03/03/2009

Repetição de certas palavras auxilia aprendizado de língua espanhola

 

Por Naila Okita, especial para Agência USP de Notícias

 

Para adquirir fluência em uma língua estrangeira, não basta somente dominar a gramática e o vocabulário. A prosódia é essencial, ou seja, a entoação, as pausas, as ênfases em cada frase determinam se o falante tem naturalidade e se tem intimidade com a língua. Um estudo da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da USP acompanhou oito diálogos entre alunos de Letras, aprendizes de espanhol, e percebeu que a repetição de certas palavras ou expressões – os marcadores da conversação - auxiliavam os estudantes a adquirir fluência e a evitar o uso do português. Os marcadores conversacionais são palavras ou expressões muito recorrentes em uma conversa e que não contribuem propriamente com informações novas para o seu desenvolvimento. O “tá” e o “né” são exemplos de marcadores do português.



“Ao contrário do que se imagina, os alunos aprendem muito facilmente os marcadores da língua estudada e evitam os da língua materna”, ressalta Eliane Gonçalves, autora do estudo de doutorado Marcadores conversacionais na interlíngua de aprendizes de espanhol no Brasil e também coordenadora do curso de espanhol da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo. Ela cita o exemplo do “entonces” e do “creo que” em espanhol como marcadores típicos que ajudam no encadeamento e continuidade de idéias.



Interação
Outro resultado inédito do estudo é a tendência de pareamento já nos dez primeiros minutos de uma conversa. Pareamento é quando a pessoa passa a utilizar os mesmos marcadores que seu interlocutor e vice-versa, e o fenômeno ocorreu em um tempo muito curto de comunicação – 50% dos marcadores de uma conversa já são utilizados nos primeiros dois minutos. Uma das causas, segundo Eliane, seria a necessidade intrínseca do ser humano de se relacionar com o outro, de fazer com que ele confie em você e entenda a sua linguagem, por isso “copiar” certas características de sua fala.



Na prática, o dado comprova a importância dos marcadores na aprendizagem da língua espanhola, porque são rapidamente assimilados e podem ser utilizados como estratégias de ensino. “Para o professor é importante perceber essa oportunidade, porque é um aprendizado quase inconsciente, lembrando que é preciso corrigir quando ocorre um ‘aportuguesamento’, como ‘ainda más’ ao invés de ‘aun más’, por exemplo”, atenta Eliane.



Repertório
A professora observou também que, após os sete minutos iniciais da conversa, há uma estabilização de marcadores, ou seja, cria-se um conjunto de marcadores comuns entre os agentes, que serão repetidos ao longo do diálogo. Surge, portanto, um repertório, que marcará a interação entre aquelas duas pessoas específicas.



Tanto nos casos de conversação entre estudantes de espanhol, em sua maioria já no nível intermediário, que têm facilidade com a nova língua mas ainda sofrem influência do português e cuja produção lingüística denomina-se interlíngua; como em conversações em espanhol entre nativos espanhóis e em português entre nativos brasileiros, Eliane pôde tabelar em média 18 marcadores compartilhados em cada grupo. No caso da interlíngua, repetiu-se muito o “¿no?”, “si”, “entonces” e “no sé”. Já no espanhol houve muitas ocorrências de “¿no?”, “pues”, “como quiere decir” e no português culto as duplas utilizavam muito “não é?”, “então”, “e daí”.



“Muitos estudiosos consideram os marcadores supérfluos, descartáveis, porque gramaticalmente não são necessários. No entanto, com esses resultados é possível perceber que eles exercem uma função muito importante na interação entre pessoas e até mesmo na aquisição de fluência em uma nova língua”, conclui Eliane.

 


(Envolverde/Agência USP de Notícias)
 
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