15/02/2007

Química verde ganha força com novas pesquisas na Universidade

Por Olavo Soares, da Agência USP

“A química verde não é a química do meio ambiente. E sim a química para o meio ambiente”. Em poucas palavras, é assim que o professor Reinaldo Bazito, do Instituto de Química (IQ) da USP, define essa linha da ciência que vem ganhando força nos últimos anos.

Nada mais aplicado ao atual momento da Terra. Notícias sobre o aquecimento global ganham as manchetes dos jornais e alertam a sociedade como um todo. Já há mais de 20 anos a consciência ambiental ganha corpo – as pessoas já sabem da necessidade de não poluir, de reciclar, de combater a sujeira – mas ainda falta, em muitos casos, tecnologia para fazer com que esse discurso vire prática.

A química verde entra nesse sentido. A ciência não tem como foco aprender a lidar com a poluição – por exemplo, instalando um filtro numa chaminé de uma fábrica ou sugerindo a reciclagem. E sim fazer com que a poluição não seja produzida. “Tratamento de uma água poluída, ação direta sobre resíduos: isso não é química verde. A química verde trabalha antes disso. Trabalha quando o poluente ainda não existe, de modo que ele não venha a existir, ou que apareça de forma reduzida”, explica Bazito.

Redução, então, é a palavra-chave. Tanto de resíduos como de outros componentes: água, energia, fontes não renováveis. “Se temos um processo químico que depende de uma quantidade X de água, e conseguimos fazer com que esse mesmo processo seja realizado com uma quantidade menor de água, estamos aplicando a química verde”, destaca.

Como aplicação prática de química verde, Bazito cita a produção de café descafeinado. “Para se extrair a cafeína do café, costuma-se aplicar um solvente orgânico muito tóxico. O processo foi desenvolvido e hoje pode se utilizar, no mesmo processo, o gás carbônico (CO2) em modo supercrítico. O CO2 é muito menos tóxico, e com isso a extração da cafeína fica bem mais viável em termos ambientais”, aponta.

A utilização na indústria ou veículos de álcool combustível em substituição à gasolina também se aplica como química verde – pelo fato de se empregar um material renovável. Mas Bazito explica que devem ser levados outros fatores em conta na hora de se estudar se uma prática pode ser denominada química verde ou não. “O biodiesel, pela sua natureza de ser um combustível originado de um vegetal, poderia ser chamado de química verde. Mas devemos verificar todo o processo. O trator que cultiva a soja consome diesel; outros componentes do processo demandam uma quantidade grande de energia. Na hora de afirmar se esse processo é mais positivo ao meio ambiente do que o consumo do diesel tradicional, tudo isso deve ser levado em conta”, diz o professor do IQ.

A química verde – embora não com esse nome – existe desde que o ser humano teve noção de que suas ações causavam danos à Terra. “Primeiro ignorava-se a poluição. Depois, passou-se a aprender a lidar com os resíduos. Por fim, começaram as iniciativas para evitar que esses resíduos fossem produzidos”, afirma Reinaldo Bazito.

Foi na década de 1990 que o nome química verde foi aplicado pela primeira vez, pelo professor norte-americano Paul Anastas. A definição de Anastas para a ciência é a seguinte: “química verde é a invenção, desenvolvimento e aplicação de produtos e processos químicos para reduzir ou eliminar o uso e a geração de substâncias perigosas”.

Embora não se possa dizer que os EUA “inventaram” a química verde, foi ali que a ciência consolidou-se como uma tendência. Parte disso, como explica Bazito, deve-se a um prêmio que o governo norte-americano concede atualmente aos destaques no setor.

Perspectivas

No Brasil a química verde ainda é incipiente. São poucos os profissionais dedicados à área e mesmo o meio acadêmico ainda não tem muitas iniciativas consistentes no assunto. “No sistema de currículos Lattes, temos somente 77 doutores no Brasil com pesquisas em química verde”, diz Reinaldo Bazito.

Isso faz com que o cenário para interessados na área seja dos mais promissores. A crescente preocupação ambiental, aliada com a severa legislação brasileira, caracterizam o profissional especialista em química verde como imprescindível em um futuro próximo. “A empresa que, por exemplo, despejar uma substância tóxica num córrego pode pagar multas de até R$ 20 milhões. É um valor muito alto. Então as indústrias precisam de alguém que saiba lidar com isso para evitar esse tipo de falha”, comenta o professor.

E não são somente químicos que podem investir nesse filão de pesquisa. A química verde também é campo de estudos para engenheiros ambientais, engenheiros químicos, farmacêuticos e outros. “A natureza da química verde faz com que ela seja essencialmente multidisciplinar”, diz Bazito.

Na USP

O Instituto de Química foi sede, em janeiro, da primeira Escola de Verão em Química Verde, curso sobre o tema que contemplou 36 alunos – num universo de mais de 800 inscritos. “A grande quantidade de inscrições é uma prova de como esse tema está interessando os estudantes”, aponta o professor.

Dentro do IQ, a química verde ganhará oficialmente um laboratório em fevereiro – que já está operando em caráter experimental. Os estudos na área estarão veiculados ao departamento de química fundamental da unidade.

O que é e o que não é química verde?

é química verde:
- reaproveitar a água usada em um processo reduzindo o consumo
- trocar uma matéria-prima poluente por uma que não traga danos ao meio ambiente

não é química verde:
- reciclar todo lixo de um processo industrial
- o uso do filtro em uma chaminé para reduzir a emissão de fumaça em uma fábrica

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