29/07/2006

Professora cria método para inclusão do povo indígena na universidade

Não importa se você é negro, branco, índio, mulato, rico ou pobre. Todos, independentemente da origem, raça ou condição social, têm o direito de freqüentar o Ensino Fundamental, Médio e Superior. Na teoria, este discurso funciona bem. Mas, e na prática? Neste caso, a realidade é outra. Mas, a professora Lucia Helena Alvarez Leite não quis cruzar os braços e encarar a situação como algo normal. Ao contrário, decidiu arregaçar as mangas e criar soluções para incluir os grupos sociais, que historicamente foram excluídos da sociedade, no ambiente educacional.

A professora já trabalhou com camponeses, alunos de baixa renda e agora o seu desafio é outro: a comunidade indígena. Junto com a UFMG (Universidade Federal de Minas Gerais), Lucia Helena dirige o projeto de Formação de Professores Indígenas. "Participei da construção da proposta curricular deste novo programa da instituição", conta. "O nosso objetivo é responder a uma demanda deste grupo e, muito mais do que isso, abrir um espaço que lhes é de direito", completa a professora.

Um trabalho que demandou tempo e muita pesquisa. Não bastava apensa inserir esta população na universidade e pronto. Foi preciso criar mecanismos que se adaptassem a cultura e as necessidades dos índios. "Não seria adequado e nem produtivo adotar os mesmos padrões do ensino convencional. As metodologias de ensino e, inclusive, os horários tiveram que ser adequados para que, de fato, fosse realizada a inclusão desta população no Ensino Superior", explica.

Desta forma, o curso de cinco anos é dividido em duas etapas, uma intensiva e a outra intermediária. Uma vez por semestre, geralmente nos meses de maio e setembro, os alunos realizam a etapa intensiva, ou seja, passam este período dentro da universidade. No restante do tempo, eles são submetidos a uma série de atividades que podem ser desenvolvidas na própria aldeia. E ainda na etapa intermediária, os estudantes recebem a visita dos professores que dão continuidade ao trabalho.

O desenho do curso, segundo Lucia Helena, foi construído em cima da especificidade de seu público-alvo. "Todos os estudantes são professores em suas aldeias. Retirá-los de lá para passar quatro anos fora prejudicaria todo o projeto escolar da comunidade", justifica. E, ao mesmo tempo, esta demanda também não poderia ser isolada. Precisaria ter uma interação com a comunidade acadêmica. "Outro ponto fundamental para a inserção deste povo na universidade", aponta.

O conteúdo programático também é um outro diferencial deste projeto. O curso é trabalhado em três eixos curriculares: Múltiplas Linguagem, que abrange as áreas de língua, literatura, arte e novas tecnologias; Conhecimento da Realidade Sócio Ambiental, que engloba os conhecimentos de meio ambiente, história, arqueologia e sociologia; e a Escola e seus Sujeitos, que prega a dimensão da Educação, do espaço escolar e ainda da pedagogia indígena. "Uma forma de levar para a população indígena a questão da interculturalidade", esclarece.

Postura do professor

Adaptações de horários, do conteúdo programático e inclusive das metodologias de ensino. Com tantas mudanças, será que a postura do professor em sala de aula também não deve ser diferente? Lucia Helena garante que não, que a postura do docente é a mesma, ou, pelo menos, deveria ser. "Um educador tem que estar preparado para trabalhar com as diversidades e saber conduzí-las de maneira eficiente", descreve.

A professora alerta que o formador precisa perceber e entender que trabalha diretamente com pessoas e que cada uma delas possui uma cultura, uma forma de ver o mundo e uma maneira de aprender. "Um requisito básico para a profissão é saber trabalhar com a interculturalidade", orienta. Lucia Helena ressalta ainda que o aluno deve ser tratado como um indivíduo e não como coletivo.

Não é só a população indígena que ganha com a criação de programas como este. A professora garante que a comunidade acadêmica, como um todo, sai beneficiada. A presença destes grupos "excluídos" na universidade trabalha com a dimensão de universalidade e, principalmente, de diversidade. "Uma forma de ampliar o universo dos alunos, professores e gestores", assegura. "Os educadores e as próprias instituições de Ensino Superior têm uma responsabilidade social com o Brasil e devem começar a se mobilizar para mudar o histórico de exclusão do país", pontua.

Mas a situação é um pouco mais complicada. A professora acredita que o que falta é políticas públicas consistentes, que pensam na educação como um instrumento de cidadania. "É preciso uma mobilização muito maior."

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