Professor da Unicamp retrata em livro problemas da educação no país
Amparado em sua experiência de 20 anos como professor da rede pública e docente do Departamento de Filosofia e História da Educação da Faculdade de Educação (FE) da Unicamp, o educador Roberto Goto acaba de publicar o livro "Problemas (Des)Educacionais Brasileiros", editado pela Gráfica da Universidade. A obra reúne cerca de 60 artigos, distribuídos em 100 páginas e publicados originalmente pelo Jornal Correio Popular semanalmente entre março de 1995 e abril de 1996 e esporadicamente de maio de 2002 a setembro de 2003. O material já pode ser adquirido no Setor de Publicações da FE.
Goto foi jornalista do Jornal Correio Popular nas décadas de 70 e 80, tendo colaborado como co-editor do suplemento Domingo Cultura. É mestre e doutor em Letras, e doutor em Educação pela Unicamp. Escreveu a novela "Joana sem Terra", publicada pela Estação Liberdade em 1993. É autor dos livros Malandragem Revisitada, A Letra ou a Vida, Para ler Fernando Henrique Cardoso, o H da História e Começos de Filosofia. Participou também de uma Antologia de Poesia Nikkey, publicada pela Editora Estação Liberdade e pela Aliança Cultural Brasil-Japão em 1993. Segue entrevista concedida ao Portal Unicamp (PU), onde Goto expressa sua opinião sobre alguns temas de educação e relembra algumas características atuais do assunto.
PU - Quais são os problemas educacionais brasileiros?
Goto - Ao escrever para o Correio Popular, tratei, de modo geral, de questões culturais. Mas, sendo então professor da rede pública, concentrei-me na abordagem de problemas que me pareciam relevantes. Procurei traduzir esse enfoque muito rente à experiência cotidiana do magistério, no título ambíguo do livro, que parodia o título de uma obra de Osman Lins - Problemas Inculturais Brasileiros. Os primeiros artigos já abordam como um dos grandes problemas (des)educacionais o fato de que os professores contratados pelo Estado vêm sendo cada vez mais sobrecarregados de trabalho e responsabilidades, ao mesmo tempo em que vêem sua remuneração despencar. Esse problema se articula com outro, representado por uma política educacional esquizofrênica, que alardeia uma preocupação prioritária com uma educação de qualidade mas, na realidade, só busca a redução estatística dos índices de evasão e repetência.
PU - Como isso ocorre na prática?
Goto -Na prática, foi instituída a promoção automática dos alunos, estabelecendo avaliações eliminatórias apenas nos finais dos dois ciclos do Ensino Fundamental. O processo de escolarização passou a ser tratado como uma linha de montagem, em que o aluno é visto como produto. Sintomaticamente, os diretores de escolas passaram a ser chamados gestores e o Estado criou mecanismos para estimular aqueles que gerenciam unidades em que as taxas de evasão e repetência são menores. Trata-se de uma visão empresarial, mas caolha, na medida em que os professores, com encargos cada vez mais ampliados, não são contemplados com a melhoria das condições de trabalho. Continuam, por exemplo, a lecionar para classes numerosas, em ambientes freqüentemente precários e socialmente hostis. Esse é um ponto pelo qual podemos dizer que aquela esquizofrenia é algo que extrapola o âmbito estrito do Estado, espraiando-se pela família e pela sociedade em geral. Aí também há uma divisão profunda entre discurso e prática, envolvendo os princípios enunciados pelo discurso do politicamente correto. De acordo com tal discurso, crianças e adolescentes são seres autônomos, portadores de direitos e de vontade própria e, no final das contas, intocáveis; casos como o da professora acusada de deixar um aluno de castigo causam escândalo e estardalhaço na mídia. No entanto, cabe perguntar: se crianças e adolescentes têm essas características que lhes confere o discurso do politicamente correto, por que têm de se submeter a uma educação escolar obrigatória? Se são sujeitos de direito, por que não podem escolher entre estudar ou não, ir à escola ou não? Estas questões não são ociosas, porque Estado, família e sociedade obrigam suas crianças a freqüentarem a escola, esperam que os professores as eduquem (obrigatoriamente), porém ao mesmo tempo não oferecem condições mínimas que permitam a esses professores lidar com alunos amontoados em salas antipedagógicas, obrigados a assistir a aulas para as quais não recebem nenhum estímulo prévio por parte das famílias, da mídia ou de outros ambientes por eles freqüentados.
[Professor da Unicamp Roberto Goto: jornalista e educador] PU - A quem o sr. chama de críticos demagógicos?
Goto - Atribuo este designativo a pessoas apegadas a uma realidade arcaica e ultrapassada. Elas espancam um cachorro morto, pichando um quadro em que reinavam professores que usavam a palmatória, que castigavam arbitrariamente o aluno. Isso não existe mais. Como qualquer um pode notar empiricamente, a relação se inverteu. Hoje, o tirano é o aluno. Ele dispõe da liberdade de manifestar seus desejos e impulsos. O professor não: é sempre aconselhado a ser paciente e a não revidar, por mais ofensivo e agressivo que seja o aluno. O professor não tem mais as prerrogativas que costumavam ser associadas ao magistério. Na maioria das vezes, sequer conta com o apoio dos superiores (os atuais gestores) e das famílias dos alunos. Mas, na mente daqueles críticos, os professores continuam sendo uns tiranos. Ocorre que, quando são confrontados na prática com as tais crianças e adolescentes que eles idealizam, esses críticos simplesmente não os suportam. Acabam reencarnando a figura do mestre-escola com palmatória ou vara de marmelo, ameaçando com castigos infernais a gurizada que debocha ou faz pouco deles. Daí sua postura inconsistente.
PU - Na sociedade brasileira, ainda prevalece como modelo uma elite educacional?
Goto - Tomemos como exemplo o chamado padrão culto da língua portuguesa. Modernamente, não se faz tanta questão do correto. Admitem-se os dialetos. Há uns 20 anos, os lingüistas dedicados ao ensino de português recomendavam que os erros não deveriam ser corrigidos, pois isso traumatizaria o aluno. Ainda agora, se o professor faz menção de corrigir os erros, os alunos não incorporam estas correções e nem fazem muita questão. Esta talvez seja uma influência do meio. Vemos que a Internet cria modelos de escrita controversos. Prevalece a idéia de que, se existe um padrão, ele não é soberano.
PU - Considera os nossos professores despreparados?
Goto - O preparo e o despreparo do professor precisam ser abordados em sua relação com a política educacional e a estrutura global do ensino. Dizendo o óbvio: o professor é um agente que depende de uma formação, de uma educação. O que ocorre com o processo educacional, em praticamente todos os níveis? O sistema praticamente aboliu a figura e o papel do professor que impõe seus conteúdos e se impõe, ele próprio. Ele tem sido visto como alguém que disponibiliza conhecimentos. Os alunos que têm melhor performance nos estudos são os que mais aproveitam a lição e a experiência do professor. Os outros alunos não terão igual desempenho. Em resumo, o sistema não se responsabiliza pelo aluno; ele tem responsabilizado os professores, culpando cegamente aqueles que reprovam além do que ele considera a quantidade “certa”. Mas, como vem permitindo a promoção automática, o sistema acaba atribuindo ao aluno a responsabilidade pela qualidade de sua escolarização. É como se ele lhe dissesse: “Bem, eu lhe dei a oportunidade de estudar, ofereci aulas e professores etc. Se você não aproveitou, o problema agora é seu.” Isso se aplica aos alunos dos cursos de formação do magistério: se bem ou mal preparados, é algo que, para o sistema, depende deles mesmos. O que isso significa? Significa que o sistema, como um todo, lava as mãos e atira a responsabilidade às costas dos indivíduos. Assim, nas escolas públicas estaduais, temos uma situação que seria cômica, não fosse trágica: os representantes do Estado acusando professores de incompetência e despreparo, jogando para baixo do tapete o fato óbvio de que é o mesmo Estado que seleciona e contrata esses mesmos professores.