30/11/2007

Pesquisa em educação busca parâmetros éticos

Por Cássia Gisele Ribeiro, do Aprendiz

"90% das pesquisas na área de educação são realizadas diretamente com seres humanos, e, na maioria das vezes, com crianças. É muito importante pensarmos se a aproximação, as invasões aos sentimentos e representações desses sujeitos se justificam". O alerta é da docente da Faculdade de Educação da Universidade de São Paulo (FEUSP) Flávia Inês Schilling, que participou da mesa redonda A ética na pesquisa em educação realizada na 5ª Semana de Educação da FEUSP, em São Paulo (SP).

"O período atual pode ser considerado um marco na pesquisa em humanas, pois estamos começando a pensar nesse assunto de forma mais estruturada", disse a docente, que está desenvolvendo junto à universidade uma série de parâmetros sobre o tema, baseados nos já existentes para as pesquisas nas áreas biológicas e de saúde. Segundo a professora, o primeiro princípio a ser seguido é o de que a aproximação aos grupos deve ser feita de forma que não se provoque qualquer tipo de dano.

"A escola é um palco onde o cuidado deve ser ainda maior. Normalmente pedimos autorização à diretora e utilizamos o espaço como se fosse uma feira livre, e não é assim que deve ser", disse. "As crianças precisam saber o que estamos fazendo e o sigilo precisa ser mantido. Dependendo do tema, não seria melhor entrevistar um adulto sobre sua infância, utilizando o recurso da memória?", sugeriu.

A pesquisadora exemplificou essa ação falando sobre uma pesquisa que orientou. A estudante, primeiramente, realizou entrevistas com crianças filhas de detentos. "As entrevistas geraram muito choro e dor por parte das crianças, e não havia motivo para que essa situação continuasse", disse.

A necessidade de dar uma devolutiva aos entrevistados também foi abordada na discussão. "Se você fizer uma pesquisa que não possa devolver aos entrevistados, é porque ela esbarra em uma questão ética", disse Schilling.

Para a professora do Instituto de Psicologia da USP Isabel Leme, que também participou do evento, a maior atribuição do pesquisador deve ser o respeito à liberdade e dignidade dos participantes da pesquisa. "Os riscos oferecidos em nossa área são pouco palpáveis, mas os danos são previsíveis", disse. "E alguns princípios para evitar este tipo de dano são básicos, como o sigilo absoluto das informações, mas nem sempre são cumpridos", recomendou.

Na área de psicologia, Leme afirmou que é muito difícil traçar regras claras para a realização da análise. "Por exemplo, existe um dilema constante entre direito e sigilo. Ao entrevistar alguém que cometeu abuso sexual de crianças, por exemplo, é ético manter o sigilo?", questionou.

Com relação à escola, a pesquisadora é muito clara. "Nesses ambientes, um termo de compromisso formal pode acabar confundindo o pai com relação aos riscos que a criança sofre. Se for necessário ele deve ser utilizado, mas o mais importante é que se tenha a permissão da criança", disse.

Além disso, Leme lembrou ainda a importância de não se deixar modificar os dados. Para a docente da FEUSP Belmira Bueno, se na área da saúde um profissional cometer um erro e alterar um resultado, ele terá vítimas e será punido. Já na educação isso não acontece, então existe a sensação de que tudo é permitido.

"Partimos do princípio que a simples opção pela área de educação nos tornaria ungido de alma ética, e isso não é verdade", disse Bueno. É uma questão que precisa ser pensada, debatida e respeitada, não só porque hoje todas as pesquisas passam por uma comissão de ética, mas porque só assim esta terá validade.
(Envolverde/Aprendiz)


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