11/09/2026

Por que a Ocasião Não faz o Ladrão?

Por Wolmer Ricardo Tavares – Mestre em Educação e Sociedade, Escritor, Palestrante e Docente – http://www.wolmer.pro.br

Currículo Lattes http://lattes.cnpq.br/9745921265767806

 

O texto de hoje faz uma imersão em Lev Vygotsky e Paulo Freire. O primeiro articulando a psicologia histórico-cultural e o segundo a pedagogia libertadora, ambos trazem no cerne a educação, a conscientização e a internalização como uma tríade para o aprendizado social, o desenvolvimento humano e a transformação da mente e da realidade.

Embora tenham trabalhado em épocas e contextos distintos, Vygotsky e Freire convergem na ideia de que o aprendizado ocorre sob uma perspectiva social, baseada nas experiências vivenciadas por cada indivíduo e no arcabouço para o desenvolvimento cognitivo. Dito isso, para ambos os autores, o ato de educar não se resume a transmitir dados; é um processo humanizador que tem no aprendizado a mola propulsora para esse desenvolvimento.

É interessante observar que a educação fornece todo o repertório de ferramentas culturais, linguagens e símbolos necessários para que o indivíduo comece a organizar o próprio pensamento e a entender o mundo ao seu redor. Como ressaltei em meu livro Gestão Afetiva: Sistema Educacional e Propostas Gerenciais (WAK, 2020), é por meio dessa mesma educação que se dará o desenvolvimento integral do homem, seja em sua capacidade física, intelectual ou moral.

A transição da percepção à ação crítica é denominada conscientização. É justamente esse conceito que Paulo Freire adotou em seus trabalhos, demonstrando que ele vai muito além do simples "saber algo". Afinal, a tomada de consciência é o primeiro passo para perceber e agir sobre a realidade, saindo da passividade para se tornar um agente transformador. Essa mesma conscientização permite ao educando compreender as causas da realidade, perceber-se como sujeito ativo e agir para transformar a si mesmo e ao seu entorno.

Cabe ressaltar que, quando ocorre o aprendizado, o social se torna individual, processo psicológico que denominamos internalização. É por meio dele que o que está externo ao sujeito (ambiente, cultura, relações) passa a fazer parte dele. Nesse quesito, sobressaem os saberes de Vygotsky, ao afirmar que toda função psicológica surge primeiro no nível social (interpsicológica) para, depois, emergir no nível individual (intrapsicológica).

Ambos os pesquisadores são enfáticos ao mostrar que o conhecimento transmitido pela educação, quando provocado pela conscientização e verdadeiramente assimilado, passa a integrar a estrutura mental do indivíduo. Isso permite que o sujeito reconstrua internamente os valores e conceitos coletivos, mudando a própria subjetividade e o comportamento de forma espontânea.

O fato é que, sem educação, falta a base do saber; sem conscientização, o aprendizado vira mera memorização mecânica — o que Freire chamava de "educação bancária" ou depósito bancário. Por fim, sem internalização, a mudança comportamental não se sustenta a longo prazo. É por isso que, sem a internalização, as regras só existem na voz do outro, no medo de ser descoberto ou no castigo prometido. Quando há internalização, nossos valores e nossa identidade passam a moldar genuinamente o nosso caráter.

Por esse motivo, o adágio popular que afirma que "a ocasião faz o ladrão" deve ser veementemente refutado. O ladrão já está ali, pois as oportunidades estão sempre explícitas ao nosso entorno. A situação ocasiona apenas o roubo, o crime em si, visto que o malfeitor já se encontrava pronto, munido de seu caráter falho, de sua hipocrisia, de suas mentiras e de seu egoísmo.

Assine

Assine gratuitamente nossa revista e receba por email as novidades semanais.

×
Assine

Está com alguma dúvida? Quer fazer alguma sugestão para nós? Então, fale conosco pelo formulário abaixo.

×