Universitários dão show em Gramado Cine Vídeo
Festival abre espaço para a divulgação de trabalhos acadêmicos.
Depois de horas em cima do computador fechando a edição do seu vídeo, certamente, você ganhou umas olheiras a mais, graças às horas de sono a menos, não é? Talvez os mais estressados até tenham recebido a visita dos indesejáveis fios de cabelos brancos. É, preparar uma "obra-prima" para o cinema não é mesmo fácil. E quem está em começo de carreira sabe o peso da responsabilidade. Mas, se você quer e está se preparando para ingressar na área audiovisual, o Gramado Cine Vídeo é a chance e vale o sacrifício.
Não é à toa que, anualmente, estes são os depoimentos de praxe dos vencedores do evento, que promove o intercâmbio de idéias, a comercialização e a divulgação de produtos audiovisuais brasileiros. "É uma forma de fazer com que todo este empenho seja reconhecido e valorizado. E ainda, uma alternativa de tornar público aquele trabalho acadêmico que, até então, só valia uma nota", assegura o estudante de jornalismo da FEEVALE e diretor do documentário Câncer de Mama - Melhor Vídeo Social da categoria Universitário Brasileiro da 14º edição -, André Haar.
Realizado paralelamente ao Festival de Cinema de Gramado, a principal atração do evento é a Mostra Competitiva do Festival do Vídeo Brasileiro Universitário, considerada a mais importante do gênero no país. A iniciativa abre mais espaço para as produções universitárias, visando a qualidade videográfica e audiovisual. "Uma oportunidade para que os talentos adormecidos das universidades possam ter o seu lugar ao sol", explica o coordenador do Gramado Cine Vídeo, Daniel Bertolucci.
Os estudantes, não só dos cursos de Cinema, mas também das graduações de Publicidade e Propaganda, Jornalismo e Radio e TV, podem participar das categorias "Vídeo Universitário Gaúcho" e "Vídeo Universitário Brasileiro". As competições são subdivididas em oito gêneros: Videoclipe, Documentário, Vídeo Social, Programa de TV, Reportagem, Vídeo Publicitário, Ficção e Experimental. Além disso, todos os participantes podem concorrer ao Prêmio Destaque do Júri e ao de Melhor Vídeo Nacional.
"Muito mais do que a premiação, a competição possibilita que o estudante tenha um feedback, do próprio mercado de trabalho, de suas atividades. Através destes espaços é possível ter dimensão da repercussão de seu trabalho", ressalta o estudante de Cinema e Vídeo do UNA Centro Universitário e diretor do curta-metragem Trem Fantasma - Melhor Vídeo Nacional e Ficção da categoria Universitário Brasileiro da 14º edição -, Sergio Gomes.
Quantidade x qualidade
Por ser reconhecida nacionalmente, a disputa para a conquista do Galgo de Ouro, troféu oferecido aos vencedores do festival, é cada vez maior. Para se ter uma idéia, na 14º edição, que aconteceu de 14 a 19 de agosto, no Centro de Eventos da UFRGS (Universidade Federal do Rio Grande do Sul), a mostra alcançou um novo record de participação. Foram mais de 1.000 vídeos inscritos e apenas 35 premiados. "Recebemos representantes de universidades de todo país, inclusive do Norte e do Nordeste que possuíam um índice participativo muito baixo comparado aos das demais regiões", aponta o coordenador.
Mas não é só a quantidade que vem aumentando, a qualidade dos trabalhos inscritos também tem sido bastante expressiva. Vale lembrar que na edição passada o júri oficial da competição decidiu, por unanimidade, não conceder o prêmio a três gêneros em virtude de insuficiências técnicas e artísticas nas produções concorrentes. E este ano apenas o gênero Vídeoclip da categoria Vídeo Universitário Gaúcho ficou de fora da competição. "O puxão de orelha do ano passado surtiu efeito. O nível das produções foi satisfatório e até nos surpreendeu em algumas categorias, principalmente na Universitário Brasileiro", conta Bertolucci.
Para o coordenador do evento, este aumento da qualidade das produções é reflexo do auxílio e do incentivo das universidades. "Cada vez mais, as instituições têm investido em equipamentos e ilhas de edições para possibilitarem novos caminhos aos seus alunos de Comunicação, já que o Cinema, hoje, é considerado um mercado potencial", conta. Até porque não é só o universitário que sai ganhando com a premiação. "As faculdades estão sendo representadas pelos trabalhos de seus alunos, por isso também serão avaliadas através deles", alerta.
Não há como negar que as universidades exercem uma grande influência nas produções desses vídeos. Além das orientações profissionais, são elas que disponibilizam todos os equipamentos e a infra-estrutura para as produções audiovisuais, elementos que muitas vezes determinam a qualidade do vídeo. Por isso, a interação entre o estudante e a instituição é fundamental para o sucesso de um vídeo universitário.
O recém-formado em Jornalismo pela Unisinos (Universidade do Vale do Rio dos Sinos), Júlio Ferreira, reconhece a importância da instituição no desenvolvimento do documentário Brasil Eterno Quilombo - produção premiada como Melhor Vídeo Nacional e Melhor Documentário na categoria Vídeo Universitário Gaúcho desta última edição do festival. "Utilizei os laboratórios da universidade, os técnicos e toda a logística para fazer este trabalho. Além disso, tive a orientação dos professores durante todo o processo", relata o diretor.
Mas, em algumas ocasiões, os estudantes, mesmo com todos estes auxílios das instituições, acabam tendo que gastar uma graninha com o cenário, com o figurino e até com as milhões de cópias do roteiro. E fique você sabendo que está é uma responsabilidade do aluno e que as universidades não oferecem nenhuma colaboração neste aspecto.
Para produzir o Trem Fantasma, Sergio Gomes teve que fazer um razoável investimento. "Nada que estivesse fora das minhas condições. A produção já foi pensada de acordo com as possibilidades financeiras do grupo", conta. O estudante alerta ainda que este é um dado muito importante e que deve ser pensado antes de colocar o projeto em prática, até mesmo para saber se ele é viável ou não.
Nem sempre, porém, para produzir um trabalho de qualidade é preciso investir muito dinheiro. O vídeo publicitário O Peixe, criado pelo recém-graduado em Publicidade e Propaganda pela Anhembi Morumbi, Zeca Riscala, não precisou mais do que uma boa idéia e um computador para ser realizado. "A criatividade é um dos aspectos mais relevantes em um trabalho, seja ele audiovisual ou não. E foi a partir de uma boa idéia e com dedicação que consegui desenvolver este trabalho", relata Riscala. E assim, o Projeto de Conclusão de Curso tornou-se o vencedor do prêmio de Melhor Peça Publicitária da categoria Vídeo Universitário Brasileiro.
Como vencer
Aspectos como criatividade, qualidade técnica, originalidade, ritmo e relevância do tema são levados em consideração na hora do julgamento do júri. Por isso, para os estudantes que pretendem participar da próxima edição do Festival de Gramado, Bertolucci indica que se qualifiquem e procurem novas formas de desenvolver o seu trabalho. "Vá ao teatro e ao cinema e leia entrevista. Não para copiar e nem para se basear, para tirar subsídios interessantes para a confecção da obra", recomenda.
A premiação é muito subjetiva, depende de quem está julgando. O Trem Fantasma, por exemplo, foi inscrito em outros dois festivais universitários, mas em nenhum deles foi premiado. E mesmo assim, sem desanimar do sonho, Gomes se inscreveu no Gramado Cine Vídeo, onde conquistou o principal prêmio do festival. "O gênero do curta é atípico, há uma linguagem de impacto visual muito grande e o filme é aberto à interpretação. Um estilo que não agrada a todos. Aproveitei o ambiente acadêmico para inovar e para experimentar novas fórmulas", afirma.
Vencer o Galgo de Ouro não é simplesmente receber um troféu. Para universitários, ou mesmo recém-formados que ainda estão iniciando suas carreiras, a vitória pode trazer outras recompensas que vão além da premiação. "Serve como uma porta de entrada para o mercado de trabalho, já que o festival, durante esses treze anos, conquistou credibilidade no mercado audiovisual", assegura o coordenador do Gramado Cine Vídeo, Daniel Bertolucci. "Podem facilitar para o encontro de patrocinadores, produtores e até distribuidores."
"Procuro estar com os pés bem no chão, não sei se haverá resultados imediatos na minha carreira. Mas só este reconhecimento já foi ótimo, então qualquer coisa que vier a mais será lucro", brinca Gomes.
Para Riscala, as coisas aconteceram um pouco diferente. O recém-graduado já recebeu uma nova proposta para mudar de área. "Trabalho com produção há dois anos. Mas uma área que me identifico é a pós-produção. E, hoje, depois desta premiação, há grandes possibilidades de realizar este sonho."