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Tramita no Senado o projeto de lei 402/08, do senador Gerson Camata (PMDB-ES), que prevê a obrigatoriedade de uma atenção especial nas escolas públicas a alunos diagnosticados com dislexia e com transtorno do déficit de atenção com hiperatividade (TDAH). Enquanto alguns especialistas enaltecem a iniciativa, dizendo que é necessária para os estudantes que apresentam os problemas, outros questionam a partir do argumento de que a dislexia não existe.
A dislexia é definida como um distúrbio de aprendizagem de base neurológica e genética, que faz com que algumas áreas cerebrais sejam menos ativadas. Isso afeta principalmente os campo de leitura, escrita e soletração. Pode ocorrer em jovens ou adultos. Nos mais novos, o problema se concentra mais na leitura e escrita. Já nos adultos, o emocional é o campo mais afetado. O tratamento é feito por psicólogos, fonoaudiólogos e psicopedagogos. Estima-se que de 5% a 17% da população mundial é disléxica.
Por outro lado, de acordo com a professora doutora do Departamento de Pediatria da Faculdade de Ciências Médicas da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), Maria Aparecida Moysés, não existe nenhuma comprovação que a dislexia exista. “A dislexia como um problema neurológico nunca foi comprovado e, além disso, o diagnóstico é feito de maneira errada. Para ver as regiões desativadas, os médicos fazem testes de leitura e exames como ressonância magnética. Se o paciente tem dificuldade, é lógico que essa área cerebral será menos ativada”, afirma. Segundo a professora, o que está confirmado é a perda do domínio da linguagem escrita após uma lesão.
Para a psicóloga da Associação Brasileira de Dislexia (ABD), Márcia Barreira, identificar a dislexia não é muito fácil, pois as pessoas se confundem com a simples falta de atenção. Ela explica que quando uma criança entra em um processo de alfabetização e apresenta dificuldades com leitura, escrita e ortografia, que outras crianças da mesma idade não têm, é preciso fazer um diagnóstico. Outro sinal que pode identificar a dislexia é a dificuldade para memorizar o que se aprende. “Quanto mais cedo essas crianças são diagnosticadas, menos danos emocionais elas sofrerão no futuro, como bullying”, diz.
Enquanto isso, Maria Aparecida defende que a diferença na aprendizagem de um aluno para outro pode estar ligada a fatores externos. “É fácil dizer que as crianças não aprendem porque são disléxicas. Um dos maiores problemas das escolas brasileiras é que querem que os alunos aprendam do mesmo modo e ao mesmo tempo”. Por outro lado, a psicóloga da ABD afirma que colocar a culpa sempre no ensino é desconsiderar o aluno como indivíduo.
Em depoimento concedido ao site da ABD, Regina Lúcia de Oliveira conta que lutou muito com seu filho, que teve diagnosticado a dislexia. “Ele recebia muitas piadas dos colegas, o que causou um grande complexo de inferioridade. Trabalhei muito a cabeça dele em casa e também com ajuda de psicóloga. Ele nunca repetiu de ano e hoje faz o 2º semestre de Psicologia na Universidade da Amazônia (Unama). Ele está muito feliz com o curso que escolheu, mas ainda não tem uma grande vida social com colegas da idade dele, porém já melhorou bastante”.
A professora da Unicamp aponta para outro dado relevante. Muitas crianças disléxicas tomam remédios, não para a dislexia, mas para TDAH, que muitas vezes acompanha o diagnóstico da dislexia. De acordo com o site da ABD, 75% dos disléxicos têm déficit de atenção e 35% hiperatividade.
O filho de Eduardo Cremonesi tomou um desses medicamentos e apresentou efeitos colaterais, como perda de apetite, além de um “apagão” enquanto dormia. “Ele demorou muito tempo para acordar e eu e minha esposa ficamos muito preocupados”. O pai conta que o remédio foi receitado por um neurologista, que disse que o filho tinha hiperatividade, mas sem estar acompanhado de dislexia.
Ele ainda afirma que, junto com sua esposa, decidiu interromper o tratamento com neurologista e procurou uma psicóloga. A profissional mostrou a eles que o problema do filho não era nenhuma doença e poderia estar relacionado ao ciúme que ele tinha da irmã mais nova, além do período que Eduardo e sua esposa ficaram separados.
Maria Aparecida alerta que caso a lei seja promulgada, toda essa questão fará parte do que ela considera medicalização do ensino, ou seja, transformar os problemas do ensino em problemas patológicos. Já Márcia, considera que essa lei só traz benefícios, faz com que as pessoas conheçam melhor a dislexia e a identifique com mais facilidade, além de garantir menores prejuízos emocionais.
(Envolverde/Aprendiz) |