13/09/2006

Universitários descobrem o voluntariado como forma de ação social

Ser universitário pode significar dividir o seu tempo entre a faculdade, o estágio, a academia, as baladas, a namorada ou namorado, os amigos... e mais dezenas de desconhecidos que podem ter sua realidade socioeconômica transformada por ações de voluntariado. Parece muito o que fazer para quem já tem tão pouco tempo livre, mas os estudantes do Ensino Superior têm encontrado diferentes maneiras de participar de ações sociais para ajudar o próximo - e com isso acabam entrando em contato com outras realidades, revendo seus preconceitos e se conhecendo melhor.

A mestra em educação pela Universidade Pontifícia Salesiana de Roma Irmã Adair Sberga, autora do livro "Voluntariado Jovem - Construção da Identidade e Educação Sociopolítica", afirma que os jovens voluntários ganham muito ao oferecer seu tempo para a sociedade, porque melhoram seu desenvolvimento afetivo, ganham amadurecimento, autoconfiança e altruísmo: "o voluntariado é componente essencial da educação sociopolítica desses jovens, que passam a enxergar a realidade das pessoas mais pobres e entram em contato com as verdadeiras causas dos problemas sociais".

A irmã, que também é diretora do Instituto Educacional Nossa Senhora do Carmo em Guaratinguetá, interior de São Paulo, conta que muitas vezes os universitários acabam mudando o enfoque das suas decisões profissionais por causa da experiência no trabalho voluntário: "já ouvi testemunhos de estudantes de odontologia que queriam ser ortodontistas e acabaram se especializando em odontologia social"

Apesar de não ter um programa especialmente voltado aos universitários, o Centro de Voluntariado de São Paulo, que treina voluntários e cadastra organizações de apoio a sociedade que estejam interessadas em recebê-los (atualmente são mais de 700), costuma apoiar o Trote Solidário e oferecer palestras nas universidades em que haja um grupo interessado nesse tipo de ação.

Eliane Lemos, coordenadora de capacitação do Centro e professora de Sociologia na Unip (Universidade Paulista), afirma que são inúmeras as possibilidades dos universitários se envolverem no voluntariado. Ela ressalta a importância do apoio e do entusiasmo do corpo docente, e principalmente da livre-iniciativa dos alunos nesse tipo de realização."O melhor é que o estudante pense no que gostaria de propor como ação voluntária e para que público essa ação se destina. Tudo isso dentro dos seus interesses e da sua disponibilidade de tempo", diz.

Vale lembrar que a extensão - ou seja, o ato de colocar à disposição da sociedade os conhecimentos produzidos pelo meio acadêmico - é juntamente uma das bases do ensino superior, obrigação constitucional para as intituições públicas junto com o ensino e a pesquisa, e um exemplo essencial a ser seguido pelas particulares. Assumir essa responsabilidade também é papel dos alunos, que podem cobrar o respaldo da universidade para transformar em realidade os seus projetos de ação social.

As histórias abaixo são de estudantes que, apesar da escassez de tempo, conseguiram encontrar diferentes maneiras de se envolver em trabalho voluntário na universidade. Confira como essa atividade acabou transformando a vida de muitas pessoas - inclusive a trajetória deles mesmos.

*************************************
"Meu caminho pessoal no voluntariado acabou se fortalecendo durante faculdade de jornalismo, por constatar ali que a educação é uma necessidade muito grande e urgente" - Diana Pellegrine, jornalista, estudante de Filosofia da USP e voluntária no programa de alfabetização para adultos Alfa-USP.


Diana Pellegrini descobriu sua vocação para o trabalho voluntário em educação quando cursava jornalismo na Faculdade Cásper Líbero, em São Paulo. "Todas as vezes que eu fazia uma análise crítica da mídia e entrava em 'crise' com a profissão, eu acabava concluindo que o grande problema da imprensa ser tendenciosa é que as pessoas não conseguem identificar isso. Então eu sempre caía na urgência da educação", afirma.

No segundo ano do curso, Diana tinha como proposta para um trabalho da faculdade o tema "Comunicação e Poder", que se tornou uma matéria sobre analfabetismo (segundo estatísticas do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), 13,6% dos brasileiros maiores de 15 anos não sabiam ler e escrever em 2003). Foi quando ela conheceu o ALFA, projeto de alfabetização de adultos voltado para os trabalhadores terceirizados da USP (Universidade de São Paulo).

Em 2001, tornou-se parte da primeira turma de formação de educadores externa do grupo, que até então era voltado apenas para alunos da universidade. Hoje, já formada em jornalismo e estudando Filosofia na USP, Diana é assessora de comunicação voluntária do ALFA. "A entrada no projeto foi mesmo a grande virada da minha carreira. Sei que muita gente chega no projeto com aquela idéia de 'salvar o mundo no meu tempo livre', de fazer alfabetização do mesmo jeito que faz natação, bateria, italiano, o que é muito válido. Mas para algumas pessoas, o trabalho acaba sendo muito significativo mesmo", afirma Diana, que acredita que o contato com os alfabetizandos e a abordagem política e pedagógica "provocadora" são alguns agentes de mudança nos universitários. "Em alguns casos, a transformação de estar em contato com uma sala de pessoas aprendendo a ler é muito maior no universitário do que nos próprios alunos atendidos pelo projeto". Ela conta que os componentes do ALFA substituíram a palavra "voluntários" pelo termo "membros do projeto" no seu dia a dia, para enfatizar a responsabilidade e o envolvimento dos participantes.

Apesar de ter voltado a trabalhar com comunicação no próprio projeto ALFA, Diana afirma que hoje a educação se tornou o seu principal projeto de vida. "Acho que não teria chegado à essa conclusão por uma via convencional, não teria escolhido ser professora como opção de carreria. Mas durante a faculdade acabou acontecendo e ssa grande revelação pra mim, da educação como possibilidade de intervenção, de construir novas formas de se relacionar e de superar os preconceitos."

***************************************
"No voluntariado aprendi a respeitar as pessoas, a saber da importância de dar atenção para uma criança ou para um idoso carente, além de conhecer e respeitar aquilo que não faz parte do nosso dia a dia, mas também é nossa responsabilidade" - Cynthia Soane, 2º semestre de Economia e colaboradora de responsabilidade social da PUC-JR.


Os voluntários da PUC Júnior (empresa júnior da Faculdade de Economia, Administração, Contabilidade e Atuária da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo) seguem um caminho diferente dos alunos que se envolvem em ações sociais por livre incitativa. Participar da empresa significa, para muitos, uma forma de entrar no mercado de trabalho com mais experiência e maturidade profissional. Muitos acabam se interessando pelos projetos de atuação social da empresa por acaso, como a diretora da área de Responsabilidade Social da empresa Mariana Haddad.

Desde o primeiro ano da faculdade de administração, Mariana participou dos processos seletivos da PUC Júnior para atuar na área de marketing. Foi durante um desses processos, quando estava cursando o segundo ano, que os alunos da empresa responsáveis pelas entrevistas encaminharam Mariana para a área em que hoje atua - a coordenação e supervisão de projetos como a Escola da Gente (adoção do espaço de uma escola por parte dos alunos), o Trote Solidário, a Campanha do Agasalho, além de várias outras campanhas de doação e visitas a organizações como asilos e orfanatos. "Hoje eu tenho certeza de que não podia estar em uma área melhor. Na PUC Júnior eu descobri que podia juntar o que eu gosto de fazer com o meu aprendizado", afirma Mariana.

Cynthia Soane, colaboradora da área de Responsabilidade Social, conta que procurou o trabalho voluntário por influência da sua família, que sempre esteve envolvida em ações sociais: "achei que era exatamente isso que eu queria fazer, trabalhar mais com as pessoas, ter contato próximo com elas". Ela esclarece que os projetos sociais da empresa são internos, voltados para a participação dos juniores, cerca de 70 estudantes da FEA/PUC. Metade deles está envolvida no projeto de alfabetização dos funcionários da empresa Paulista, que presta serviços para a faculdade. Eles se revezam para dar aulas particulares duas vezes por semana para seis alunos, sendo que cada um doa aproximadamente uma hora do seu tempo por mês para o projeto. Além disso, todos os funcionários da empresa costumam participar das doações de sangue e de alimentos organizadas pela empresa.


************************
"Venho para o projeto com disposição porque todas as vezes sinto o carinho dos alunos e vejo como mudou o entrosamento e a personalidade deles. Quando a gente faz trabalho voluntário, só a gente é quem ganha" - Felipe de Camargo Barros, aluno do 4º semestre do curso de moda da Unip e coordenador das oficinas do projeto Costurando o Futuro.


Um aluno da escola pública Celso Leite Ribeiro é o único menino participante da oficina de customização e corte e costura oferecida pelos alunos de moda da Unip (Unidade Paulista) no projeto Costurando o Futuro. Para ele, os monitores da oficina tiveram que preparar assessórios especiais além das lantejoulas e brilhos utilizados pelas outras garotas para customizar seus projetos. Além de cuidar desses detalhes, os voluntários da oficina têm que tomar cuidado com a linguagem utilizada com as crianças - "por favor" e "obrigado" são muito mais usados nas aulas do que entre os amigos de faculdade - e com o tipo de música que tocam em sala, para agradar a todos e promover a socialização do grupo.

Felipe de Camargo Barros, aluno do 4º semestre do curso e coordenador das oficinas, está acostumado a realizar trabalhos voluntários desde a adolescência. Os pais o levaram pela primeira vez a um asilo quando ele tinha 13 anos, e depois disso ele passou a visitar por conta própria hospitais de crianças com câncer: "lembro que eu comprei biscoitos na primeira vez que visitei as crianças, mas elas nem ligaram pra isso, só deram importância pra mim, pro meu contato com elas".

Dessa experiência, Felipe afirma ter aprendido a importância de dedicar parte do seu tempo aos outros. Seu papel é escalar monitores (outros estudantes do curso) e supervisionar seu trabalho junto aos 17 adolescentes que cursam a oficina. "O melhor de tudo é que a gente aprende com eles também, porque os nossos olhares mudam, e aprendemos que não existe nada difícil, apenas coisas que são mais trabalhosas de se fazer", diz.

A participação de Felipe nas oficinas aconteceu depois de um convite feito pela coordenação do curso de moda, que deu autonomia e apoio pedagógico para os alunos organizarem as oficinas. "A intenção era fazer com que nossos alunos percebessem que existe uma comunidade em volta deles, e que eles podem levar pra essa comunidade o conhecimento que produzem aqui dentro", afirma a professora coordenadora do curso de Moda Cleusa Andrade.

Assine

Assine gratuitamente nossa revista e receba por email as novidades semanais.

×
Assine

Está com alguma dúvida? Quer fazer alguma sugestão para nós? Então, fale conosco pelo formulário abaixo.

×