06/09/2008

Pesquisa defende a utilização do gerúndio

Por Paula King, do Aprendiz

A disseminação recente do uso do gerúndio no Brasil é resultado das variações que a língua sofre no processo histórico. Sua utilização, equivalente ao futuro, é gramaticalmente correta. Parte das criticas sofridas pelas pessoas que utilizam a forma é oriunda de preconceito lingüístico.

As conclusões são do mestrado da lingüista Patrícia Tavares de Almeida Santos, defendido na Universidade de Brasília (UnB). Ela buscou desmistificar algumas posições levantadas que combatem o uso da forma "vou estar fazendo".

Um dos argumentos questionados por Patrícia é o que responsabiliza o setor de telemarketing pela disseminação da forma verbal. Segundo a lingüista, o próprio poder de influência do setor é reduzido, desprovido de status social. "Se as pessoas abominam o modo de falar dos atendentes, vão repetir algo que não gostam?", pergunta.

A pesquisadora diz que a utilização do gerúndio foi associado ao telemarketing diante das características negativas do setor. A nova construção, de tom bastante perceptível, foi estigmatizada como uma fala de um grupo profissional que, a rigor, não tem formação superior e é mal remunerado.

Hoje, segundo a lingüista, é possível notar nas empresas de telemarketing uma tentativa de coibir a utilização do gerúndio, buscando driblar a pouca receptividade dos clientes diante do estigma negativo da forma. Assim, a preocupação das empresas não tem nada a ver com o "bom português" e, sim, com o sucesso comercial.

O estudou também buscou desmistificar a suposta crença de que a forma verbal seria fruto da disseminação de documentos traduzidos da língua inglesa. "Até que ponto tantos brasileiros têm contato com a língua inglesa para fazer uma modificação dessas?", questiona.

Para aceitar tal argumento, é necessário acreditar que basta ouvir a forma para começar a reproduzi-la de maneira seriada. Segundo a pesquisadora, a forma é antiga na língua portuguesa. "Não existe motivo para considerar que falta uma estrutura no português e que teríamos de copiá-la de outro idioma", afirma.

Erro gramatical?

"O falante que reprova o gerundismo dá a prova mais contundente de que essa é sim uma forma alternativa de indicar o futuro quando diz: ‘Você não precisa dizer eu vou estar enviando seu cartão. Basta você dizer eu vou enviar seu cartão’.Quando faz isso, esse falante coloca senão um sinal de igual, pelo menos de equivalente entre as duas formas".

O texto, presente na conclusão do trabalho de Patrícia, busca indicar que as transformações não são erros. A explicação para a nova utilização parte da dinâmica da língua e de seu processo histórico, mesma razão pela qual os brasileiros hoje não falam nem escrevem como há cem anos. "Quando olhamos para a história do português, vemos que é natural a mudança da língua", afirma.

Além disso, segundo a dissertação, não há como sustentar que o gerundismo é um erro por transformar em durativa uma situação pontual ou indicar repetição onde ela não poderia ocorrer. "Não é isso que o falante intenciona e nem é isso o que o interlocutor entende", coloca no trabalho

Segundo Patrícia, trata-se de uma ampliação dos usos do gerúndio no lugar do infinitivo. No Brasil, sempre se usou ‘estou falando’ como uma alternativa da estrutura de Portugal ‘estou a falar’. "O gerundismo sempre existiu, mas agora está sendo mais percebido", explica.
Questão social

Segundo a lingüista, o formato é empregado geralmente na fala em situações de média formalidade. Por exemplo, em reuniões de trabalho, situações de compra e venda de produtos e serviços. A pesquisa não identificou o uso da combinação entre pessoas com menos escolaridade. Ao contrário, o gerúndio foi encontrado em todas as classes sociais e entre falantes com alto grau de escolarização, às vezes, sem a pessoa se dar conta.

Também não houve comprovação, nos casos analisados, de que o formato significa que o interlocutor deixará de cumprir com seu dever. "Certa vez liguei para uma editora e quem atendeu ‘ia estar verificando’ se o livro estava disponível. Na mesma hora, a pessoa fez a consulta e me respondeu", conta a pedagoga. O caso se transformou no título da dissertação.

Por fim, Patrícia levantou a questão do preconceito lingüístico inserida em um contexto de falha do processo educativo brasileiro, que concentra o acesso á norma de prestígio.

Para ter acesso ao estudo completo, clique aqui.

Outros lados

Para a Associação Brasileira de Telesserviços (ABT), a explicação para o surgimento do chamado gerundismo vem desde a década de 1990, quando as empresas de telecomunicação foram privatizadas, gerando um "boom" no mercado que resultou na contratação de centenas de novos operadores.

"Os scripts (ou roteiro), que foram distribuídos naquela época para treinar esses operadores, vieram com essas traduções diretas do inglês", explica Carlos Umberto Allegretti, diretor executivo da ABT.

Segundo a associação, em dezembro do ano passado, os operadores de telemarketing receberam orientação para evitar gerundismos em virtude da má fama que "assombra" a categoria. "Para evitar a ambigüidade na comunicação com o cliente e proporcionar uma relação mais agradável", esclarece Allegretti.

Entretanto, o lingüista e doutor em Língua Portuguesa pela Universidade de São Paulo (USP), José da Silva Simões, não concorda com tal atitude. Para ele, o controle de como falar com o cliente "é um absurdo do ponto de vista lingüístico.

Simões explica que durante muito tempo, principalmente nas escolas, foi controlada a estrutura do verbo auxiliar ‘ir’. Dizia-se que a forma correta era usá-lo no futuro simples, como na frase ‘eu vou mandar’. "Mas aqueles que trabalham como operadores de telemarketing não estão acostumados a ouvir essa forma verbal".

Simões acredita que paira uma nuvem de preconceito sob os operadores de telemarketing. Para ele, as línguas se desenvolvem conforme a evolução das sociedades "e aqueles que adquirem uma linguagem mais culta se julga no direito de controlar a produção lingüística das outras camadas", esclarece.

Segundo o lingüista, a maneira que esses profissionais utilizam o gerúndio está correta morfologicamente e sintaticamente. "Existem várias possibilidades de usar essa forma verbal", finaliza.


(Envolverde/Aprendiz)


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