Primeira faculdade indígena do país à espera de verbas
Por Flávia Mattar , do Ibase
Colaborou: Carlos Daniel da Costa
Recentemente, o governo federal sancionou a Lei 11.645, que inclui no currículo oficial da rede de ensino nacional a obrigatoriedade da temática História e Cultura Afro-brasileira e Indígena. A nova legislação chega junto com a criação da primeira faculdade indígena do Brasil, para formação de professores(as)/pesquisadores(as) das comunidades da Região do Rio Negro, ligada à Universidade Federal do Amazonas. Está tudo pronto para as aulas começarem, falta só a liberação dos recursos pelo Ministério da Educação. A seguir, a entrevista com a geógrafa Ivani Ferreira de Faria, coordenadora do curso.
Ibase – Por que o MEC ainda não liberou os recursos para que o curso de Licenciamento Indígena em Políticas Educacionais e Desenvolvimento Sustentável possa ser ministrado? Há alguma previsão?
Ivani Ferreira de Faria – A Universidade Federal do Amazonas não tem recursos financeiros para arcar sozinha com os custos da licenciatura. E não há previsão de liberação de recursos pelo MEC. Estamos nos mobilizando para ir a Brasília conversar diretamente com o ministro da Educação, Fernando Haddad. Tentamos marcar uma reunião para entregar o projeto em mãos há quase um ano, mas não tivemos sucesso. Na verdade, acredito que o ministro nem conheça o projeto. Penso que a questão é muito mais política do que financeira.
Ibase – Qual a importância de uma graduação como esta?
Ivani Ferreira de Faria – O curso faz parte de um programa de educação indígena para os povos do Rio Negro. Foi discutido pelos próprios indígenas e suas associações. Neste programa, foi definido que a educação indígena deve ser contínua, do ensino fundamental ao superior. A metodologia de ensino baseia-se na pesquisa e tem por meta formar para a autonomia do povo indígena, garantindo a sustentabilidade de suas comunidades e evitando o êxodo indígena. Ou seja, dar condições de eles se sustentarem na própria terra mantendo suas culturas.
Além disso, este curso quebra com vários paradigmas da educação superior no Brasil. Traz um currículo aberto e flexível e rompe com a dicotomia entre bacharelado e licenciatura.
Ibase – Isso não poderia ser feito por meio dos cursos de graduação já existentes?
Ivani Ferreira de Faria – Não, os cursos existentes foram pensados de acordo com a nossa cultura e valores, cujas metodologias são adequadas a este fim. Como costumo dizer, foram "feitos por brancos para brancos" no sentido cultural. Nestes, não há nenhuma especificidade que atenda às diferentes culturas e línguas. Já este curso foi pensando coletivamente para atender às especificidades culturais, lingüísticas, as territorialidades indígenas. Respeita as diferenças dos povos e será ministrado na própria terra indígena. Seu objetivo final vai além de formar e conseguir um diploma, visa formar para mantê-los, desenvolvê-los e fortalecê-los como povo.
Ibase – Quem pode participar do curso e como se dará o processo seletivo?
Ivani Ferreira de Faria – Podem participar indígenas com ensino médio completo ou que possuam curso de graduação incompleto. O processo seletivo será aplicado nas comunidades onde o curso funcionará e, no caso do Rio Negro, em dois lugares: Cucui e em uma comunidade do baixo Rio Negro. O processo seletivo começa com os candidatos manifestando seu interesse em fazer o curso, a comunidade envia os nomes para as suas associações que, em assembléia, homologam a lista de candidatos à seleção que será enviada à coordenadoria do curso.
Ibase – Essa seleção será anual? Haverá prova para o ingresso, vestibular?
Ivani Ferreira de Faria – As inscrições ocorrerão de acordo com a demanda para a formação de professores. Nos dois primeiros anos, serão anuais. Também não podemos formar apenas professores. Existem demandas para formação em outras áreas, como na saúde, com a enfermagem, por exemplo.
Não há vestibular. O instrumento de seleção consiste em um memorial, que deverá ser escrito, preferencialmente, em uma das línguas indígenas co-oficiais (Nheengatu, Baniwa e Tukano) ou outra língua não co-oficial. Nesse documento, o candidato irá demonstrar conhecimento sobre a educação escolar indígena, domínio da língua na forma escrita e explicitar os motivos pelos quais optou fazer o curso.
Ibase – Das 3.700 horas do curso, 1.600 horas são dedicadas à pesquisa. Por quê?
Ivani Ferreira de Faria – Porque as pesquisas desenvolvidas pelos discentes contribuirão não somente para a formação pedagógica dos alunos, mas permitirá, a partir da gestão do conhecimento e de tecnologias sociais tradicionais indígenas e não-indígenas, uma discussão e uma gestão territorial de suas comunidades e da terra indígena do Alto Rio Negro. Trarão respostas, criando e pensando maneiras de solucionar os problemas enfrentados e os desafios que se apresentam no contexto da interculturalidade.
Ibase – Que tipos de pesquisas serão desenvolvidas?
Ivani Ferreira de Faria – O eixo curricular do curso está centrado na temática SER Professor/Pesquisador Indígena, desenvolvido a partir de três subeixos definidos com base em projetos desenvolvidos e almejados pelas comunidades indígenas. São eles: Escola indígena e Políticas Educacionais; Desenvolvimento Sustentável e Gestão do Território; e Patrimônio Cultural e Cidadania
Estes três subeixos contemplarão atividades acadêmicas didático-pedagógicos, de pesquisa, de tradução, gerenciamento de projetos, artísticos, lingüísticos, de comunicação (oratória-leitura) e interpretação, de gestão territorial e de análise crítico social. Materiais literários e audiovisuais serão produzidos ao longo do curso por cada estudante ou grupo de estudantes ,de acordo com a identidade cultural e territorial da sua comunidade nas respectivas línguas de seu povo/comunidade.
Ibase – Recentemente, foi sancionada a Lei 11.645, que inclui no currículo oficial da rede de ensino nacional a obrigatoriedade da temática História e Cultura Afro-brasileira e Indígena. Nesse sentido, a qualificação de profissionais indígenas chega em momento oportuno, não é?
Ivani Ferreira de Faria – Na verdade, não se trata de qualificação. Nosso problema é ter uma política etnocêntrica que nunca levou em consideração a nossa verdadeira formação cultural e sempre relegou as nossas raízes. Esta ideologia está impregnada na nossa sociedade. .Jovens, velhos, poucos sabem sobre a verdadeira história da formação do povo hoje chamado de brasileiro. Quando sabem, negam a importância tanto dos africanos como dos indígenas na construção deste país. Se este tipo de ideologia não mudar, pouco adiantará passar informações sobre os povos indígenas e africanos e suas culturas. A questão não é a informação, mas a mudança de ideologia.
(Envolverde/Ibase)