01/02/2010

Psicoeducação ajuda portador de transtorno afetivo bipolar

A participação de portadores de transtorno afetivo bipolar (TAB) nas reuniões de grupos de psicoeducação, analisada em pesquisa da Escola de Enfermagem de Ribeirão Preto (EERP) da USP, aumenta o conhecimento e a conscientização sobre a doença, favorece a adesão ao tratamento e ajuda pacientes e familiares a criarem novas estratégias para lidar com o distúrbio no dia-a-dia. As equipes formadas por profissionais da área de saúde mental esclarecem dúvidas sobre TAB e seu tratamento, além de informar sobre nutrição, atividade física e direitos dos pacientes.

O trabalho de um desses grupos, na cidade de São José do Rio Preto (interior de São Paulo) é estudado pela enfermeira Sarita Lopes Menezes em sua dissertação de mestrado, apresentada na EERP em dezembro de 2009, orientada pela professora Maria Conceição Bernardo de Mello e Souza. “As atividades de psicoeducação costumam ser feitas em grupos fechados, com um número fixo de pacientes e duração pré-estabelecida, em casos de transtorno bipolar e principalmente de esquizofrenia”, aponta Sarita. “No grupo pesquisado, que é permanente, as reuniões são abertas, com a presença também dos familiares dos pacientes, para facilitar e ampliar o acesso.”

As reuniões acontecem na Faculdade de Medicina de São José do Rio Preto (Famerp), uma vez por mês, e consistem de uma palestra, depoimentos e uma discussão entre os participantes e os profissionais de saúde. “O objetivo não é só falar da doença e de medicamentos, mas do dia-a-dia dos pacientes e seus familiares, e como lidar com a doença e ter uma melhor qualidade de vida”, diz a pesquisadora. Além de psicólogos, psiquiatras, enfermeiros especializados em saúde mental e assistentes sociais que integram o grupo, também são convidados nutricionistas, educadores físicos e advogados para palestras.

O transtorno bipolar é marcado por alterações cíclicas de humor, com fases de depressão e outras de mania ou hipomania, intercaladas com períodos de normalidade.“Na fase de mania ou euforia, há grande agitação, diminuição da necessidade de sono, aumento da energia e libido, prejuízo da crítica e aumento da impulsividade, o que pode levar ao abuso de álcool e outras substâncias, bem como ao envolvimento em atividade potencialmente perigosas, como dirigir em alta velocidade, promiscuidade sexual e dívidas”, conta a enfermeira. “Por essa razão, uma das palestras, por exemplo, tinha como tema ‘Prejuízos psicológicos, sociais e econômicos no transtorno bipolar do humor: como conviver com uma doença por toda a vida’ ”.

Orientação
A participação de um advogado em uma das reuniões ajudou os pacientes a esclarecerem questões sobre acesso aos serviços de saúde e aposentadoria, entre outras. “O orientação nutricional também é importante, pois algumas medicações podem provocar aumento de peso e levar a desistência do tratamento, especialmente entre mulheres”, afirma a pesquisadora. “Informar sobre atividade física contribui também para o controle de peso, bem como ajuda para os pacientes lidarem com quadros de depressão.”

O grupo de psicoeducação é coordenado por Sarita Menezes e Maria da Graça Girade Souza, professoras do Departamento de Enfermagem Especializada do curso de graduação em Enfermagem da Famerp. Uma das mudanças relatadas pelos participantes do grupo é que as reuniões ajudaram na aquisição de conhecimentos sobre TAB. “Algumas pessoas até liam sobre o assunto, mas não se sentiam seguros da confiabilidade das informações”, conta Sarita. A participação nos encontros também contribuiu para uma maior conscientização da doença pelos pacientes.

“Em casos de transtorno bipolar, este processo costuma ser muito demorado”, aponta a enfermeira. “Mas ao receber as informações, a pessoa começa a se ver e descobre pelo que está passando, e essa conscientização permite uma maior adesão ao tratamento”. Em média, levam-se nove a dez anos desde o surgimento dos primeiros sintomas até o diagnóstico, pois o distúrbio costuma ser confundido com depressão e outras doenças. Uma das pacientes entrevistadas na pesquisa foi diagnosticada 33 anos depois de aparecerem os sinais iniciais da doença.

As palestras e depoimentos, além da troca de experiências, ajudou os participantes a criarem novas estratégias para lidarem com a doença no dia-a-dia, como usar a atividade física para controlar a ansiedade. “Alguns pacientes que foram para receber ajuda com o tempo perceberam que podiam identificar pessoas com problemas semelhantes, e desse modo também ajudá-las”,  afirma. “A atuação do grupo foi um dos principais fatores que contribuíram nesse processo”.

 


(Envolverde/Agência USP de Notícias)
 
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