22/01/2026

Psicopedagogia em Perspectiva: Ética, Complexidade e Práticas Transformadoras.

Por - Ivan Carlos Zampin: Professor Doutor, Pesquisador, Pedagogo, Graduado em Educação Especial, Docente no Ensino Superior e na Educação Básica, Gestor Escolar, Especialista em Gestão Pública, Especialista em Psicopedagogia Institucional.

Currículo Lattes: http://lattes.cnpq.br/2342324641763252

A Psicopedagogia, enquanto campo interdisciplinar, tem assumido crescente centralidade no debate educacional contemporâneo, especialmente diante dos desafios impostos pela diversidade humana, pelos novos paradigmas da aprendizagem e pela urgência de práticas éticas no cotidiano escolar. Refletir sobre o papel social da Psicopedagogia significa compreender que sua existência não se reduz a um conjunto de técnicas ou protocolos de intervenção, trata-se de um campo comprometido com a constituição do sujeito aprendente e com a transformação das condições que produzem fracassos, desigualdades e exclusões educacionais. A ética psicopedagógica, como destacam Paín (1985) e Fernández (1991), não é apenas normativa, mas ontológica, pois envolve concepções de sujeito, de aprendizagem e de sociedade.

Nesse sentido, é necessário retomar as questões fundantes, ou seja: qual é o papel social do psicopedagogo? Quais são seus objetivos? Para onde se dirige sua ação? Embora essas perguntas tenham dimensão pessoal, elas revelam um posicionamento epistemológico e político. Como afirma Damasceno (s/d), o trabalho psicopedagógico é um convite a “desaprisionar a inteligência”, libertar a criatividade e ressignificar o prazer de aprender. Portanto, a prática psicopedagógica não se limita ao diagnóstico das dificuldades, mas envolve a mediação ativa de processos de significação, diálogo e reconstrução do desejo de saber.

A necessidade desse profissional no espaço escolar decorre da constatação de que a maioria das instituições ainda carece de suporte teórico-metodológico para lidar com a singularidade dos processos de aprendizagem. Visca (1987) enfatiza que aprender não é um ato isolado, mas um fenômeno vincular, que envolve sujeito, objeto e outro. Assim, reduzir as dificuldades a aspectos puramente cognitivos seria ignorar a complexidade das interações que atravessam a vida escolar. A Psicopedagogia, ao assumir esse caráter integrador, torna-se fundamental para auxiliar professores e gestores a repensarem suas práticas, compreendendo que o erro, o ritmo e a diversidade não são obstáculos, mas elementos constitutivos da aprendizagem humana.

O objeto central de estudo deste campo são os processos normais e patológicos de aprendizagem que exige uma compreensão ampla das dimensões cognitivas, afetivas, sociais e culturais que influenciam o aprender. Piaget (1977) demonstrou que o desenvolvimento cognitivo ocorre por estágios interligados, enquanto Vygotsky (1998) ressaltou o papel decisivo da mediação social e da linguagem na formação das funções psicológicas superiores. Wallon (1975) acrescentou a dimensão afetiva como motor do desenvolvimento. A Psicopedagogia, como bem analisa Bossa (2000), integrando essas bases, busca compreender o sujeito de forma global, reconhecendo que as dificuldades podem emergir tanto da criança quanto do meio familiar ou das práticas escolares.

Superar uma visão reducionista exige compreender que o fracasso escolar, conforme Scoz (1994), é um fenômeno institucional, social e subjetivo, e não um atributo individualizado. Dessa forma, o psicopedagogo torna-se um agente estratégico para problematizar discursos patologizantes e para enfrentar práticas escolares que reforçam classificações e exclusões. Sua atuação abrange o diagnóstico, a intervenção, a prevenção e o assessoramento institucional, sempre ancorada em princípios éticos que garantam a autonomia, a dignidade e a singularidade do sujeito aprendente.

É equivocado restringir a atuação desse profissional à Educação Inclusiva ou às fronteiras da escola. Como enfatizam Delabetha e Da Costa (2014), o psicopedagogo exerce papel diversificado em diferentes contextos, ou seja: em clínicas, hospitais, instituições de acolhimento, projetos sociais, empresas e até mesmo no acompanhamento familiar. Em contextos clínicos, promove avaliações amplas que consideram a história escolar, afetiva e social do sujeito. Em hospitais, integra equipes multidisciplinares que atendem crianças com condições neurológicas ou psicossociais complexas. Na família, intervém em dinâmicas que influenciam diretamente a motivação e o desempenho escolar e, na escola, orienta práticas docentes, acompanha projetos pedagógicos, realiza formações e propõe estratégias de ensino que respeitem a singularidade dos estudantes.

Assim, a Psicopedagogia torna-se um campo essencial para pensar políticas públicas, promover justiça cognitiva e garantir condições concretas de aprendizagem para todos. Mas isso só é possível se for compreendida como prática crítica, ética e investigativa, a qual rompe com modelos medicalizantes e acolhe a complexidade humana. Diante dos desafios contemporâneos sendo eles: desigualdade social, medicalização da infância, precarização das escolas, intensificação das diferenças, o psicopedagogo ocupa lugar estratégico na construção de ambientes que validem a diversidade e promovam processos emancipatórios. Enfim, mais do que uma profissão, a Psicopedagogia é uma responsabilidade ética e social. Sua contribuição ultrapassa o diagnóstico, ela possibilita a reinvenção de vínculos, sentidos e trajetórias. E é nesse horizonte que reside sua força transformadora.

Referências Bibliográficas

BOSSA, N. Dificuldades de aprendizagem: o que são? Como tratá-las? Porto Alegre: Artmed, 2000.

DAMASCENO, M. A inteligência (des)aprisionada. s/d.

DELABETHA, M.; DA COSTA, V. O psicopedagogo e sua atuação multidisciplinar. 2014.

FERNÁNDEZ, A. A inteligência aprisionada. Porto Alegre: Artmed, 1991.

PAÍN, S. Diagnóstico e tratamento das dificuldades de aprendizagem. Porto Alegre: Artes Médicas, 1985.

PIAGET, J. A psicologia da criança. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 1977.

SCOZ, B. Fracasso escolar: um olhar institucional. Petrópolis: Vozes, 1994.

VIGOTSKY, L. A formação social da mente. São Paulo: Martins Fontes, 1998.

VISCA, J. Psicopedagogia: novas contribuições. Buenos Aires: Paidós, 1987.

WALLON, H. A evolução psicológica da criança. Lisboa: Livros do Brasil, 1975.

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