11/05/2010

Pessoas com deficiência não devem ser vistas como menos humanas

Antes de lutar pela inclusão das pessoas com deficiência na educação, é preciso fazer com que todos entendam que essa parcela da população também é composta por seres humanos. Esta é a opinião da jornalista e autora de obras sobre inclusão, Cláudia Werneck. “A ideia de que a deficiência é a ‘falta de algo’ é muito antiga e persiste. Mas é preciso compreender que o fato de alguém não ter uma parte do corpo não o torna menos humano”.

Para ela, apenas quando houver a concepção de que as pessoas com deficiência têm direitos iguais, será possível evitar práticas discriminatórias no ambiente escolar. “Quem é esse discriminador contemporâneo? Somos todos nós. Acredito que com o passar dos anos avançamos nos mecanismos de como esconder essa discriminação”, avalia Cláudia.

Baseada em entrevistas com mais de 18,5 mil alunos, pais e mães, diretores, professores e funcionários, um estudo da Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas (Fipe), lançado em 2009, revelou que 99,3% dos brasileiros demonstram algum tipo de preconceito. O mais comum é contra as pessoas com deficiência, presente em 96,5% dos entrevistados.

A Declaração de Direitos das Pessoas Deficientes, proclamada pela Organização das Nações Unidas (ONU), em 1975, garante o respeito à dignidade humana das pessoas com deficiência. Tão cidadãos quanto qualquer outro, as pessoas com deficiência devem, segundo a declaração, “desfrutar dos mesmos direitos fundamentais” e ter uma “vida decente, tão normal e plena quanto possível”.

De acordo com Cláudia, para possibilitar a realização dos direitos previstos na declaração, é preciso falar sobre destinação de recursos. A especialista afirma que orçar um livro apenas em impressão à tinta pode ser considerada uma prática discriminatória. Seria preciso produzir o conteúdo educacional em seis ou sete formatos, entre eles o braile, garantindo, assim, o amplo acesso ao conhecimento. “Como humano, a pessoa com deficiência tem o direito de participar da sociedade, que está intrínseco ao direito de se comunicar. Assim, permitir o acesso ao saber e a espaços de debate é essencial”, afirma.

De acordo com a Campanha Latino-americana pelo Direito à Educação (Clade), entre 20% e 30% das crianças latino-americanas com deficiência frequentam a escola. Dados revelam também que os níveis de analfabetismo são mais altos entre esta população.

Investimento

Materiais educacionais que contemplem a necessidade das pessoas com deficiência são 20% mais caros. “Mas é preciso pensar que isso não é custo, é investimento. Segregar uma pessoa desse saber será sempre mais caro”, diz a especialista.

“Essas pessoas são vistas como não produtivas, assim não valeria à pena investir. O custo dos produtos destinados a elas é mais alto, mas o futebol, ir à lua ou fazer uma guerra também é caro. Com um míssil é possível construir mil escolas. Então, se trata de priorizar as coisas”, completa o relator especial das Nações Unidas sobre o direito à educação, Vernor Muñoz.

Segundo ele, construir escolas especiais é mais caro do que pensar em um sistema regular de ensino inclusivo. “Pensando a longo prazo, é melhor investir agora em pessoas com deficiência, para que no futuro sejam produtivas“, conclui ele.

Há pelo menos 50 milhões de pessoas com deficiência na América Latina e Caribe, o que representa aproximadamente 10% da população da região. O Brasil é o país latino que conta com a maior parte da população com deficiência – 14,5 milhões, equivalente a 15% dos brasileiros. Os dados são do Banco Mundial (BID).


(Envolverde/Aprendiz)

 
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