17/12/2005

Projeto beneficente pratica metodologia de professor da USP

Uma Escola montada em uma praça que quebra a frieza do espaço público e abre a oportunidade de interação de uma equipe pedagógica com crianças, adolescentes e suas famílias, dentro de uma atmosfera leve, descontraída, alegre e produtiva. Este é o projeto Escola Ambulante que trabalha com o resgate da auto-estima, o interesse da criança e do adolescente pela vida.

Compreender suficientemente a problemática das crianças e adolescentes que vivem ou transitam nas ruas de uma determinada região, para que assim se possa agir de forma eficaz para transformar o cenário social daquela região, é o principal objetivo do projeto coordenado pela Associação Beneficiente Santa Fé.

O sucesso do projeto, que foi o vencedor do Prêmio de Tecnologia Social da Fundação Banco do Brasil 2005 na categoria Direitos da Criança e do Adolescente, está no uso da metodologia do professor Rubens de Camargo Ferreira Adorno, da Faculdade de Saúde Pública da USP.

A metodologia trata-se de uma abordagem etnográfica - descrição de culturas, sem ocupar-se de comparação ou análise.“Essa metodologia trabalha basicamente a relação de alteridade entre os educadores e crianças e jovens em situação de rua”, garante Adorno.

O professor acredita no projeto pelo fato deste não estabelecer um determinado espaço de tempo para chegar a um resultado efetivo, mas encara essa questão como um processo de médio para longo prazo. Assim, Adorno acredita que o bom do trabalho da Santa Fé é que “eles assimilam a possibilidade de enxergar a trajetória de vida de crianças e adolescentes sem uma visão imediatista”.

De acordo com Claudia Magalhães, membro da Associação, através da abordagem etnográfica é possível saber: quantas crianças/adolescentes vivem e transitam em uma determinada região, quem são elas, que uso fazem das ruas, de onde elas vêm, que idade têm, se têm família (sua estrutura familiar) e residência fixa, por quanto tempo cada uma está na rua, motivos que o levaram a rua e o quanto está integrada(o) às regras desse convívio e seus desdobramentos.

Claudia afirma que analisados esses dados em conjunto é possível determinar o tipo de trabalho a ser desenvolvido na região coerente a cada caso e desta forma prover as condições necessárias à "Volta pra Casa".

Os primeiros passos começam com o mapeamento da região em que o grupo vai trabalhar, contato com polícia, secretarias, conselhos, hospitais, escolas, organizações não-governamentais, comércio local e é finalizada com a conquista da adesão da criança/adolescente ao projeto.


Como começou?

A primeira experiência ocorreu em dezembro de 1993, com uma ação pontual - "Árvore de Natal". Essa ação foi destinada a sensibilizar o poder público e a sociedade através da realização de oficinas públicas de arte-educação, com crianças e adolescentes que viviam nas ruas da cidade de São Paulo.

Diversas organizações que mantinham trabalhos nas ruas foram convidadas e juntaram-se a Associação Benificiente Santa fé. Durante esta ação de 23 dias, dados fornecidos pela polícia militar (CPAM-1) indicaram uma grande redução dos índices de roubos e furtos no centro da cidade, região de maior concentração de crianças/adolescentes e de onde os participantes eram trazidos.

“Impressionou-nos, sobretudo, a significativa resposta das crianças e adolescentes participantes (cerca de 230/dia), observada na qualidade dos trabalhos e espetáculos produzidos e no forte desejo que demonstravam em construir novas perspectivas de vida”, garante Cristina.

Por outro lado, foi verificado que aquelas crianças/adolescentes já haviam passado por diversas instituições, sem se fixarem a nenhuma. Cristina acrescenta: “isso nos deixava diante de um paradoxo”. A Escola Ambulante foi criada no início de 1994 com o intuito de manter os vínculos estabelecidos com essas crianças/adolescentes.

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