da instituição, pois ela voltará para as mãos dos investidores (ou para a União) que poderão aplica-la em outras atividades, financeira e/ou socialmente mais lucrativas.

Contudo, a ideia de rentabilidade para a organização educacional transcende a órbita do retorno financeiro sobre o investimento, pois a questão não é apenas financeira. Na atividade educacional o retorno social deve ser considerado pelos investidores utilizando-se a mesma lógica, ou seja, se investirmos X nesta atividade, qual é o retorno social e para quanto tempo podemos estima-lo? Isso é um bom investimento social?

Parece ser difícil para o MEC compreender esta lógica que é própria do mercado de investimentos. Por outro lado, tem sido difícil também para os investidores privados compreender o caráter e o impacto social do serviço educacional. Mas não nos parece difícil observar, diante do ensino superior, sobretudo da graduação que é oferecida no Brasil, que ela não deveria contar com a participação de organizações que operam apenas sob a lógica do capital privado, pois isso não vai se sustentar no longo prazo.

Não é difícil também perceber que o MEC perdeu o rumo na condução de seu papel como articulador do trabalho de construção e consolidação de valores educacionais comuns para todos os agentes que pensam e fazem o ensino universitário brasileiro. Na cultura das organizações educacionais, públicas ou privadas, percebe-se um direcionamento para a geração de valor para si mesmas e não para o conjunto da sociedade. Quando a preocupação quanto à relevância da ação universitária se estabelece em forma de ação concreta, percebe-se apenas em projetos pontuais, específicos, e não numa macro ação institucional, o que talvez explique, em parte, uma certa falta de sentido quanto à própria relevância. Esta tem sido uma questão em debate em muitas universidades no mundo.

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