Uma visita ao Museu Paulista: entre história, crianças e surpresas
Por Rafael Kato, da USP Online
Conversa na seção de arqueologia do Museu Paulista (MP) da USP, mais conhecido como Museu do Ipiranga:
- Mas tudo isso estava enterrado?
- Sim, estava. Olha a foto dos arqueólogos trabalhando.
- Nossa!
Esse foi o espanto de um aluno da terceira série do ensino fundamental da Escola Arte de Viver, da Lapa (Zona Oeste de São Paulo), que estava conhecendo o museu pela primeira vez. A reportagem do USP Online acompanhou a visita dessa turma e descreve as sensações das crianças em aprender sobre história no ambiente que recorda a Independência do Brasil. Sensações que misturam um ar de maravilha e de surpresa.
O primeiro elemento que impressiona qualquer visitante, seja criança ou adulto, é a imponência do prédio do Museu Paulista, inaugurado em 1890. O projeto do italiano Tommaso Gaudenzio Bezzi foi baseado no modelo dos palácios renascentistas, enquanto os jardins, de autoria do belga Arsenius Putteman, foram inspirados nos jardins do palácio francês de Versailles.
No saguão do prédio as crianças olham com espanto algumas peças, como a escultura do bandeirante Fernão Dias Pais (1608-1681), conhecido como "o caçador de esmeraldas".
Os alunos da terceira série sobem a escadaria observando as pinturas e a estátua de D. Pedro I; mas, no meio de tantos imponentes objetos artísticos, o pequeno Fabrizio Alves Dardes se impressionou com as esferas com as águas dos principais rios brasileiros.
Se as esferas chamam a atenção por certo enigmatismo - pois muitos alunos se perguntam "como a água foi colocada nessa bola?" - é o salão nobre do museu que desperta o espírito e admiração pelo grandioso.
Lá está a tela Independência ou Morte, de Pedro Américo. Um quadro que ocupa quase que a totalidade de uma das paredes e que atrai os olhares das crianças, muito menores que a própria altura da obra.
Carlos Henrique Ribeiro e Caio Souza Campos, ambos de nove anos e da mesma sala, não escondem o que mais gostaram: "O tamanho do quadro. Eu nunca tinha visto isso antes", dizem quase que em uníssono.
Saindo do salão nobre, a turma comandada pela professora Andréia Savóia segue correndo para a maquete do museu e depois para as salas que reproduzem um ambiente doméstico do Brasil Imperial. São louças, móveis, cuspideiras, cadeiras e fogões, camas e pequenos objetos e utensílios. Perguntada sobre o que achava de uma boneca do século XIX, que estava em exposição, Vitória Nogueira responde: "eu sei que na época ela era moderna, mas é um pouco estranha, mais feia que as minhas". Ela diz também que a sua mãe gostaria de ver as pratarias e as louças chinesas do museu.
A turma vai depois para a sala de cadeirinhas e liteiras, comuns no Brasil até o século XIX. Os alunos, acostumados aos carros ou ônibus escolares, não entendem muito bem como uma pessoa andava nesse tipo de veículo. Reclamações como a lentidão do meio de transporte e dúvidas em relação à força necessária para se andar nelas foi o que as crianças mais comentavam.
No Brasil Imperial, os proprietários de cadeirinhas também eram os mesmos que podiam ter retratos pintados por artistas, armaduras, e armas de fogo. Objetos de uma elite econômica que surpreendem os alunos e geram perguntas até mesmo para o repórter, que se vê obrigado a responder sobre o funcionamento de uma pistola de percussão.
O Museu Paulista não possui monitores para os 360 mil visitantes anuais. Um aproveitamento de tudo que ele pode oferecer depende de um trabalho prévio em sala de aula. Essa preparação pode ser vista quando os alunos reconhecem algum trecho do livro de história ou uma lição da professora. Um dos alunos reconheceu a cana-de-açúcar no quadro "A partida da Monção", de Almeida Junior, e outro o uso do fogo para intimidar os índios no quadro "Anhanguera", de Theodoro Braga.
A última parte do passeio foi a visita ao subsolo e à lojinha de souvenirs. Fabrizio comprou uma caneta que tem a fachada do prédio impressa e, segurando a caneta na mão, conheceu a parte mais "secreta" do museu: a sala com a coleção de ferros de passar, cuja porta estreita faz com que apenas as crianças cheguem com tranquilidade ao local.
Depois dessa última seção é chegada a hora de ir embora. A turma sai pela porta lateral do prédio, a professora contando o número de alunos e as crianças contando umas para as outras o que mais gostaram de conhecer no Museu Paulista.
(Envolverde/Agência USP)