Pesquisa revela alto índice de assédio moral em bancos
No Trabalho de Conclusão do Curso de Direito da Unisul de Tubarão, aluna entrevistou bancários da região de Criciúma para verificar a ocorrência de assédio moral por conta da cobrança de metas. Nos bancos privados, 100% dos profissionais afirmaram que suas metas são abusivas
O TCC de Shirle Pittigliani revelou dados preocupantes sobre o assédio moral provocado pelas metas de produção em bancos
João, Teresa, Raimundo, Maria, Joaquim e Lili trabalham num banco. A ordem dos nomes coincide com o poder de chefia que um exerce sobre o seguinte. Assim, João pede a Teresa, que solicita a Raimundo, que cobra de Maria, que exige de Joaquim, que aumenta as metas de Lili.
A brincadeira com “Quadrilha”, poema clássico de Drummond, desenha a trajetória que, muitas vezes, acaba em assédio moral. Para a então acadêmica do curso de Direito da Unisul campus Tubarão Shirle da Silveira Mendonça Pittigliani, esse foi um bom assunto para tratar no Trabalho de Conclusão de Curso (TCC). “É uma bola de neve de poder”, define.
Com objetivo principal de verificar se as metas de produção impostas aos bancários configurariam ou não assédio moral dentro dos bancos, Shirle foi a campo. Ela entrevistou 58 profissionais que atuam em instituições públicas e privadas da região de Criciúma, todos eles filiados ao Sindicato dos Bancários de Criciúma e Região.
A pesquisadora delimitou dois requisitos básicos para que os bancários participassem: que exercessem a profissão há mais de três anos e que tivessem mais de 25 anos de idade. “Para que a pesquisa tivesse aptidão exata frente aos dados levantados”, justifica. Os questionários foram aplicados durante uma assembleia do sindicato, realizada em outubro de 2011. Foram 19 perguntas, que abordavam aspectos pessoais e profissionais.
Os questionamentos envolveram todo o tipo de meta relacionada às funções dos bancários, como abertura de conta, capitalização, seguros e empréstimos. Ao fim, a pesquisa apontou conclusões alarmantes, principalmente em relação aos bancos privados. Segundo o TCC, 100% dos profissionais desse setor, tanto homens quanto mulheres, alegaram que as metas impostas por seus superiores são abusivas.
O número é mais revelador quando comparado ao do setor público. Ele cai pela metade segundo os homens: 53,58%; e diminui consideravelmente de acordo com as mulheres: 61,11%. Para Shirle, o contraste observado entre os dois setores acontece em razão da estabilidade do contrato dos funcionários públicos. “A cobrança é diferente”, afirma. Ainda segundo ela, todas as respostas apontaram para um problema mais grave no setor privado.
A psicóloga e diretora de pessoas da Unisul, professora Solange Piva, lembra que o assédio moral é caracterizado necessariamente pela presença de dois fatores: constância e desqualificação. Ela explica que ele é praticado a fim de menosprezar ou diminuir o trabalhador. “No caso das metas de produção, o assédio moral é caracterizado quando são impostas metas inatingíveis”, argumenta.
Para Solange Piva, o maior número de assédios nos bancos privados se dá porque há mais competitividade. “Neste setor, a busca pelo lucro e a concorrência são cada vez maiores. Dessa maneira, o assédio moral aparece inclusive nas gerências, e acaba estourando no bancário”, analisa. Ela destaca também que existem assédios horizontais, praticados entre colegas pertencentes à mesma hierarquia de trabalho, e ascendentes, praticados pelos subordinados contra os superiores. “Mas o assédio vertical, exercido pelo superior contra o subordinado, é o mais comum”.
Este tipo de assédio, o vertical, foi o foco do trabalho de Shirle. Quando a acadêmica perguntou se os bancários já haviam sido, de fato, assediados no trabalho em virtude das metas de produção, 83,34% dos homens e 85,71% das mulheres do setor privado disseram que sim. Já nos bancos públicos, 42,86% do grupo masculino e 55,55% do grupo feminino declararam ter sofrido assédio moral.
O estresse causado pelas pressões para alcançar metas levou 58,62% dos bancários entrevistados a afirmarem que são infelizes no trabalho. “Eu não esperava um número tão alto de bancários que já tivessem passado por esse tipo de situação ou constrangimento, ou seja, assédio moral puro”, afirma Shirle.
Para a psicóloga Solange, o número preocupa porque a ocorrência desse tipo de prática pode resultar em doenças psíquicas. “Chega um momento em que a pessoa não suporta mais. Isso pode acarretar um quadro de depressão, e o trabalhador não vai querer retornar para a atividade que exercia, por exemplo”, explica a diretora de pessoas da Unisul.
Ela destaca, no entanto, que os problemas de saúde dependem muito da vulnerabilidade de cada funcionário. “Há pessoas que são mais preparadas para esse tipo de pressão. Mas, geralmente, o assediador busca justamente as pessoas que são mais frágeis”.
Shirle da Silveira Mendonça Pittigliani, autora da pesquisa, trabalha como bancária há quatro anos e relata que nunca se sentiu assediada. “A cobrança de metas não é um problema. Ela se torna efetivamente um problema a partir do momento em que passa a ser abusiva, e reflete das mais variadas formas na vida do assediado e de todas as pessoas de seu convívio, transformando inclusive seu modo de ser”.
Ela defende que o assunto seja mais discutido não apenas dentro bancos, mas em toda a sociedade. “As pessoas têm medo de falar sobre isso. O primeiro passo é divulgar o que é o assédio moral”, defende. Shirle também acredita que a solução do problema depende necessariamente de gestões mais humanas.
Solange Piva concorda. De acordo com a psicóloga, é preciso discutir o assunto para impedir que o assédio moral ocorra. “O grande problema é a falta de informação. Muitas pessoas assediam moralmente os colegas de trabalho sem perceber”, destaca.