31/05/2011

Segundo emprego é desafio para quem começa em cargos básicos

Mas, segundo ele, só é preciso cuidado para não ficar muito tempo em funções fora da área. "É normal começar como office-boy, por exemplo, mas ficar durante muito tempo nessa atividade pode não ser muito bem visto pelas empresas. Pode parecer falta de iniciativa e acomodação." Há muitas organizações que possuem bons processos de seleção para que, mesmo sem experiência, a pessoa possa ser treinada na empresa. "Se o profissional tiver as habilidades certas para a área, a técnica ele aprende na companhia", analisa Elza. A analista financeira Talita Gomes Lopes, de São Paulo, começou a trabalhar com 18 anos com telemarketing. "Era o meu primeiro emprego e o mercado de trabalho não dá muita opção para quem não tem experiência. É bom ser independente, ganhar seu próprio dinheiro, mas essa profissão é muito desgastante. Aceitei porque sabia que seria algo temporário." Após seis meses, entrou na faculdade de Contabilidade e se apaixonou pela área. "Fui chamada para fazer estágio na construtora Odebrecht, onde fui efetivada e estou até hoje como analista financeira", conta Talita.

Preconceito - Segundo os especialistas, profissionais que começam como motoboy ou balconista não costumam enfrentar preconceito ao tentar mudar para a área da sua formação universitária. Mas têm de encarar a crescente competitividade do mercado. "É melhor um profissional começar a trabalhar, mesmo que em outra área, do que esperar uma função que se encaixe na sua formação", sugere Souto. As empresas valorizam aquela pessoa que tem já teve um primeiro emprego, mesmo que não tenha sido na própria carreira. O obstáculo maior é quando esse profissional está competindo por uma vaga com outro candidato que já está na área. Luiz Edmundo Rosa, diretor nacional de educação da Associação Brasileira de Recursos Humanos (ABRH-Nacional), concorda que a iniciativa de entrar no mercado de trabalho, mesmo que fora da área, é algo positivo. "Mostra dedicação e comprometimento do profissional."

"Antes, eu tinha vergonha de falar onde trabalhava. Hoje, sinto prazer no que faço e procuro sempre me atualizar em cursos da área. Fico feliz em ter me arriscado, pois várias pessoas que trabalhavam comigo continuam infelizes e inseguras de não conseguir fazer outra coisa", conta Lilian, que foi efetivada na mesma empresa e, atualmente, cursa superior em Design e Negócios de Moda. Além disso, o profissional deve buscar uma atividade na área no seu tempo extra, mesmo que seja sem remuneração. "Na própria universidade, ele pode participar da empresa júnior ou realizar um projeto de iniciação científica. Os alunos, em geral, não aproveitam tudo que o curso oferece", ressalta Elza Veloso, professora do Programa de Gestão de Pessoas da Fundação Instituto de Administração (Progep/FIA), de São Paulo. Se o jovem já terminou o curso superior e não conseguiu aproveitar as oportunidades extras da faculdade – muitas vezes por falta de tempo –, ele deve ter foco na área que pretende alcançar e buscar maneiras de se aperfeiçoar. "Cursos complementares e pesquisas de mercado ajudam. No início, ele irá ganhar um pouco menos, mas é preciso se firmar na carreira", aconselha Elza. Segundo ela, o ideal é que o profissional tenha desde cedo a consciência de que quer mudar de área e tente, no seu primeiro emprego, desenvolver competências importantes para a carreira que pretende seguir.

Com 17 anos, Ferreira prestou vestibular para Comunicação Social, com ênfase em Marketing. A empresa, por meio do Plano de Ascensão Profissional, financiou parcialmente a graduação. "Quando terminei a faculdade, fui para a área comercial, onde permaneci por oito anos enquanto não havia nenhuma vaga em marketing. Após um tempo, surgiu uma oportunidade como coordenador de marketing e me deram essa chance." O profissional também pode ir ao mercado com a ajuda de ex-professores ou colegas que estão atuando na área, caso não esteja em uma empresa na qual haja chance de mudar internamente. Souto lembra que a maioria das grandes companhias oferece programas de trainee, que podem ser um impulso para a carreira. "Normalmente, eles não buscam experiência, mas sim atitude, perfil e qualidades para serem investidas." A estudante Lilian Januário, de 26 anos, de São Paulo, trabalhou em telemarketing por três anos. "Foi meu primeiro emprego registrado. Antes, eu trabalhava como vendedora em uma loja no shopping, mas, pela facilidade de ser um emprego de seis horas e uma área que me daria mais oportunidades, decidi começar em telemarketing." Apesar de ter um bom salário, Lilian conta que muitas vezes trabalhava aos finais de semana e não tinha tempo para qualquer outra atividade. "Foi quando decidi fazer um curso técnico gratuito de Vestuário no Senai." Em seguida, Lilian conseguiu seu primeiro estágio na área de moda por meio de indicações de conhecidos. "Como me indicaram, entrar na área para mim foi mais fácil. Quando comecei, ganhava bem menos, mas essa foi a oportunidade que vi de fazer algo que eu realmente queria."

Profissionais de áreas mais simples que querem se especializar podem aproveitar oportunidades na própria empresa. Cargos que não requerem grande especialização, como atendente de telemarketing, office-boy, auxiliar administrativo, balconista, entre outros, são a porta de entrada de boa parte dos profissionais no mercado de trabalho. O primeiro emprego é uma forma de ocupação e renda que, em muitos casos, ajuda a financiar os estudos universitários. Mas, como conseguir dar um salto para deixar as áreas "básicas" e conseguir um emprego na área da sua formação? Segundo Rafael Souto, CEO da empresa de recrutamento e transição de carreira Produtive, o melhor caminho é aproveitar o ambiente da própria companhia e se aproximar de pessoas que possam ajudar nessa mudança. "Dependendo da empresa, o profissional pode conseguir ir para sua área internamente. É muito mais fácil mudar em um lugar onde já é conhecido pelas suas atitudes no trabalho." O publicitário Leandro Ferreira entrou no mercado de trabalho como office-boy na empresa zootécnica agrária Tortuga, de São Paulo. Aos poucos, foi conhecendo as diferentes áreas da companhia e acabou se interessando por marketing. "Comecei a mostrar meu interesse por aquele setor para os meus gestores, que me ajudaram a me iniciar na carreira."

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