Universidade japonesa aplica ensino democrático
Por Alan Meguerditchian, do Aprendiz
Pressão por resultados. Excesso de formalidade. Presença constante de punições, inclusive físicas. Essa é, em linhas gerais, a maneira de funcionamento das instituições de ensino japonesas. "Se o aluno não for para a escola regular e obter um sucesso, ele será rotulado ou considerado doente mental", explicou o professor da Universidade Tóquio Shure, Kageki Asakura, durante o debate "Universidade e Centros de Pesquisa Democráticos", que aconteceu na Conferência Internacional de Educação Democrática 2007 (IDEC), na cidade de Mogi das Cruzes (SP).
"O resultado é um número grande de desistentes em todos os níveis", lembrou. Para tentar modificar tal realidade, o Instituto Tóquio Shure aplica, desde 1985, a educação democrática para crianças de seis a 20 anos. Em 1999, a instituição fundou, nos moldes democráticos, a universidade na qual o professor Asakura trabalha. Hoje, o instituto de ensino já tem 40 estudantes, que escolhem quantos anos ficarão na universidade e o que estudarão. "As opções dos estudantes são livres. Eles escolhem a própria linha de pesquisa e desenvolvem projetos que são apresentados à comunidade acadêmica durante seminários", explicou.
Para desenvolver os projetos, os estudantes podem solicitar a orientação de um dos 50 tutores que trabalham na universidade - uma proporção de menos de um aluno por educador. "As pesquisas devem surgir dos próprios alunos, ao contrário do que acontece no resto no Japão. Lá, não se espera que os jovens sejam eles mesmos. Eles apenas respondem às exigências feitas pela sociedade", contou.
Carro solar que participa de um campeonato mundial, teatro, cinema, entre muitos outros projetos foram citados por Asakura. "Além de toda a pressão, as aulas das universidades tradicionais não são interessantes, o que não atrai o estudante para o conhecimento", disse.
Mesmo com os bons resultados apresentados pelo professor, a Universidade Tóquio Shure não é reconhecida pelo governo japonês. Dessa forma, ela não pode certificar seus estudantes, além de não receber verbas do Estado. "O governo está interessado na eficiência, e eficiência para eles não é o que trabalhamos na escola democrática. É preciso mudar essa cultura. Mas isso é um processo lento", explicou.
Apesar do desinteresse e não reconhecimento oficial, quando o aluno achar que concluiu a formação de Direito na Universidade Democrática ele, mesmo sem diploma, se inscreve e faz a prova exigida para atuar como advogado no país. Sobre a sustentabilidade da instituição, o professor explicou que os alunos pagam mensalidades.
Questionado sobre o reconhecimento do mercado, Asakura disse que os estudantes não enfrentam problemas ao buscarem seu espaço profissional. "O que uma empresa quer não é um belo diploma. Se você apresenta diversos projetos criativos e bem-sucedidos realizados durante a graduação, prova que é um profissional qualificado", concluiu.
(Envolverde/Aprendiz)