14/10/2008

Para brincar não é preciso uma estante cheia de brinquedos

Por Talita Mochiute, do Aprendiz

Recortar latas de óleo, pacotes de arroz e potes de iogurte de encartes publicitários de supermercados é uma das brincadeiras de Nathan Loteiro Ferreira, 9 anos. Após cortar cuidadosamente as figuras, ele reúne papéis coloridos para criar cédulas e moedas. Tudo pronto, a sala de casa transforma-se em mercado. Os colegas, Gustavo, 5, Júlia, 4, e Felipe, 7, recebem o dinheiro para compras e Nathan começa atender os fregueses. No final do expediente, desmonta a venda e guarda os produtos em um vidro de maionese.

A mãe de Nathan, Gislaine Loteiro, 41 anos, dona-de-casa, também costuma participar da "brincadeira da vendinha", inventada pelo filho. Ela faz a lista de compras e diz o quanto ele pode gastar. "Muitas vezes, eu estou ocupada com as tarefas de casa e faço o pedido da cozinha".

Para a pedagoga e autora do livro O Brincar no Cotidiano da Criança, Adriana Friedmann, é saudável e importante para o desenvolvimento da criança esse tempo para brincadeiras livres. Os adultos, pais e professores podem estimular o brincar, oferecendo os materiais e participando das atividades. "Menos é mais: salas e estantes lotadas de brinquedos não garantem a brincadeira", ressalta.

Brincando, a criança se desenvolve nos aspectos emocionais, físicos, motores, cognitivos e sociais, descobrindo o mundo à sua volta, os outros, além de suas dificuldades e habilidades. "Os pais e educadores precisam se envolver na estimulação do brincar, lembrando e partilhando suas brincadeiras de infância. Mas as crianças também criam sua própria cultura lúdica e os adultos precisam dar espaço para que isto aconteça", explica Adriana que coordena a Aliança pela Infância, movimento pela realização de metas que propiciem o desenvolvimento dos pequenos.

A estudante universitária Ane Gomes Moreira, 21 anos, mãe de Letícia, 1 ano e 11 meses, lembra da sua infância no "dia do banho da Meg". Mãe e filha se divertem juntas na hora de ensaboar, enxugar e secar a cachorrinha. "Tenho a Meg desde os 12 anos, de certa forma ela faz parte da minha infância".

Gislaine e Nathan também inventam brincadeiras com o cachorro da família. "Gostei do dia em que minha mãe fez uma bolinha de sacolas e ficamos jogando com a Rihana", lembra Nathan. Outra diversão dos dois é jogar ludo. Com o jogo, a mãe percebeu que o filho tem dificuldade para lidar com a derrota. "Começamos a trabalhar isso", conta Gislaine.

Já Ane percebeu como a música ajuda a filha a ampliar o vocabulário. A mãe sempre coloca música para cantarem e dançarem juntas. "A Letícia costuma lembrar algumas palavras das canções".

Segundo a pedagoga Adriana Friedmann, a brincadeira constitui uma linguagem por meio da qual a criança se expressa desde o seu nascimento. Ao brincar, a criança descobre as palavras, o som, os gestos e incorpora tudo ao seu cotidiano.

As duas mães fazem parte de uma parcela minoritária de pais que brincam com os filhos com freqüência. O estudo A descoberta do Brincar - mapeamento das percepções de pais e crianças sobre o assunto -, divulgado em agosto de 2007, revelou que apenas 53% dos pais brincam com os filhos diariamente.

As amigas, Rebeca Cristina Quevedo Boarin, 9 anos, Hellen Horrana, 8, e Maria Eduarda Ferreira, 8, dizem que os pais participam das brincadeiras apenas no final de semana. "Minha mãe poderia dar mais atenção para mim", reclama Hellen. Enquanto isso, Maria Eduarda reclama da falta de um irmão para brincar.

De acordo com a pedagoga Adriana Friedmann, a ausência dos pais tem criado inúmeras carências emocionais e, muitas vezes, eles preenchem essa falta com brinquedos. "Isso só serve para mitigar a culpa", conclui.

Quando os pais são muito ocupados, é preciso encontrar alternativas para participar da vida da criança. Na família Moreira, os pais preferem deixar Letícia acordada até mais tarde para que Luiz Fernando Moreira possa ver e brincar com a filha. "Prefiro que ela durma depois das 23h para não perder esse momento com o pai. Os dois adoram assistir desenhos juntos", conta Ane.

"Assistir televisão" foi a primeira brincadeira apontada pelas crianças na pesquisa A descoberta do Brincar, com 97% de incidência. As brincadeiras "cantar e ouvir música" e "desenhar" aparecem em seguida, com 81%. O grupo de brincadeiras ao ar livre, como andar de bicicleta, ficou no quarto lugar, com 79% de prática entre as crianças.

O estudo mostrou ainda que 79% das mães acreditam que o aprendizado por meio de brincadeiras teve sua importância esquecida. Essa porcentagem pode levar a percepção de que o brincar perdeu espaço na cultura contemporânea.

Na visão de Adriana Friedmann, o brincar vem se transformando. "Nós, adultos, não conseguimos aceitar, compreender e incorporar essas mudanças. Ficamos no saudosismo. Emitimos um juízo de valor condenando as brincadeiras da criança de hoje". Para a especialista, jogar videogame, por exemplo, é uma brincadeira, sim. "É um grande faz de conta do universo da infância atual", define a pedagoga, lembrando do papel dos pais na orientação do tempo e do conteúdo adequados para a idade da criança.


(Envolverde/Aprendiz)


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