29/03/2010

Programa de Educação no Campo diploma estudantes em Castanhal (PA)

Diante do auditório repleto de parentes e amigos, jovens prestam o juramento solene de exercer a profissão que acabam de abraçar e comemoram a nova etapa de suas vidas jogando os chapéus para o ar. A cena ocorreu na sexta-feira (26), no Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia (IFPA), em Castanhal (PA). Seria banal por acontecer em milhares de instituições de ensino públicas e privadas pelo país, mas ganha contornos especiais por representar a cerimônia de outorga do título de técnico em Agropecuária, com ênfase em Agroecologia, aos 32 formandos da turma "Chico Mendes", composta por jovens de assentamentos da reforma agrária.

Todos são oriundos de famílias camponesas e ribeirinhas que representam 14 assentamentos implantados pelo Incra na região do nordeste paraense. Tiveram que vencer diversos desafios para cursar o ensino médio e, ao mesmo tempo, conquistar uma profissão voltada para comunidades rurais e das beiras dos rios.

Foram três anos e meio de superação. Uma batalha que começou em 2005, quando - mesmo diante das variadas origens, culturas e ideologias que representavam - uniram-se em torno de um propósito comum: a elaboração de um projeto de curso técnico, com o apoio do IFPA, e a obtenção dos recursos do Programa Nacional de Educação na Reforma Agrária (Pronera), do Governo Federal.

De lá até a colação de grau eles percorreram centenas de quilômetros que separavam suas comunidades e o campus do IFPA - todos em municípios afastados entre si - e viveram em alojamentos, longe das famílias. Dentro do conceito de "pedagogia da alternância", transpuseram ainda grandes distâncias para praticar os conhecimentos teóricos em suas próprias comunidades, onde desenvolveram e agora administram, na qualidade de profissionais habilitados, arranjos produtivos em benefício das famílias camponesas e ribeirinhas.

Conquistas

Mas a formação profissional e a cultura adquiridas com o curso não foram as únicas premiações resultantes da força de vontade e do sacrifício dos integrantes da Turma Chico Mendes. A quebra da barreira do preconceito com relação à capacidade do jovem do campo e o estímulo à retomada dos estudos aos jovens que, pelas dificuldades da vida, interromperam a escalada educacional, estão entre as principais conquistas dos alunos da reforma agrária.

Com a aprovação de dois de seus integrantes em vestibulares de instituições públicas de ensino superior do Pará, a Turma Chico Mendes provou que, com determinação e apoio, os jovens do meio rural possuem condições de avançar nos estudos e disputar em condição de igualdade com os dos grandes centros urbanos.

É o caso do aluno Uéliton Pereira Azevedo (21), do Projeto Agroextrativista Santo Antônio II, na Ilha do Capim, município de Abaetetuba. Tido como exemplo pelos professores, o novo técnico agrícola não esmoreceu diante da grande concorrência e foi aprovado no vestibular para o curso de Agronomia, primeira graduação superior oferecida pelo Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia em Castanhal.

"Em 2006 não perdi a oportunidade de dar seqüência aos meus estudos através do Pronera. Agora, tive a felicidade de ser aprovado no curso de Agronomia aqui mesmo no IFPA", disse Uéliton. "E como retribuição àqueles que acreditaram na turma Chico Mendes pretendo tornar-me um profissional ainda mais qualificado para ajudar a reverter a miséria e exclusão social que atingem as pessoas que vivem nas ilhas de Abaetetuba", completou o jovem técnico agrícola e futuro engenheiro agrônomo.

Já a nova técnica agrícola Luciana Santa Rosa de Albuquerque (32), do assentamento Abril Vermelho, no município de Santa Bárbara, é uma das que aproveitaram a oportunidade surgida com o Pronera para retomar os estudos em busca de melhores oportunidades.

Para ela, o principal desafio enfrentado foi o de voltar a estudar após muito tempo longe dos livros. "Fiquei seis anos parada, até voltar em 2006, com o Pronera. Agora pretendo contribuir com meu trabalho para suprir a carência de técnicos nos assentamentos da nossa região e ainda dar continuidade à minha formação cursando, quem sabe, Agronomia ou Engenharia Florestal", planeja Luciana.


(Envolverde/Incra)
 
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