16/02/2006

Relação positiva para o futuro

Estudo da UnB aponta que integração família-escola contribui para o melhor desenvolvimento do indivíduo.

Ao contrário do que alguns pais imaginam, a escola não pode assumir sozinha a responsabilidade de educar os filhos. A família e a instituição de ensino precisam estar integradas para o bom desenvolvimento da criança e do adolescente. Foi o que Ana Polonia, professora cedida pela Secretaria de Educação à Faculdade de Educação (FE) da Universidade de Brasília (UnB), detectou em sua tese de doutorado intitulada As Relações Escola-Família: o que Diretores, Professores, Alunos e Pais Pensam?, na qual identificou as implicações de tais relações no desenvolvimento do indivíduo. A tese foi defendida em outubro de 2005 no Instituto de Psicologia (IP) sob a orientação de Maria Auxiliadora Dessen, coordenadora do grupo de pesquisa em Desenvolvimento Familiar do IP.

Segundo Ana Polonia, com a escola e a família integradas, todos saem ganhando. A escola passa a ser mais valorizada e preservada por todos. Também aumenta o respeito mútuo entre os dois grupos e o estabelecimento de atividades conjuntas.

De outro lado, a família que não está inserida diretamente nesse contexto, se sente mais segura para dar sugestões para promover melhorias no colégio. E assim, o aluno se sente mais estimulado a se dedicar aos estudos porque percebe que os pais estão interessados.

A orientadora da pesquisa, Maria Auxiliadora Dessen, destaca que o estudo tem importância social e científica. Social porque mostra a realidade das relações entre família e escola, do ponto de vista dos dois. Além disso, depois do resultado da pesquisa é possível traçar ações corretivas e preventivas. A relevância científica é resultado da construção dos instrumentos específicos para as avaliações, como entrevistas e questionários. Segundo a orientadora, no futuro, esses materiais serão adaptados para serem utilizados pelas escolas.

O QUE ELES QUEREM - A pesquisadora – que conversou com duas chefes do Núcleo de Integração Escola-Comunidade (do Plano Piloto e do Gama),16 diretores, 36 professores, 93 pais e 244 alunos de 16 escolas públicas do Plano Piloto e do Gama – queria identificar quais elementos dificultavam e quais facilitavam a integração entre a escola e a família. Da parte dos alunos verificou que eles querem qualidade no ensino e uma comunicação efetiva entre estudantes, familiares, docentes e instituições de ensino.

Os pais entrevistados alegaram dificuldades de se aproximar das escolas. “Muitas vezes, os pais e as mães querem ajudar de alguma forma, mas não sabem como”, afirma Ana.

Já os diretores admitiram a necessidade de elaborar um projeto político-pedagógico para que a família esteja mais presente e engajada nas atividades da escola. Mas, por parte dos professores há uma certa restrição quanto a participação dos pais. Os educadores têm a preocupação em delimitar o papel de cada um (pais, alunos e escola), respeitando saberes, ações e limites. Eles temem que os pais, assim como podem ajudar, também possam atrapalhar. Alguns familiares devem ter ciência de que podem auxiliar os filhos, entretanto não devem assumir o papel de professores.

RESULTADOS E SUGESTÕES – Na prática, Ana detectou que, nas primeiras séries, a presença dos pais nas escolas é mais sistemática. Eles se preocupam mais em acompanhar as atividades pedagógicas e socioculturais dos filhos. À medida que o aluno avança na escolarização, a freqüência dos pais diminui. De acordo com a doutora, isso acontece porque a família avalia que o estudante está mais independente cognitivamente, e que seu acompanhamento não é tão necessário.

No entanto, Ana discorda dessa atitude e já enfatiza: “Em todas as etapas da vida escolar, o acompanhamento da família é fundamental”. Segundo ela, os pais precisam trabalhar com a idéia de que existem outras formas de dar um suporte ao filho adolescente, sem ser o pedagógico. Eles podem, por exemplo, dar apoio psicológico e afetivo aos estudantes quando esses enfrentam dificuldades, como trabalhos complicados e provas difíceis. Esse tipo de orientação pode vir da própria instituição de ensino, nas reuniões de pais e mestres.

Outra forma de minimizar o distanciamento seria preparar, durante os cursos de graduação, educadores para que eles tenham o hábito de trabalhar questões que aproximem a família da escola e valorizem o aluno. A professora acredita que isso deva ser incluído no currículo não como uma disciplina específica, mas como tema transversal de outras disciplinas para que seja discutido em sala de aula. Ana conta que o conteúdo pedagógico é importante, mas ele não é o único fator que colabora para o desenvolvimento cognitivo, social e afetivo do indivíduo.

A professora aponta ainda que o papel humanizador da escola deveria ser mais enfatizado. Durante as entrevistas, os próprios alunos de quinta e oitava série do ensino fundamental destacaram que o papel da escola também é o de possibilitar a inserção no mundo profissional e proporcionar relações pessoais com grupos de amigos.

Pais podem estar mais presentes na escola ao verificar as avaliações e os projetos desenvolvidos pelos alunos, para dar opiniões e sugestões. Mas a família também deve se envolver em trabalhos voluntários. Uma mãe, por exemplo, poderia se oferecer para promover rodas de leitura com os estudantes ou brincadeiras com as crianças no recreio. Algum pai que tivesse bons conhecimentos em computação poderia também auxiliar nas aulas de informática.

METODOLOGIA – Para escolher as instituições de ensino, a professora foi à Gerência Regional dos dois locais. Foram selecionadas oito escolas do Plano Piloto, quatro que possuíam boa relação com as famílias e quatro que possuíam relação regular. O mesmo critério de escolha foi utilizado para as escolas do Gama para equilibrar a amostra e identificar as diferenças por cidades. Foram escolhidas turmas de primeira, quinta e oitava série, para observar três etapas diferentes do desenvolvimento e transição escolar. Essas séries foram escolhidas com base em fases de transições importantes para o desenvolvimento da criança. A primeira série representa a entrada do aluno na escola. A quinta corresponde à chegada da adolescência. Nessa série, ainda há outro destaque: o estudante, que antes tinha apenas um professor, passa a ter vários. A oitava significa o fechamento do ensino fundamental.

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