Universitárias dão oficinas de teatro para pessoas com deficiência
“Professoras, quero ser a bailarina”. Ao ouvir o desejo da aluna no momento da distribuição de papéis para um espetáculo teatral de criação coletiva, as professoras ficaram contentes, mas com certo receio. A aluna apresentava uma deficiência física e poderia ter dificuldades para encarar o papel. “Não diríamos não a ela. Sempre trabalhamos a partir da resposta do aluno. Concretizar esse desejo foi um desafio para nós, educadoras e educando. No final, todos ficaram emocionados”, comenta a arte-educadora Pâmella Cruz. Enxergar o indivíduo e não a deficiência é uma das concepções da oficina de teatro do Projeto de Extensão da Universidade Estadual Paulista (Unesp), Artinclusiva, iniciado em 2001. As aulas são ministradas por quatro alunas-bolsistas do curso de Licenciatura em Artes Cênicas: Anna Galli, Graziella Dias, Luma Couto e Pâmella Cruz. O grupo faz esse estágio com os freqüentadores da Estação Especial da Lapa. A entidade, criada em 1990 pelo Governo do Estado de São Paulo na capital, é um centro de convivência e reabilitação que oferece cursos gratuitos para pessoas com deficiência. São duas turmas da oficina teatral do Projeto Artinclusiva. A quarta-feira é o dia das atividades com os alunos com deficiência mental. Neste ano, são nove alunos entre 24 e 46 anos de idade. Já da segunda turma, de quinta-feira, participam deficientes físicos e o público em geral. Composta por sete alunos entre 16 e 64 anos de idade, ela se reúne semanalmente por duas horas. A divisão entre deficientes físicos e mentais foi proposta pela Estação Especial da Lapa. “Quando entrei no projeto, queria saber qual era a deficiência de cada aluno, acreditando que assim saberia mais sobre eles, saberia o que fazer na aula. Após a vivência, percebi que todas as categorias pouco me diziam sobre eles”, explica Pâmella que está no projeto Artinclusiva há quatro anos. Para a arte-educadora Graziella Dias, segundo ano de Artes Cênicas e primeiro ano no projeto, não há diferença entre dar aulas para pessoas com deficiência e para pessoas sem deficiência. “Em todas, encontraremos algum tipo de dificuldade: alunos mais tímidos ou menos participativos”, exemplifica. Já a arte-educadora Luma Couto, segundo de Artes Cênicas e segundo ano no projeto, afirma que a única dificuldade é encontrar outras maneiras de interação com os alunos. “Estamos muito acostumados com a comunicação verbal, mas alguns alunos não conseguem se expressar desse modo. Então, precisamos encontrar novas técnicas”, comenta. Educação pela experiência As jovens educadoras concebem o teatro como uma atividade coletiva que possibilita olhar a si mesmo e o mundo de uma maneira diferenciada. “Defino nossa oficina de teatro como uma experiência, em que cada pessoa se permite criar e se arriscar, o que contribui para uma maior autonomia da pessoa”, explica Pâmella. A partir deste conceito de teatro, as graduandas escolheram trabalhar com o método improvisacional. Esse recurso permite aos participantes exercitar a espontaneidade e a criatividade. Não há um texto para os alunos encenarem. As professoras propõem uma atividade. Por exemplo, dar um novo significado para uma caixa de papelão. Os alunos transformam o objeto em um aparelho de som e criam uma cena. Esse é o princípio do jogo dramático. “O jogador é um sujeito que cria e se reinventa na própria experiência do jogo”. O desenvolvimento da expressão e da socialibidade são os avanços que as professoras notam nos participantes das oficinas. “A aula é um espaço de encontro. Aqui eles podem falar o que pensam e o que estão sentido. Os pais costumam dizer que eles estão mais falantes em casa”, comenta Luma. “Além da expressão, o teatro pede o trabalho coletivo. Por causa das atividades em grupo, acabam fazendo amizade. Isso é importante para eles, pois, geralmente, vivem fechados no ambiente familiar, onde não têm voz”, fala Graziella. O ensino para as professoras deve ser uma atividade prazerosa. “Quando vemos que um aluno com dificuldades para se adaptar em outras oficinas da Estação, chega ao teatro e permanece nas oficinas, ficamos contentes. Tínhamos um aluno que sempre fugia da sala, aos poucos foi ficando. Agora acompanha com prazer das atividades”, exemplifica Pâmella. Importância para formação O projeto Artinclusiva é considerado fundamental para a formação das graduandas em Licenciatura em Artes Cênicas da Unesp por propiciar a vivência na sala de aula. “Este trabalho me ajuda a repensar os conceitos vistos na faculdade. Discutir teoria é fácil. É só a prática que vai falar se vai funcionar ou não. A experiência do dia-a-dia me move a pesquisar outras coisas, a não ficar restrita a métodos já prontos”, reflete Graziella. Para Pâmella Cruz, o projeto é um dos pilares de sua formação como arte-educadora, pois não fez pensar apenas sobre a prática em sala de aula, como também no discurso sobre as pessoas com deficiência. Segundo a coordenadora do Artinclusiva, a professora Carminda Mendes André, o projeto de extensão complementa em pesquisa e em prática um conteúdo que não existe na grade curricular do curso. “Deveria ter uma disciplina para aprofundar esse conhecimento e essa prática”, comenta. (Envolverde/Portal Aprendiz) | |
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