08/12/2010

Representante UBEC/UCB fala das percepções sobre o evento

Nota Técnica COP-16
Representante UBEC/UCB fala das percepções sobre o evento
Cancun, 8 de dezembro de 2010.                                             
 
 
                                                                             Prof. Dr. Genebaldo Freire Dias[1]
Na sala SANDIA do Hall C do Cancunmesse, a ministra do Meio Ambiente do Brasil, Izabella Teixeira, acabara de falar. Era uma reunião promovida pelo Forum Brasileiro de Mudanças Climáticas. O auditório estava lotado e a mesa era coordenada por Luiz Pinguelli Rosa, ao lado de Branca Americana, representante do ministério do Meio Ambiente para a COP16. Um alívio poder falar português depois de tantos dias.
 
Seguiu-se uma rodada de perguntas na qual pedi a palavra e em nome da UBEC /UCB formulei uma proposta ao MMA e Forum para se configurar, em curto prazo, no Brasil, um processo de articulação/parceria com as universidades comunitárias (e incluir as privadas também) visando a inserção da temática Mudança Climática em sua extensionalidade (formulação de linhas de pesquisa, estabelecimento de programas de extensão e conectividades com a graduação). Afinal, uma instituição comunitária cristã não poderia deixar de se envolver com as soluções referentes às ameaças confirmadas de segurança climática, segurança alimentar, risco global e vulnerabilidade social (nesta, a conta sendo paga pelas populações desfavorecidas do mundo).
 
Fomos agraciados com o apoio de Gleyse Peiter do COEP (Comitê de Entidades contra a Fome e pela Vida) que já tem mapeado um conjunto de informações sobre mudança climática e vulnerabilidade social, via Forum brasileiro, em diversas regiões do Brasil, e por vários participantes de universidades brasileiras desse evento.
 
Foi interessante a reação das pessoas em perceber a presença de uma Universidade Católica nessa ocasião. Ali estavam representadas as mais diversas e poderosas corporações brasileiras, desde as grandes construtoras do setor elétrico, às megas corporações da indústria petroquímica, de celulose, soja, carne, alguns governadores dos estados e muitos secretários de meio ambiente. Também corporações de outros países de olho no Brasil.
 
Mas, a maior e agradável surpresa foi, ao final da sessão, após as tradicionais trocas de cartões, sentir um pequeno toque no meu ombro. Uma jovem me chamava pelo nome. Era Flávia Gabriela Oyo França, minha ex-aluna do Curso de Engenharia Ambiental. Estava ali, devidamente credenciada na delegação brasileira, representando a área de sustentabilidade e mudança climática de uma instituição privada, participando desse momento importante da escalada civilizatória da humanidade. Foi um misto de alegria e orgulho ver os nossos jovens egressos já nas órbitas de compromissos transnacionais. Isso nos dá força e sinaliza que estamos fazendo a coisa certa: preparando seres capazes de lutar para mudar o mundo, para melhor, naturalmente.
 
Qualquer que seja o resultado de Cancún – nos corredores já se fala em resultados melhores do que o esperado, dado ao fracasso de Copenhagen, iniciado como Hope’nhagen -, a humanidade está ganhando a cada reunião dessas. Encontra-se pessoas de todo o mundo ao redor de uma mesma coisa: melhorar a relação do ser humano com o seu ambiente, e em consequência, melhorar a qualidade de vida, atentar para as questões de gênero, de populações insulares, de povos tradicionais, indígenas, crianças, idosos, tratar da biodiversidade, das águas marinhas, da qualidade do ar. Para tanto se organizaram em grupos específicos como os de Visão Compartilhada, Mitigação, Adaptação, Transferência de Tecnologia e Financiamento.
 
Ainda estamos na fase na qual os interesses nacionais, em muitos casos, sobrepujam os globais. Entretanto, como as sinalizações crescentes das evidências das consequências das mudanças climáticas, e com o reconhecimento da necessidade de ficarmos abaixo dos 1,5 Celsius e 350 ppm de CO2 sob pena de vermos desmontadas de forma estapafúrdia e deletéria as bases da civilização atual, as mudanças estão ocorrendo. As inércias sendo quebradas e a participação dos países, instituições, grupos, pessoas, tem crescido excepcionalmente.
 
Crescem também as presenças dos aproveitadores, farejadores de novos negócios que empestam os balcões da feira de exibições. Apresentam propostas miraculosas de soluções tecnológicas (como a árvore eletrônica, por exemplo) que vão do bizarro ao insólito, do cínico ao inodoro. Mas é tudo uma questão de separar o joio. Ademais, se não existissem todos aqueles stands naquelas infindáveis avenidas enfeitadas de cartazes, fôlderes, livretos e toda sorte de panfletos, alguém iria criticar as suas ausências.
 
As mudanças climáticas não foram causadas de uma só vez. Foram o resultado combinado de processos naturais e atividades humanas que vem provocando forçamentos cumulativos ao longo de séculos. Não vamos encontrar soluções fáceis e nem tão rapidamente. O processo é esse mesmo, não há outro caminho. Ano que vem tem a COP16, na África do Sul. E a pedido, posei ao lado de um grupo de jovens sul-coreanas no seu painel que anuncia a COP20 em Seoul!
 
As cenas de negociadores estressados, trancados em salas e passando fome, certamente irão se repetir. Não há como ser diferente. As ilhas sofrem as consequências já, então “travam” negociações já. Vai continuar assim. As conquistas serão aos blocos, e lentamente. Não há como estabelecer consenso 193 vezes, todas as vezes. Esses 193 países têm problemas, prioridades, singularidades e percepções diferenciadas. Nem sempre o consenso será um exercício facilitado.
 
As manifestações dramáticas, teatrais, jocosas, encetadas por grupos auto-denominados rebeldes, salvadores do mundo, justiceiros religiosos, sindicalistas e outros tantos, pouco produziram além das manchetes de um dia em jornais que logo os esquecem. Tais manifestações já se tornaram previsíveis, e em que pesem algumas serem justas, são pouco efetivas e apresentam a mesma consistência do Papai Noel. Fariam melhor se desenvolvessem competência para integrar os grupos de discussão das partes, se estabelecessem parcerias para o encaminhamento das suas inquietações, em nível formal. Sem falar na desagradável agressão e danos a patrimônios mexicanos, cujo povo se preparou impecavelmente para nos receber e não merecia essa “retribuição”. 
 
É claro que essas manifestações complementam o espectro de representações sociais, entretanto, a sua formulação antiquada já teve o seu prazo de validade vencido. Em Cancún, testemunhei cenas idênticas às que presenciei na Rio-92, 18 anos atrás, e que já eram uma repetição das primais de Estocolmo, há 38 anos, na juventude dos meus 23 anos de idade. Inovar é preciso para ser mais efetivo. O Presidente do México, Felipe Calderón apresentou-se com o traje típico e informal (guayabera) e foi seguido pelo Secretário Geral da ONU Ban Ki-moon. Uma tentativa de transmitir mais informalidade, descontração e leveza ao encontro, tornando as discussões menos estressantes. O gesto foi seguido e terminou muita gente dispensando o rigor aristocrático das medievais gravatas, amenizando a mística das liturgias imutáveis dos cargos e funções.
 
O recado estava dado: para se conseguir alcançar os acordos necessários ao enfrentamento do maior desafio já enfrentado pela humanidade em sua escalada evolucionária, há de se abrir mão de velhas fórmulas, ranços culturais, despeitos políticos, diferenças tribais, e apetrechos outros, historicamente penduricalhados no vasto repertório das rabugices humanas.  
 
O mundo está de olho no Brasil. Na edição de 8 de dezembro (página 10) o colunista Gerardo Garcia do jornal mexicano “El Periódico” (de Quintana Roo) perguntava porque o Brasil é melhor marca que o México (a despeito de ter números de violência no Rio muito superiores aos de Ciudad Suarez, e esta ser apontada como uma das mais violentas do mundo) acentua que o segredo do Brasil estar na moda, apesar dos números da violência, deve-se ao fato, segundo ele, de o governo, a sociedade civil e a academia do País se unirem para criar uma melhor imagem do País e fomentar a confiança e o orgulho do brasileiro. Por isso estamos sendo bem sucedidos. Bondade do periodista!
 
Esse “de olho no Brasil” nos remete não apenas à realização da Copa do Mundo de Futebol, das Olimpíadas, mas da Rio + 20 (20 anos depois da Rio-92). Oxalá, cheguemos lá com vários acordos consolidados, e que os diferentes setores da sociedade tenham incorporado o desafio das mudanças climáticas nos seus planos de ações, e mais que isso, nas suas consciências. E que as universidades comunitárias tenham cumprido a sua missão, já demonstrando resultados positivos das suas ações em prol da proteção da biodiversidade e principalmente das populações mais vulneráveis espalhadas no semi-árido, nas favelas, nas margens de rios, nas zonas litorâneas e em qualquer situação de risco e vulnerabilidade social encontradas em nosso País. Que possa demonstrar que as suas pesquisas e atividades de extensão e ensino contribuíram efetivamente para a mitigação e adaptação dessas populações menos favorecidas, melhorando a sua qualidade de vida.
 
As mudanças climáticas, ao tempo em que constituem um grande desafio, configuram também uma grande oportunidade evolucionária. Para todos.

Assine

Assine gratuitamente nossa revista e receba por email as novidades semanais.

×
Assine

Está com alguma dúvida? Quer fazer alguma sugestão para nós? Então, fale conosco pelo formulário abaixo.

×