20/08/2026

Pobre de Direita

Por Wolmer Ricardo Tavares – Mestre em Educação e Sociedade, Escritor, Palestrante e Docente – http://www.wolmer.pro.br

Currículo Lattes http://lattes.cnpq.br/9745921265767806

 

Às vezes, os textos redigidos não podem se manter na imparcialidade; faz-se necessário que o autor se exponha. Além de escrever com fundamentações, expor o próprio ponto de vista e a experiência permite sair da subjetividade e ser mais incisivo nas falas. O objetivo não é o mero convencimento, já que estes escritos não possuem tais ambições de catequese; até porque o ignorante, por conveniência, muitas vezes prefere continuar em seu "país das maravilhas".

Lembro-me de que, há alguns anos, um professor declarou-se de direita, favorável a "privatizar tudo" sob o argumento de que isso acabaria com a corrupção. Em outra ocasião, outro docente afirmou ser sistematicamente contra a esquerda. Diante disso, propus uma retórica a mim mesmo: o que esses profissionais têm em comum, além do distanciamento da realidade prática, da falta de consciência de classe e de uma percepção política eclipsada por narrativas extremistas?

A meu ver, os docentes deveriam figurar entre os sujeitos mais subversivos quanto ao status quo neoliberal e conservador, haja vista ser esta uma das classes mais desvalorizadas de trabalhadores. Infelizmente, deparamo-nos com milhões de pessoas presas a esse mesmo nó ideológico, defendendo dogmas que operam contra sua própria sobrevivência. Pregam o Estado Mínimo, mas utilizam continuamente os serviços oferecidos pelo poder público — como educação e saúde —, sem contar a parcela significativa que atua na condição de servidores públicos.

Ao analisarmos a conjuntura de forma crítica, percebemos a contradição flagrante entre a ideologia do Estado Mínimo e a dependência prática dos serviços públicos por eleitores de baixa renda. Esse panorama foi mapeado pelo sociólogo Jessé Souza em sua obra O Pobre de Direita, um estudo frequentemente contestado, sem fundamentação técnica, pelos próprios indivíduos marginalizados que se autodeclaram conservadores.

Em consultas a modelos de inteligência artificial generativa baseados em censos de opinião (OPENAI, 2026), aponta-se que a identificação com a direita é expressiva nas classes de menor renda e escolaridade. No Brasil, cruzando as pesquisas amostrais com os dados oficiais de atendimento, constata-se que essa parcela populacional consome intensamente o aparato estatal: o Sistema Único de Saúde (SUS) atende a mais de 190 milhões de brasileiros (75% da população), o que significa que, estatisticamente, um em cada três pacientes na rede pública se identifica com o espectro da direita. Na Educação Básica, o cenário se repete, com as escolas públicas concentrando 81% das matrículas totais (Inep). O eleitorado periférico e comunitário utiliza majoritariamente essas instituições, apesar de ecoar discursos favoráveis à privatização e à desestatização de serviços sociais.

Uma das maiores ilusões desse segmento reside na interpretação errônea do conceito de empreendedorismo. Confunde-se trabalho informal e precarizado com autonomia empresarial. Motoristas de aplicativos e entregadores de plataformas digitais passam a ser vistos como "microempreendedores", ocultando uma exploração severa que subtrai direitos conquistados historicamente, como o 13º salário, férias remuneradas, FGTS e descanso semanal. Esse esvaziamento de garantias é legitimado pela aceitação cega do discurso meritocrático neoliberal.

Redigir esta obra permitiu-me uma imersão temporal ao início da década de 1990, quando eu cursava a licenciatura em matemática. Naquela oportunidade, um excelente professor explicou-nos o significado estrutural de ser proletário. Muitos rotularão o debate como puramente marxista, contudo, é impossível prescindir da matriz conceitual crítica para trabalhar a consciência de classe. Se lhe falta a propriedade dos meios de produção (fábricas, terras e ferramentas), se você vende sua força de trabalho para subsistir e se o lucro do capitalista nasce da extração da mais-valia, você é, ontologicamente, um proletário. Ter uma mercearia ou um pequeno comércio local não confere pertencimento à elite econômica; trata-se apenas de um "proletário gourmet", visto que sua existência continua atrelada à necessidade contínua de trabalhar para pagar contas.

O cerne do tema deságua, portanto, no paradoxo do voto contra si mesmo. Defender o enfraquecimento fiscal e estrutural do Estado é uma forma de autossabotagem social. Esse processo destrói os mecanismos de proteção que evitam a miséria extrema e aprofundam o abismo das desigualdades. Conforme aponta Jessé Souza, o pobre de direita frequentemente apoia o neoliberalismo em busca de uma distinção moral promovida por discursos neopentecostais e pela teologia do domínio, rejeitando as políticas de assistência social da esquerda enquanto depende delas para manter o mínimo de dignidade humana.

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