20/10/2006

Unesco precisa de renovação

Em conferência na UnB, intelectuais criticam atuação tímida da organização. Falta compromisso com a atualidade.

Com 60 anos de existência, a Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco) está destroçada, cansada, precisa rever algumas de suas funções e a forma de atingir seus objetivos. Mesmo assim, o órgão ainda é fundamental para a busca de um mundo menos desigual e mais justo para todos. Esse diagnóstico da instituição foi feito por especialistas durante a conferência Unesco 60 – Repensando os seus Desafios no Mundo Globalizado, que abriu a VI Semana de Extensão da Universidade de Brasília (UnB). O evento segue até o dia 20 com mais de 200 atividades.

Os responsáveis pelo levantamento são o senador pelo PDT-DF e professor da UnB Cristovam Buarque, o cientista político e membro da Academia Brasileira de Letras (ABL) Cândido Mendes, o professor da Universidade Federal do Rio Grande do Sul Hélgio Trindade e o diretor da Capes, Renato Janine Ribeiro. Eles discutiram sobre os problemas da Unesco na presença do representante interino da instituição Vincent Defourny.

CONTRADIÇÃO – Cândido Mendes foi o mais polêmico e com os comentários mais contundentes. A hegemonia dos Estados Unidos, as fraquezas da Unesco, estudos sobre a paz, ecologia, nada parecia escapar da mira do cientista político. “Esse evento é até uma audácia: discutir sobre a renovação desse quase cadáver chamado Unesco. Como é possível pensar em uma organização internacional global nesses tempos de hegemonia?”, alfineta.

Em um discurso inflamado, com direito a murros na mesa, Cândido taxou de ridícula a forma como são conduzidos os estudos da paz e a ecologia. Mas indicou vários pontos de reflexão fundamentais para reformar o papel da Unesco no mundo contemporâneo. “É preciso buscar um sentido nos processos sociais, uma reavaliação histórica e mudar os modelos atuais”, alertou. Em um mundo cada vez mais dominado pelo medo, pela ditadura da mídia e o conflito entre Ocidente e Oriente, Cândido insistiu que a instituição deva lutar de forma mais vigorosa pelos direitos humanos e pela abertura do debate entre as nações.

O professor Hélgio Trindade relembrou o papel fundamental de produção e incentivo das Ciências Sociais realizado pela Unesco, mas apontou que a renovação de desafios é necessária. Uma das frentes é o intermédio dos diálogos entre as nações, feito de forma insuficiente e ainda inocente. “Se a organização não protagonizar o papel de emancipação social, ela passará de moribunda para morta”, criticou.

EDUCAÇÃO – Para o senador Cristovam Buarque, a Unesco é um pólo de resistência contra a hegemonia e, apesar de cansada, não é um fracasso ético, como outras instituições internacionais. “A Unesco deve assumir seu papel de promover mudanças. A cultura e a educação são os vetores dessa transformação”, refletiu. Cristovam reforçou a necessidade de universalização do ensino no mundo como uma revolução benéfica para todos.

O Brasil, diz Buarque, seria o país ideal para a experiência, já que possui os recursos e a “tragédia” na área. “Não é igualar o método de ensinar, mas a qualidade e o tempo de formação para todos”, explica. Segundo ele, se 2% do Produto Interno Bruto (PIB) mundial fossem para a educação, em 50 anos não haveria analfabetos e crianças fora da escola.

O diretor da Capes, Renato Janine, apontou outra perspectiva para a instituição. Ele aponta que questões como fome, violência e política passam à margem de muitos jovens, independentemente da classe social. Janine defende que a organização precisa estudar e atingir esse tipo de público, entendendo seus anseios e a realidade em que se insere.

Depois das críticas e sugestões, o representante da Unesco, Vincent Defourny, considerou a conferência um símbolo de aproximação com o mundo acadêmico. “O encontro propôs desafios e o diagnóstico foi tanto ‘pé no chão’ como elucidativo para o futuro da Unesco”, afirma.

Questionado pela UnB Agência sobre o teor das afirmações, Defourny apenas comentou o papel executado pela instituição. “A Unesco, com os seus 60 anos, é uma organização viva, que continua mudando e seguindo de perto as transformações e a complexidade do mundo de hoje”, disse.

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