Site criado a partir de mestrado democratiza acesso ao conhecimento
Por Marana Borges
A imagem do cientista maluco trancafiado em seu laboratório enquanto os outros, pobres mortais, permanecem longe do conhecimento científico, mais uma vez é posta em xeque. Em nove anos de luta para democratizar a ciência, o site ScienceNet já colhe seus frutos. Surgido a partir de uma pesquisa de mestrado desenvolvida na Escola de Comunicações e Artes (ECA) da USP, hoje ocupa o primeiro lugar do ranking de sites recomendados pelo UOL, ao lado de importantes portais como o do Instituto Nobel (Noruega), Science Museum (Inglaterra) e La Grotte de Lascaux (França). O ScienceNet possui mais de 4000 acessos diários.
“A página não é um depósito de teses, a gente quer incentivar o gosto pela ciência numa linguagem mais compreensível”, diz o criador do site, Luís Victorelli, que também é assessor de imprensa da prefeitura do campus da USP de Bauru. Em parceria com o Hospital de Reabilitação de Anomalias Craniofaciais da USP (o Centrinho, de Bauru), com a Universidade do Sagrado Coração e com um provedor de internet, sua dissertação de mestrado saiu do papel e ganhou espaço na rede. Foi o primeiro site brasileiro a promover especificamente a cultura da divulgação científica. Também foi o primeiro a inserir de forma organizada diferentes mídias na notícia - texto, áudio, vídeo, foto. Até então os sites eram apenas adaptações do papel impresso para a tela do computador.
O internauta pode encontrar artigos de jornalistas e pesquisadores nacionais e estrangeiros, curiosidades, agenda de eventos, enquetes e uma WebTV 24 horas que veicula programação científica. Dentre as campanhas permanentes que o portal promove estão o respeito aos animais de laboratório e o incentivo à vocação científica. Vitorelli acredita que o diálogo entre cientistas e sociedade pode ser estreitado pela web. “A internet permite maior interatividade e aproximação”. Ele conta que muitas pessoas entram em contato com o portal, desde professores PhD que querem saber como publicar seus artigos até alunos do ensino fundamental que têm prova no dia seguinte e precisam tirar dúvidas.
Antecedentes
Em 1992, Luís Vitorelli criou no campus de Bauru o Centro de Divulgação Científica, que publicava um boletim mensal – o Sciencepress -, enviado à diversas jornais do país e do mundo. A publicação teve como essência a proposta do boletim Pré-pauta, criado em 1985 pelo jornalista e professor aposentado da ECA, Manuel Carlos Chaparro. O Pré-pauta ajudou a inovar a relação cientista e imprensa. Uma sinopse das principais notícias de pesquisas desenvolvidas pela USP era enviada direto para o jornalista com telefone de contato do pesquisador. O fato de não passar pelo “filtro” da assessoria de imprensa agilizava a comunicação e possibilitava maior inserção das pautas nas redações dos jornais. Extinto após um ano, o Pré-pauta foi um dos fatores que influenciou a criação da Agência USP de Notícias, em 1995.
Por trás de todas essas iniciativas estava a idéia de democratizar o acesso à ciência. Em seu mestrado, Vitorelli concebeu o Projeto ScienceNet de Ciência e Cidadania, que em 1997 foi transformado no atual site. Para garantir maior democratização ainda da ciência, todos os arquivos do portal são disponibilizados em alta e baixa resolução, permitindo que usuários que possuem internet discada ou de banda larga possam navegar facilmente. Em 1999, o portal representou o Brasil na II Conferência Mundial de Jornalismo Científico, promovido pela Unesco e, um ano depois, foi o único representante do segmento Jornalismo Científico na II Conferência Mundial de Biotecnologia.