23/11/2009

Pesquisa mostra deficiência na formação de professores

Pesquisa feita pela Organização dos Estados Ibero-Americanos e a Fundação SM aponta que os cursos de Pedagogia têm formado profissionais despreparados para enfrentar a sala de aula. Pelo levantamento, os cursos de formação inicial não contemplam todas as competências necessárias para tornar alguém professor, na opinião de 51% dos 3.512 educadores de ensino básico entrevistados para a pesquisa "A Formação e a Iniciação Profissional do Professor". Apenas 18% disseram acreditar que as faculdades oferecem toda a capacitação necessária, enquanto 30% não deram opinião sobre a questão.

O estudo foi divulgado no dia 22 de outubro e ouviu principalmente professores da rede pública (96%). Apesar de apontarem deficiências nos cursos, 57% dos entrevistados acreditam que a formação inicial está diretamente ligada à qualidade do ensino. “Os cursos de formação são bons. A questão é que eles ensinam coisas erradas, que não têm valia para a relação de ensino e aprendizagem que depois acontece na sala de aula”, diz a responsável pela análise dos dados da pesquisa, Gisela Wajskop.

Gisela afirma que os cursos de Pedagogia revisam uma série de teorias de ensino de maneira generalista. Segundo ela, os professores não aprendem nem as técnicas para transmissão do conhecimento, nem como se relacionar com os alunos. “Como o professor aprende por repetição e memorização, ele vai ensinar por repetição e por memorização”, salienta.

Pesquisas - De acordo com a coordenadora do curso de Pedagogia da Universidade Tuiuti do Paraná (UTP), Maria Iolanda Fontana, o ensino de qualidade se dá dependendo do espaço em que a formação ocorre. "Se a instituição desenvolve pesquisas de iniciação científica e projetos de extensão, ela consegue dar uma formação mais atualizada porque a pesquisa promove o desenvolvimento do conhecimento", ressalta. Segundo ela os resultados do Exame Nacional de Desempenho de Estudantes (Enade) refletem essa forma de ensino baseada na pesquisa.

Maria Iolanda defende os cursos de Pedagogia e aponta que outras modalidades de licenciatura, como Letras e Matemática, também possuem suas deficiências. "O Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb) dos cursos de Pedagogia está em 5.2, enquanto os de outras licenciaturas, como Letras e Matemática chegam a 4.6 e 4.8 nos anos iniciais e cai durante o ensino médio", comenta.

Em sua dissertação de mestrado, Maria Iolanda investigou a pesquisa na prática pedagógica de professores formadores no curso de Pedagogia da Universidade Federal do Paraná (UFPR). O objetivo foi constatar se os professores desenvolviam práticas de pesquisa durante o processo de formação, uma vez que o projeto pedagógico do curso previa esta perspectiva para o curso.

Como resultado obteve que os professores que defendiam a pesquisa pedagógica incluíam em suas práticas atividades de pesquisa sobre temáticas de estudo das disciplinas que lecionavam. "A pesquisa envolvia a investigação em campo, possibilitando o acesso à realidade escolar. No entanto, esta não era a prática de todos os professores", diz.

Desde a década de 80, e principalmente na de 90, o movimento de educadores e entidades como a Associação Nacional pela Formação de Professores (Anfope), o Centro de Estudos de Educação & Sociedade (Cedes) e a Associação Nacional de Política e Administração da Educação (Anpae), já investiam na defesa da pesquisa como um princípio de formação de professores. Defendiam que a formação de professores deveria acontecer em cursos superiores em universidades que desenvolvem pesquisa.

No entanto, o próprio Ministério da Educação (MEC) criou os Institutos Superiores de Educação (ISE) para a formação de professores e o curso de Normal Superior para formação de professores para a Educação Infantil e anos iniciais. Foram dez anos de discussão desde a Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDB) de 1996 até a aprovação das diretrizes para o curso de Pedagogia. Essa medida incluiu a possibilidade dos ISE também formarem pedagogos, contrariando o que estava na LDB/96, que definia que os cursos de Pedagogia deveriam acontecer nas universidades.

Formação - O diretor de imprensa da Associação dos Professores do Estado do Paraná (APP-Sindicato), Luiz Carlos Paixão da Rocha, comenta que há muita crítica à formação dos professores e que as secretarias municipais e estaduais precisam oferecer a formação continuada para que o conhecimento seja renovado. Uma preocupação, segundo ele, é a proliferação dos cursos de formação a distância, porque eles possuem uma carga horária reduzida. "A formação inicial precisa ter uma base sólida de conteúdo, metodológica (didática) e da prática educativa (estágio)", afirma.

Paixão diz estar em discussão no sindicato uma proposta de que quando o professor entrar na rede, por meio de concurso público, que fique um período de seis meses em experiência. "O processo de formação inicial tem que dar ao professor condições para que ele possa exercer suas atividades em sala de aula", ressalta Paixão. De acordo com ele, a atualização de conhecimento se torna imprescindível para suprir qualquer eventual deficiência que o professor possua em sua graduação.

A superintendente de Gestão Educacional da Secretaria Municipal de Educação de Curitiba, Meroujy Cavet, acredita que para suprir essas deficiências na graduação as matrizes curriculares deveriam ter uma carga horária maior para a educação infantil e as primeiras séries do ensino fundamental. Quando recebem os professores, a secretaria oferece cursos de capacitação (formação continuada) para que se crie um vínculo com a criança. "O professor precisa saber lidar e saber como se dá o desenvolvimento de aprendizado dela", salienta.

Para estreitar a relação com as instituições de ensino superior, Meroujy diz que a secretaria possui representantes do ensino superior no Conselho Municipal de Educação, a fim de que melhore o diálogo entre as partes e o ensino nas séries iniciais. "É uma forma de melhorarmos a comunicação entre os envolvidos na educação pública das séries iniciais, aproximando as instituições das escolas", afirma.

Profissionais contam com apoio de monitores nas escolas

A formação de qualidade de um professor é cobrada com rigor pelas instituições de ensino, que esperam receber profissionais capacitados para lidarem com uma sala de aula. Os que não atendem às necessidades exigidas são orientados e recebem apoio de monitores que já trabalham nessas instituições.

A Escola Atuação, em Curitiba, é um exemplo. Os recém-formados atuam como monitores e são supervisionados pelas coordenadoras da escola, que acompanham o desenvolvimento dos alunos em relação às turmas, ao ambiente escolar, às diversas formas de inclusão, à disciplina etc. Só depois é que lhes são dadas turmas para trabalhar.

"Recebemos professores com formação defasada, ou seja, sem noção de sala de aula, gestão de conflitos, de como lidar com a indisciplina", ressalta a pedagoga e diretora da escola, Esther Cristina Pereira. A falta de vivência dentro de sala de aula é perceptível, segundo a diretora, e ela ainda comenta que isso é fator primordial para o profissional que cuida da saúde física e mental dos alunos.

Esther também é diretora de ensino fundamental do Sindicato das Escolas Particulares do Paraná (Sinepe/PR) e desenvolve um projeto em que trabalha com fóruns de formação. Representantes de várias faculdades se reúnem para discutir os rumos do curso de Pedagogia, os estágios, a grade curricular, dentre outros assuntos de interesse dos profissionais da área.

"O professor não sai da graduação preparado para trabalhar em sala de aula e com a inclusão", salienta. A preocupação das discussões está em o que deve ser feito para se adequar o ensino a essa realidade. De acordo com Esther, os alunos do novo milênio estão mais informatizados e a formação dos professores foi concluída no século passado. "O projeto discute como formar professores para essa nova demanda", diz.

Qualidade - A diretora de ensino do Instituto Superior de Educação da América Latina (Isal), Vera Lúcia Pacheco, diz que a formação de qualidade do professor é de suma importância para o desenvolvimento do país. Defende a ideia de que os cursos de Pedagogia deveriam relacionar teoria à prática desde o primeiro ano da graduação. "Para o professor trabalhar as necessidades dos alunos do século XXI, precisa ser dinâmico, criativo e aprender com os próprios alunos", ressalta.

Para ela, o estágio é importante para o acompanhamento do ensino e de sua evolução em qualquer modalidade na qual o profissional venha a trabalhar. "O aluno não é um ser passivo, e sim ativo. Está em constante processo de aprendizagem e o professor precisa seguir o mesmo ritmo, ou seja, em aprendizado constante", comenta.

Ambas as diretoras acreditam que os cursos de Pedagogia e os profissionais dessa área deveriam ser mais valorizados. "O aluno não apenas aprende, mas também ensina. Está em constante processo de aprendizagem e o professor precisa seguir esse mesmo ritmo", afirma Vera Lúcia.

Finlândia, educação nota 10

Uma reportagem da Revista Veja, do dia 19 de agosto de 2008, mostra o porquê de a Finlândia ter os alunos mais bem preparados do mundo com medidas simples e ênfase na formação dos professores. A Finlândia é um dos países que mais investem em educação em relação ao PIB (6,1%). No Brasil, são 3,9% do PIB. A exigência na Finlândia com os professores é alta e a carreira, concorrida. O vestibular para ser professor é um dos mais disputados do país. Apenas 10% dos candidatos são aprovados. Exceto na pré-escola, o mestrado é pré-requisito para lecionar.

O mestrado é pré-requisito para um professor ser contratado na Finlândia (100% dos professores têm). No Brasil, basta ter o diploma de nível superior, que se tornou o obrigatório no ano passado e apenas 2% dos professores têm mestrado. A diferença no desempenho entre as escolas do país é a menor do mundo. O governo finlandês mantém um sistema sigiloso de avaliação das escolas (99% são públicas) e os diretores são informados sobre o desempenho delas.

Os piores alunos não são deixados para trás. Dois em cada dez estudantes recebem aulas de reforço. Por causa disso, os índices de repetência são baixos. Na pesquisa feita pela Organização dos Estados Ibero-Americanos e a Fundação SM, o professor Jouni Välijärvi, do Instituto Finlândes de Pesquisa da Universidade de Jyväskylä, comenta que dentro das universidades existe uma escola de treinamento em que os alunos têm desde o início do curso a experiência de trabalhar dentro de uma sala de aula.

Entretanto, ele ressalta que essa experiência tem uma duração muito curta para que o educador tenha uma noção completa da profissão. Por isso, Välijärvi explica que o país está aprimorando a formação dos professores por meio de um sistema de estudo e discussão dentro das escolas. “Atualmente, estamos desenvolvendo um sistema em que os professores mais velhos ajudam os mais novos quando chegam à escola. Eles discutem, sobretudo, sobre o que os mais jovens necessitam e estão sempre disponíveis, apoiando os recém-chegados e dividindo a sua experiência", conta.

Lista dos países pela média de pontuação do Pisa

A análise dos resultados do Programa Internacional de Avaliação de Alunos (Pisa), levando em conta uma margem de erro de 5%, revela que um grupo de 12 países forma a elite do ensino mundial, com pontuação que vai de 507 a 546:

Finlândia
Canadá
Nova Zelândia
Austrália
Irlanda
Coréia do Sul
Reino Unido
Japão
Suécia
Áustria
Bélgica
Islândia

Cinco nações, com resultados estatisticamente equivalentes à média geral dos países da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), que corresponde a 500, estão em um segundo grupo de desempenho. Nesse grupo a média vai de 494 a 505:

Noruega
França
Estados Unidos
Dinamarca
Suíça

Em um terceiro grupo estão 14 países com resultados que vão de 396 a 493, abaixo da média da OCDE. O Brasil é o último colocado:

Espanha
República Checa
Itália
Alemanha
Liechtenstein
Hungria
Polônia
Grécia
Portugal
Rússia
Letônia
Luxemburgo
México
Brasil

 


(Envolverde/Nota 10)
 
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