Professor cego é voluntário exemplar em SC
A cegueira de nascença não foi um obstáculo intransponível para o determinado João de Paula. Aos 38 anos, o filósofo e violonista profissional trabalha como professor de ensino médio numa escola estadual de Florianópolis, em Santa Catarina, e, como voluntário, dá aulas de violão a crianças cegas na Aamabas (Associação de Atendimento a Criança Deficiente Visual) e ensina canto coral aos alunos de 1ª a 6ª série do colégio em que leciona. Desde 1998, ele desenvolve atividades semelhantes em São Paulo, onde chegou a montar uma banda rítmica formada por deficientes, inclusive surdos. No total, já se vão oito anos de voluntariado.
Pelo perfil, percebe-se que De Paula não é um exemplo apenas para os deficientes. A cegueira, herança da rubéola adquirida pela mãe, levou a família a mudar-se de Minas Gerais para São Paulo em 1973, em busca de tratamento para o garoto de seis anos. Sem que os médicos paulistas conseguissem resolver o problema nos olhos, ele foi aprendendo a viver sem enxergar: fez os ensinos fundamental e médio e estudou em conservatórios de música voltados a deficientes — como o Solar Musical e a Associação Laramara —, onde aprendeu a tocar instrumentos como piano, flauta, percussão, bateria, cavaquinho e bandolim e formou-se violonista profissional.
Em 1994, De Paula teve que se distanciar da família para estudar. Mudou-se para Curitiba, no Paraná, onde fez a faculdade de Filosofia. Foi um período difícil. Morava num instituto religioso e precisava do auxílio dos colegas para estudar. “Meus amigos ditavam os textos para mim. Eles liam em voz alta e eu ia batendo na máquina em braile, para poder ler depois. Algumas vezes eu gravava o que eles iam ditando. Isso fez com que o curso tivesse um custo muito mais alto para mim”, lembra.
De volta a São Paulo, em 1998, De Paula foi morar com os irmãos — seus pais haviam se mudado para Santa Catarina. Começou a trabalhar voluntariamente na Adevig (Associação de Deficientes Visuais de Guarulhos). Por quatro anos, ensinou dezenas de crianças cegas a ler partituras musicais em braile, conhecimento que pouquíssimas pessoas no Brasil têm. “Aqui em Santa Catarina, por exemplo, eu devo ser o único que sabe”, conta.
A ida de De Paula para Santa Catarina aconteceu em 2002, em decorrência do casamento dos irmãos. Ele voltou a viver com os pais, com quem mora até hoje. Em Florianópolis, passou a dar aulas de Filosofia para os alunos de ensino médio do Colégio Presidente Roosevelt. “Esse é meu trabalho, é remunerado”, destaca. “Como voluntário, ensino canto coral para os alunos de 1ª a 6ª série aqui da escola e, na associação [Aamabas], dou aula de violão e de musicografia em braile”, completa.
Tamanha dedicação rendeu a De Paula o Prêmio Exemplo Voluntário de 2005, que todos os anos homenageia dez pessoas que fazem atividades voltadas ao cumprimento dos Objetivos de Desenvolvimento do Milênio. A premiação é oferecida pelo IVA (Instituto Voluntários em Ação), pela Fundação Maurício Sirotsky Sobrinho, pelo SESC-SC e pelo PNUD.
Feliz com o prêmio, o professor e violonista é objetivo ao explicar o que o motivou a iniciar o trabalho voluntário: “Pensei que eu tenho potencial e que poderia fazer alguma coisa”. “Não gosto de falar isso, mas eu via que há muita defasagem no atendimento às pessoas deficientes. Mas eu não queria ficar só criticando, queria fazer alguma coisa, dar um pouco de mim. O recado que eu deixo é que as pessoas não se limitem a elas mesmas. Que façam alguma coisa pelos outros. É fácil, basta a gente querer”, conclui.