06/04/2026

Urubus entre os Girassóis

Por Wolmer Ricardo Tavares – Mestre em Educação e Sociedade, Escritor, Palestrante e Docente – www.wolmer.pro.br

Currículo Lattes http://lattes.cnpq.br/9745921265767806

 

A Constituição Federal de 1988 estabelece que o Brasil é um Estado laico. Todavia, essa laicidade tem sido combatida por bancadas evangélicas que buscam tornar a Bíblia uma proposta paradidática obrigatória, apresentando-a como material complementar para estudos culturais, históricos e filosóficos, não se limitando ao campo religioso.

Interessante seria aproveitar o uso da Bíblia justamente para questionar as narrativas de controle de massa. Tomemos a Arca de Noé: a história de uma embarcação feita por um homem que teria vivido 950 anos. Segundo um estudo publicado na Nature Communications em 2021, o limite biológico da vida humana situa-se entre 120 e 150 anos; o recorde real pertence à francesa Jeanne Calment, que faleceu aos 122 anos. Noé, no entanto, teria vivido plenamente quase um milênio e, em um barco de madeira, conseguido abrigar um casal de cada espécie animal — o que nos dispensa de entrar no mérito da logística impossível para reunir fauna de pontos geográficos tão distintos, sendo uns encontrando-se no topo da cadeia alimentar e outras na sua base.

Enfim, o estudo da Bíblia seria útil para mostrar que muitos religiosos recorrem ao Velho Testamento para exercer melhor controle sobre as massas. É nesse ponto que encontram um "Deus" cruel e vingativo, que dizima civilizações para demonstrar poder; sobre esse alicerce, impõem o medo e o controle ao seu "rebanho".

A educação aplicada ao uso da Bíblia deveria servir para trabalhar o discernimento dos alunos, fazendo-os perceber a incoerência de pastores que pregam a palavra de Deus, mas agem em benefício próprio. Chega-se ao ponto de um líder pedir colaboração aos fiéis para trocar de jatinho, alegando que uma aeronave mais nova "facilitará a obra divina". Outro obriga uma fiel desempregada a pagar 300 reais de dízimo — valor fixo que ignora os tradicionais 10% — sob a ameaça de expulsão do grupo de louvor, argumentando que Deus retribuirá proporcionalmente à oferta. A igreja, assim, vira um mercado onde as "obras" acontecem para quem paga mais, e pastores enriquecem sobre a miséria do povo.

A educação deve fornecer o discernimento necessário para enxergar os urubus nos campos de girassóis. Embora se digam tementes, esses líderes agem como incrédulos: pregam um Deus punitivo do Velho Testamento e descartam o Novo Testamento, onde o amor ao próximo, a doação e a generosidade são pedras angulares. Fazem o exato oposto do que ensinam. Observe que, se esses pastores realmente acreditassem no julgamento divino e no Deus vingativo que descrevem, não fariam um décimo do que fazem. Eles sabem que suas falas não condizem com seus atos; não temem a punição que usam para amedrontar os fiéis.

Por meio de uma educação crítica, o aluno poderia perceber a contradição ética desses líderes, a dissonância cognitiva que justifica ações egoístas como "necessárias" e o puro oportunismo de quem finge fé para obter dinheiro e poder — prática comum na bancada evangélica e entre pastores milionários.

Se a religião fosse trabalhada de forma correta e emparelhada a uma educação de qualidade, o aluno notaria a exploração financeira e a manipulação emocional que distorce textos sagrados para coagir doações além das posses. Perceberia, também, o narcisismo de líderes que não aceitam críticas, "demonizando" opositores e colocando-se como a única ponte direta com o divino. Em suma, uma educação libertadora tornaria o aluno um protagonista cognoscente, capaz de não se deixar ludibriar por falsos profetas. Para esse aluno, tais figuras seriam vistas como realmente são: urubus entre girassóis, isso porque estes buscam luz e espiritualidade, enquanto aqueles se alimentam da morte e da miséria.

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