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Nairobi, 2 de novembro (Terramérica).- É evidente que a mudança climática apresenta graves riscos ambientais, econômicos e sociais. Contudo, também apresenta um desafio nunca visto ao conjunto de dirigentes mundiais. Poderão os governantes enfrentar esse desafio quando se reunirem em Copenhague, em dezembro, para negociar um novo acordo internacional sobre o problema climático? A concessão do prêmio Nobel da Paz ao presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, oferece esperança e representa um estímulo.
Desde que assumiu a Presidência, em janeiro deste ano, Obama demonstrou boa disposição para empregar o enorme poder de seu país no esforço para forjar um mundo mais pacífico, e enfatizou a importância da cooperação internacional, do compromisso diplomático e do respeito mútuo. Segundo sua visão, tudo é possível para quem está decidido a superar obstáculos. Todos esses princípios são essenciais para resolver o desafio climático.
A realidade do aquecimento global apresentará exigências sem precedentes a todos os países, tanto por causa dos milhões de refugiados econômicos e ambientais que chegarão às praias das nações ricas, como pela deterioração das florestas e dos sistemas agrícolas, além da ameaça de fome maciça entre os pobres. Sabemos que a mudança climática não afetará igualmente a todos. Os mais pobres, os mais velhos, os mais jovens, as mulheres, os que vivem ao longo da costa ou em regiões áridas e os que dependem diretamente da terra para sua subsistência sentirão muito mais seus efeitos. Provas dos graves efeitos da mudança climática surgem diariamente, especialmente em regiões já vulneráveis.
Em meu próprio país, o Quênia, uma prolongada seca fez com que cerca de dez milhões de pessoas – quase um terço da população – necessitem de ajuda alimentar. As colheitas foram perdidas e o gado, sem água ou forragem, está morrendo. A vida natural, coluna vertebral da indústria turística do Quênia, também está morrendo pela redução do volume dos rios, enquanto a falta de água afeta as pradarias. A fome e a sede aumentam a mortalidade de crianças e idosos. Em países como Guatemala, as chuvas insuficientes e o empobrecimento dos solos devastaram as colheitas de milho e feijão. Milhares de pessoas enfrentam uma emergência alimentar. Em outro extremo do mundo, na Índia e em Bangladesh, bem como na África ocidental, especialmente em Níger, as chuvas excessivas originaram inundações calamitosas que mataram milhares de pessoas.
O problema climático é um desafio fundamental para a liderança mundial, que requer dirigentes honestos e de princípios, visionários e práticos, que transmitam a urgência das tarefas a empreender e preparem seus povos para enfrentar as duras alternativas e inevitáveis sacrifícios decorrentes da necessidade de se frear o aquecimento global. Esses dirigentes devem instrumentar políticas efetivas em beneficio das atuais e futuras gerações, e deixar de lado as soluções de rotina ou com o objetivo de apenas obter vantagens políticas de curto prazo. Esses líderes deveriam pedir aos seus povos a mesma lealdade, transparência, equidade e justiça que devem exigir de si mesmos.
Entretanto, as nações industrializadas e as em desenvolvimento têm responsabilidades diferentes em relação à crise climática. A África, por exemplo, contribui com apenas 5% nas emissões de gases de efeito estufa que estão aquecendo o planeta. Portanto, os países industrializados têm a obrigação não só de reduzir sensivelmente suas emissões de gases estufa, como também de se comprometer com a ajuda às nações mais pobres para que possam adaptar-se aos impactos climáticos e empreender políticas de desenvolvimento que não sejam nocivas para o planeta. Esse é o caminho para a justiça climática.
Também os governantes dos países em desenvolvimento devem enfrentar o desafio. Muitos desses países passaram por décadas de más administrações ou descuido com o meio ambiente, e as atuais políticas continuam sendo muito inadequadas. Alguns governos toleraram, ou mesmo facilitaram, o saque de florestas, a degradação do solo e práticas agrícolas insustentáveis. Tudo isso ampliou a probabilidade de as chuvas não serem normais, de a camada fértil do solo sofrer erosão e desertificação.
Estas condições levarão ao crescimento da pobreza e incentivarão conflitos desesperados e mortais pelos escassos recursos que restarão. Em um mundo assim, a paz é esquiva e os recursos que deveriam ser destinados à proteção do meio ambiente são usados para enfrentar os conflitos e a insegurança geral. É muito o que está em jogo para que se continue tolerando manobras retardatárias ou políticas arriscadas e imprevistas. Se fracassarmos agora, as futuras reuniões de cúpula deverão se concentrar em atenuar os custos em vidas humanas e recursos que a crise climática trará paralelamente.
O prêmio Nobel da Paz dá a Obama uma oportunidade maior para incentivar o mundo para a cura de velhas e novas feridas e aprender a coexistir em paz. Quando receber o prêmio, no dia 10 de dezembro, a conferência mundial sobre o clima em Copenhague já estará em marcha. Esta é a grande ocasião para que os líderes mundiais demonstrem que entendem a natureza singular do desafio e que estão preparados para enfrentá-lo. Chegou a hora das decisões. A mudança climática não exige nada mais e nada menos.
* A autora recebeu o Nobel da Paz em 2004, é fundadora do Green Belt Movement e cofundadora da Iniciativa das Mulheres Prêmio Nobel. Direitos exclusivos IPS.
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Crédito da imagem: Fabrício Vanden Broeck
The Green Belt Movement, em inglês http://www.greenbeltmovement.org/
Iniciativa das Mulheres Prêmio Nobel, em inglês http://nobelwomensinitiative.org/
Artigo produzido para o Terramérica, projeto de comunicação dos Programas das Nações Unidas para o Meio Ambiente (Pnuma) e para o Desenvolvimento (Pnud), realizado pela Inter Press Service (IPS) e distribuído pela Agência Envolverde. (Envolverde/Terramérica)
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