Terceira Idade na linha de frente pela inclusão
Por Marana Borges e Paulo Gama
Aulas de saneamento ambiental, ginástica, oceanografia física, pensamento filosófico. Os alunos da terceira idade estão ocupando cada vez mais as salas de aula e os espaços da Universidade. Eles quebram o isolamento das grandes áreas do conhecimento e escolhem disciplinas que, aparentemente, nada tem em comum. Sentam-se ao lado de calouros e veteranos dezenas de anos mais jovens, desenvolvem provas e trabalhos em grupo, e ainda fazem amizades.
Fiorindo Zanetti, de 68 anos, e Luiz Antonio Cavalcanti, de 60, são colegas de turma na disciplina Introdução à Astronomia, que reserva dez vagas para idosos, oferecida pelo Instituto de Astronomia, Geofísica e Ciências Atmosféricas (IAG) da USP. Longe dos bancos universitários há mais de 15 anos, eles agora dizem se guiar pelos gostos, e não pela pressão do mercado de trabalho. “A vantagem é que a gente pode fazer o que gosta, sem preocupação de arranjar emprego”. Cavalcanti conta que sempre vinha buscar sua filha, caloura do curso de História, e acabou querendo ficar mais no campus. Já havia se formado em Engenharia e então decidiu estudar Astronomia. Ele e seu colega, que se formou em Odontologia, pretendem continuar estudando no IAG.
O Projeto Universidade Aberta à Terceira Idade (UATI) teve um papel decisivo na participação dos idosos na vida acadêmica. O programa, ligado à Pró-Reitoria de Cultura e Extensão, possibilita que o aluno se aprofunde em algum tema e, raras vezes, exige algum pré-requisito na área a ser estudada. Em 1994, um ano após sua criação, havia 847 matrículas de alunos acima de 60 anos nos três tipos de atividades que o Projeto oferece: as didático-culturais, físico-esportivas e vagas em disciplinas regulares. Em 2005, o número foi de 7.551. Para a professora Eclea Bosi, idealizadora do programa, esse aumento se deve à difusão do projeto pela mídia e ao crescimento das disciplinas oferecidas. No entanto, não reflete o reconhecimento do idoso pela sociedade. “Seria preciso um amplo e demorado processo democrático de conscientização e luta pelos direitos humanos que alcance todas as faixas da sociedade, sobretudo a da terceira idade”, diz. Segundo a ONU, em 2051 o Brasil será um dos dez países do mundo com maior população acima dos 60 anos.
Apesar do sucesso do projeto, calcula-se que parte significativa dos idosos abandona os cursos na USP. Entre os possíveis motivos da desistência, estão a distância entre a moradia e o campus, doenças e dificuldade em acompanhar os cursos. O professor Enos Picazzio afirma que o IAG passou a exigir nível superior em qualquer área para efetuar a matrícula na disciplina Introdução à Astronomia porque os alunos não conseguiam assimilar as informações do curso. Ainda assim, o Instituto oferece há anos um curso livre somente para a terceira idade, sem pré-requisitos.
Já para a professora Terezinha Fátima Fernandes, que ministra a disciplina regular Leitura e Produção de Textos na Escola de Comunicações e Artes (ECA), a presença de alunos da Terceira idade contribui – e muito – para o desenvolvimento das aulas. “A disciplina que ministro depende muito do grau de desenvolvimento da sensibilidade e da experiência de leitura dos alunos. Isso não depende da idade, mas os alunos com maior abertura para experiências e com maturidade aproveitam mais.”
Socialização
Uma das grandes vantagens do projeto é reunir numa mesma sala jovens e idosos. Issis Valenzuela, aluna de audiovisual, por exemplo, estuda astronomia com Zanetti e Cavalcanti e diz não ver diferença entre os alunos. Ela já cursou outras matérias com idosos em seu curso e, em alguns casos, percebeu que o ritmo deles é naturalmente diferente do ritmo da turma. Do outro lado, os alunos da terceira idade comemoram a convivência com os jovens. “Jovem é vida. Ele pode até estar cheio de problemas, mas está feliz”, diz Cavalcanti.
A integração entre os próprios alunos da terceira idade também é bastante valorizada, como no caso de Djalma Lofrano, de 75 anos. Esse semestre, ele participa pela primeira vez de algum dos programas da UATI, no curso de Educação Física específica para idosos acima dos 75 – “veja só, com essa idade sou o caçula da turma”, brinca. “Além da parte da cultura física, estamos também fazendo esse relacionamento muito agradável, e raro nesta idade, sobretudo em São Paulo, onde as pessoas têm tendência à inimizade, afastamento, isolamento”, afirma. Nem o horário da aula – 7h15 da manhã – causa desânimo: “Eu que sou vizinho [do campus], levanto pouco antes das 6 horas e venho a pé”, diz, orgulhoso do vigor físico. Nos dias em que não tem aula, ele faz caminhadas pelas ruas da Universidade: “Menos no domingo, que é dia de repouso, né?”, diz sorrindo. Djalma se formou na Faculdade de Direito da USP em 1953, e credita a isso essa atual relação de proximidade com a USP.
Novas experiências
A dedicação e integração tornam-se mais marcantes quando esses alunos participam atividades que nunca haviam desenvolvido quando jovens. É o caso da maioria dos que freqüentam o curso "Reproposta: narrativas da Terceira idade", atividade que substituiu a antiga "Aventura de fazer jornal", oferecida pelo Departamento de Jornalismo e Editoração da ECA. As aulas, que acontecem semanalmente e são de responsabilidade da professora Cremilda Medina, desenvolvem e aperfeiçoam habilidades na construção de textos e produção de jornais.
“É como se você estivesse apalpando uma sala escura e abrissem uma janela que clareia tudo”, diz Modesto Laruccia, de 74 anos, se referindo às orientações recebidas em aula sobre a construção de narrativas. “Agora me dou ao luxo até de fazer críticas a jornalistas famosos”, arrisca dando risada. O resultado do trabalho dessa turma pode ser visto na Revista Reproposta, que tem seu lançamento marcado para o próximo dia 9 de maio, às 18 horas, no hall do prédio da Antiga Reitoria (av. Prof. Luciano Gualberto, travessa J, 374). Sobre publicar o texto em uma revista, Modesto diz: “quando falo pras pessoas, me sinto orgulhoso, porque nunca freqüentei uma escola de nível superior. É uma experiência inusitada.”
As vagas para os programas da UATI serão abertas novamente para o segundo semestre. A relação completa dos cursos e os prazos de inscrições podem ser conferidos no site do Projeto.