Pesquisadores realizam captura inédita de quelônios na Amazônia
Pesquisa identifcou 28 espécies raras durante uma expedição de 20 dias em diferentes regiões amazônicas
Pesquisadores do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa/MCTI) realizaram a captura inédita de 28 adultos da espécie de quelônio Chelus fimbriata (em latim significa tartaruga franjada ou ornamentada) conhecida popularmente por mata-matá (ou matamatá). De acordo com os cientistas essa captura é a maior do mundo para a espécie de quelônio. Não há notícias de uma população com o número tão elevado de indivíduos numa só região por conta da sua raridade e pela dificuldade de capturá-lo.
“Podemos dizer que é um marco na área da herpetologia (estudo de répteis e anfíbios) porque esses animais eram capturados de forma isolada e em diferentes regiões. O que chama atenção é que essa espécie é rara e encontramos os animais concentrados em um só local. Até o momento, não há nenhum registro na literatura científica de captura para uma população desse porte”, explica o mestrando Fabio Cunha, um dos participantes da expedição que fez a descoberta.
A descoberta desses 28 espécimes aconteceu durante uma expedição de 20 dias, liderada pelo pesquisador do Inpa, Richard Vogt, no período de 17 de fevereiro a 10 de março pelo Médio e Alto rio Negro na região entre os municípios de Barcelos (a 454 km de Manaus) e Santa Isabel do Rio Negro (a 781 km de Manaus). Os pesquisadores identificaram 27 machos e uma fêmea.
A expedição faz parte das pesquisas para a titulação de mestrado de Fábio A. G. Cunha, estudante do Programa de Pós-Graduação em Biologia de Água Doce e Pesca Interior (PPG-BADPI) do Inpa cuja tese tem como título: “Bioacumulação de mercúrio e seu efeito genotóxico em Chelus fimbriata (SCHNEIDER, 1783) em ambientes fluviais do Médio e Alto rio Negro (AM)”.
A pesquisa
A pesquisa é orientada pelo doutor em Ecology and Behavioral Biology pela University of Minnesota System (Estados Unidos) Bruce Forsberg e coorientada pelo doutor em Zoology pela University of Wisconsin (Madison, Estados Unidos) Richard Carl Vogt, e pela doutora em Ecotoxicologia pela Université du Québec à Rimouski (Canadá) Fabíola Xochilt Domingos, todos pesquisadores e professores do Inpa.
O pesquisador Richard Vogt explica que um dos objetivos dessa expedição para coleta de Chelus fimbriata é caracterizar a ecologia trófica (cadeia alimentar) por meio de isótopos estáveis (metodologia utilizada cujo objetivo é, dentre outras, determinar em qual posição na cadeia alimentar o animal se encontra), bem como avaliar a bioacumulação do mercúrio (acúmulo do metal pela ingestão de alimentos) e seu efeito genotóxico (dano celular após exposição a um agente mutagênico) nessa espécie.
A espécie foi escolhida para essa pesquisa porque o mata-matá é um excelente modelo para estudos de bioacumulação de mercúrio. “É um animal predominantemente carnívoro, alimentando-se quase exclusivamente de peixe, por isso acumula o mercúrio ao longo da cadeia trófica, sendo mais facilmente possível determinar o dano genotóxico”, explica o mestrando Fábio Cunha.
De acordo com Richard Vogt, para conseguir a localização de uma boa população desse quelônio, os pesquisadores montaram uma grande estrutura para 'correr' atrás desses animais pelos rios da Amazônia e contaram com o apoio essencial dos pescadores da região, que relataram sempre avistar aqueles animais “estranhos” nos rios. O pesquisador conta que após 25 anos de pesquisas com quelônios amazônicos, agora, conseguiu encontrar uma grande população de Chelus fimbriata.
Vogt afirma que foi vasculhando no fundo dos lagos e igarapés que continham, às vezes, cerca de 30 centímetros de folhas e galhos secos, e com visibilidade quase zero, revirando troncos e galhos, que os pesquisadores conseguiram localizar os quelônios enterrados no fundo dos ambientes aquáticos.
Coleta
Durante a captura, os pesquisadores coletaram amostras dos animais como: a retirada de fragmentos de músculos para a determinação de mercúrio e análises de isótopos estáveis. Também foram realizadas medidas morfométricas, que compreendem comprimento e largura da carapaça e do plastrão (escudo ventral presente nos quelônios), além da pesagem de cada indivíduo.
Em alguns desses animais capturados foram colocados equipamentos de rádio transmissores para o monitoramento mensal de suas áreas de uso com o objetivo de entender, por exemplo, a história natural desse animal, além de rastrear seu deslocamento, hábitat, dieta, período e local de reprodução.
Crendices
“É um animal muito interessante pelo comportamento atípico dentre os quelônios, atrelado a ele crendices e superstições sendo, sem dúvida, um dos quelônios amazônicos que mais causa interesse dentro da herpetologia e da população em geral”, comenta Richard Vogt.
Cunha explica que o mata-matá não é consumido pela população por causa de sua aparência externa ser um tanto diferente dos demais quelônios. Sua carapaça é cheia de pontas e os ribeirinhos atribuem a ele superstições e lendas. “Algumas pessoas o chamam de “banco do cão” e atrelam certo medo na sua captura. Uma das defesas desse animal é exalar um forte odor e regurgitar alimentos na pessoa que o está manipulando, por isso os pescadores evitam capturá-lo”, diz.
O mestrando ressalta ainda a necessidade de estudos científicos para espécies cujo conhecimento ainda é incipiente. “É imponderável os estudos no qual utilizam como modelo biológico espécies que ainda não temos tanto conhecimento, uma vez que muitas espécies correm o risco de tornarem-se extintas sem sequer conhecermos sua história de vida”, diz Fábio.