Um Homem, um Negro e uma Mulher na Lua
O racismo é tão banalizado que discursos discriminatórios são naturalizados até pela rede de televisão de maior audiência do país — emissora conhecida por sua parcialidade histórica, desde o golpe de 1964 e o impeachment da presidente Dilma, até a ascensão de um governo genocida e a tentativa de culpar a gestão atual por escândalos financeiros ocorridos no governo que ela mesma ajudou a eleger.
Poderíamos recorrer à psicologia e classificar o episódio como um ato falho — que, segundo Freud, revela um desejo ou conflito inconsciente. Entretanto, não se trata de um lapso, mas da falta de humanidade e do preconceito enraizado nessa mídia manipuladora. Ao noticiar a missão Artemis II, a jornalista do Estúdio i (GloboNews) afirmou, com naturalidade, que a tripulação era composta por “um homem, um negro e uma mulher”.
Ao separar o "negro" das categorias "homem" e "mulher", a fala retira sua humanidade. Ela subjetiva o homem e a mulher, mas objetiva o negro, coisificando-o. A objetivação nega a subjetividade do outro, reduzindo-o a uma ferramenta ou a um estereótipo. Na política e na mídia, essa reincidência é nítida.
O racismo estrutural, validado por esses veículos, ignora sentimentos, historicidade e dignidade por meio da coisificação. Frequentemente, o negro é reduzido a uma força de trabalho descartável ou, como sugeriu certo político mineiro, ao estereótipo do criminoso. Essa visão o torna "irrelevante" para a sociedade, o que se reflete nas estatísticas: 86% das pessoas mortas pela polícia no Brasil são negras[1].
Essa objetivação explícita nada mais é do que o prolongamento do processo colonial e escravocrata que negou a individualidade negra por séculos. O Brasil ainda não extirpou a escravidão; vive à sua sombra, objetivando o negro economicamente como mera peça de reposição.
Essa lógica também se manifesta no campo estético e sexual, onde o corpo negro é transformado em fetiche e item de consumo. Essa abordagem subtrai a dignidade e a afetividade, impedindo que esses cidadãos sejam vistos em sua plenitude. As mídias televisivas deveriam ser aliadas da inclusão e da ética, mas preferem favorecer elites e interesses próprios, manipulando uma massa alienada de forma intencional e tornando secundário o que deveria ser prioridade: educar e informar com humanidade.
[1] https://agenciabrasil.ebc.com.br/radioagencia-nacional/direitos-humanos/audio/2025-11/86-dos-mortos-pela-policia-de-9-estados-eram-negros-diz-estudo