Sebastião Rocha: Cansado de ver cadeiras vazias fundou uma escola debaixo do pé de manga
Quando eu saí da universidade, vi que precisava criar um espaço de aprendizagem. Há 21 anos resolvi, com um grupo de amigos, criar o Centro Popular de Cultura e Desenvolvimento, o CPCD. Nós tínhamos um monte de perguntas, de dúvidas. A primeira pergunta que a gente se fez foi se era possível educar sem escola, porque a gente via muito menino na rua querendo aprender, e que ia pra escola e era expulso. Repetia um, dois anos e saía fora. Havia muito projeto de construção de escolas, e no fim, as salas ficavam vazias.
Então eu fui para a Rádio Clube de Curvelo (MG) e falei: “Vai ter uma reunião das pessoas interessadas pra discutir uma educação sem escola, uma escola debaixo do pé de manga”. Sentamos numa roda e começamos a falar disso. Depois de uma semana de conversa eu vi que a gente não falava de uma escola que a gente gostaria de ter, a gente falava de uma escola que a gente gostaria de não ter. E aí eu transformei aquelas informações num negócio que eu chamei de Não Objetivos Educacionais. O que nós não queremos que aconteça.
Eu mandei pra uma fundação em São Paulo, a Fundação Kellog. O Marcos Kisil viu aquilo, me ligou e falou: “Olha, eu recebi um projeto aqui meio estranho. Não tem objetivos, ele tem não-objetivos”. Eu falei: “Mas é isso mesmo, professor”. Ele falou: “Mas com não-objetivos você vai ter não-financiamento”. Eu falei: “E o senhor vai ter não-resultado e não vai dar certo”. Ele falou: “Isso é uma ideia muito maluca. Vou criar um banco de ideias, vou deixar isso cozinhando aqui pra ver se um dia a gente conversa a respeito”.
Passado uns dois meses ele me chamou: “Se você nos convencer que isso é interessante, nós vamos entrar com você nessa empreitada”. Eu consegui convencê-los e montamos a primeira experiência nossa, o Projeto Sementinha.
O que a gente desenvolveu nesses anos todos foram quatro grandes pedagogias. Uma é a pedagogia da roda, em que tudo o que a gente faz é numa roda e com todo mundo se vendo. A roda produz consensos e não produz eleições; A outra é a do brinquedo, em que é possível aprender matemática, história, geografia, ética, generosidade, solidariedade e sexualidade, jogando e brincando prazerosamente; Outra é a pedagogia do abraço, de construir as relações de autoestima e de solidariedade; E a última é a do sabão, quer dizer, do aproveitamento dos recursos, do conhecimento ancestral para a construção de coisas.
Cada uma delas foi construída e é construída diariamente com a meninada. E desde essa época eu comecei a defender uma ideia que vai na contramão do discurso oficial, que falava que lugar de menino é na escola. É na escola só se for aprendendo, porque se não for aprendendo é chato demais. Lugar de menino é na rua, na praça, no coreto, no shopping. Não temos que tirar os meninos da rua, temos que transformar a rua num espaço de solidariedade. Para nós, solidariedade é construída, não é por decreto. As pessoas não nascem solidárias.