17/06/2010

Por um gol em 2015

Joanesburgo, 17/6/2010 – A Copa do Mundo na África do Sul parece ir em direção contrária aos Objetivos de Desenvolvimento do Milênio. Enquanto acontece o torneio, nem uma só criança neste país vai à escola. Naturalmente, é uma exceção: as férias de inverno foram prolongadas para que os colégios fiquem fechados durante a competição.

Por outro lado, 43 milhões de meninos e meninas na África subsaariana, em momento algum do ano, podem estudar, segundo o Fundo das Nações Unidas para o Desenvolvimento, isto é, mais de um terço dos 115 milhões de crianças no mundo que não vão à escola. Muitos milhões mais tentam estudar em péssimas situações: prédios inadequados, professores com excesso de trabalho e salas superlotadas. A adoção de programas para uma educação universal aumentou o número de crianças nas salas de aula, mas permanecem muitos outros problemas.

No Quênia, o número dos que frequentam escolas primárias duplicou desde 2003: 80% das crianças em idade escolar agora estão matriculados. Porém, como o governo não tem dinheiro para pagar e capacitar novos professores, as salas de aula estão superlotadas e a qualidade do ensino caiu. Em Serra Leoa, as autoridades contrataram mais professores para enfrentar o crescimento das matrículas, e agora o Departamento de Educação afirma que não pode pagá-los. “Mesmo quando os jovens têm acesso ao ensino na África, não é um ensino de qualidade”, afirmou Salim Vally, porta-voz da sul-africana Rede de Participação Pública na Educação (PPEN).

Junto com sindicatos e outras organizações de base, a PPEN é um dos 20 grupos africanos que aderiram à campanha 1Gol. Lançada em 2009, a iniciativa tem a missão de usar o campeonato da Fifa na África do Sul como plataforma para pressionar os líderes mundiais a cumprirem os Objetivos de Desenvolvimento do Milênio até 2015. Garantir o ensino primário universal e dar oportunidade educacional às meninas e adolescentes em todos os níveis são duas metas primordiais para a África. “Estamos nos unindo em uma só voz para garantir que a educação seja uma prioridade”, afirmou Alex Kent, chefe da 1Gol na África do Sul. “Queremos assegurar que sejam aplicadas políticas, que se utilize o dinheiro, que as meninas tenham oportunidade de aprender”, acrescentou.

O acesso à educação é particularmente desigual na África do Sul: “Os ricos têm um ensino de qualidade, mas a vasta maioria de meninos e meninas não. Apenas 7% de nossas escolas possuem biblioteca, e o hábito de ler é muito importante”, disse Vally à IPS durante uma marcha realizada no dia 10 em Joanesburgo. “Se podemos ser a sede da Copa do Mundo, que custa mais de US$ 7,8 bilhões, seguramente podemos dar às nossas escolas bibliotecas, livros importantes e professores bem capacitados”, acrescentou.

Mthunzi Gcinumthetho, de 18 anos e aluno da Escola Albert Street, no populoso bairro de Soweto, afirmou que “o governo continua mentindo para os estudantes. Diz que está protegendo os direitos de cada aluno. Mas não é verdade, porque o tipo de escola que se tem no distrito central de Joanesburgo não é igual ao das escolas de Sandton”. Nos colégios de Sandton, zona rica da municipalidade de Greater Joburg, não falta nada: biblioteca, computador, professor. E em muitos centros educacionais de Soweto, cinco ou seis alunos têm de compartilhar o mesmo livro de texto.

“Aqui na África do Sul temos as melhores e as piores escolas do mundo”, disse Kent. “Queremos garantir que sejam aplicadas políticas contra a desigualdade. Queremos que todos os países africanos destinem 20% de seu orçamento para a educação. Queremos que contratem e capacitem mais professores”, afirmou.

Pouco antes do final das férias de inverno e do reinício das aulas, o presidente sul-africano, Jacob Zuma, se reunirá com outros chefes de Estado e de governo em uma cúpula sobre educação, no dia 7 de julho, na Cidade do Cabo. No encontro, o objetivo é adotar um plano de ação para conseguir matrícula universal, que terá como meta 2014, ano da Copa no Brasil. IPS/Envolverde

FOTO
Crédito:
Marshall Patsanza/IPS
Legenda: Marcha da 1Gol em Joanesburgo.

 


(IPS/Envolverde)

 


 
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