10/11/2005

Para além da literatura obrigatória

Por Renato Marques

Professores dão dicas de como encarar as temidas "listas de livros" dos vestibulares. O que vale é exercitar a visão crítica

Encarar as listas de livros obrigatórios pode ser um pesadelo para os vestibulandos. Relações com cinco, seis e até dez (!) obras, para muitos, representam o fim definitivo dos poucos momentos de lazer. Se você é um desses, tentar aliviar a pressão sobre essa parte dos estudos é a saída. Não só para tornar esta necessidade mais prazerosa, mas também - e, principalmente - fazer com que sua leitura se torne mais eficiente.

"O primeiro passo para um bom resultado é a capacidade de se deixar seduzir pelo livro. É importante que o estudante se envolva naquele momento. A partir dessa relação com a obra, ele vai, naturalmente, fazer análises, tirar conclusões", afirma o professor do Anglo Vestibulares, Marcilio Lopes Couto. "A leitura tem que conquistar o leitor. Mas não é fácil. Se ele não está disposto, não vai se deixar levar."

Se você é pré-vestibulando, provavelmente está avaliando expressões como "fazer análises" ou "tirar conclusões", ditas pelo professor Couto. Pois saiba que, na maioria dos vestibulares atuais, o que conta não é apenas decorar os nomes dos personagens, as características de determinados períodos literários e coisas afins. Hoje, grande parte das instituições cobra dos alunos uma visão crítica dos textos, com profunda análise da compreensão do aluno.

Em especial nos grandes vestibulares, não há como fugir disso. "Atualmente, as provas cobram muito mais a análise do texto do que informações sobre as escolas literárias. A interpretação do texto é o que mais cai nos exames", alerta a professora de literatura do Cursinho da Poli, Cristiane Bastos Ferreiro. "Não basta ficar decorando os tópicos de `características´ que identificam os períodos. Isso é besteira. O estudante tem que sacar o contexto histórico, o que está acontecendo na época em que o autor está escrevendo."

Assim, retornamos à questão do envolvimento com a leitura. Naturalmente, existem alguns quesitos técnicos devem ser levados em conta. Sempre é importante prestar atenção à postura do narrador, sua linguagem; observar as personagens e a maneira como evoluem; identificar e compreender a linguagem utilizada pelo autor; relacionar tempo e espaço no contexto da obra. Note que, mesmo nesses quesitos, não entram indicações como "decore os nomes dos personagens", "cite outras obras do autor".

Precisando analisar detalhadamente a obra, indo além de uma simples leitura, não hesite em fazer pesquisas complementares. Nestas, procure compreender a linguagem utilizada e também o porque o autor a escolheu. O mesmo vale para a temática. Em todos esses pontos, CONTEXTUALIZAÇÃO é a palavra mágica. Lembre-se: cada livro reflete, profundamente, a sociedade em que está inserido. Acredite, essa não é uma observação relevante.

"Hoje, uma mulher dizer ao pai que não quer casar é algo normal. No século XIX, no entanto, se uma personagem dissesse que não quer casar com o noivo que o pai escolheu, o autor já tinha uma história nas mãos", exemplifica Couto. "O conhecimento da história da literatura auxilia o aluno a compreender a própria obra. Se o estudante quiser enxergar um livro do século XIX com os olhos de hoje, não vai compreender o enredo. É preciso mergulhar na história."

Dificuldades

Esta leitura mais detalhada, no entanto, pode trazer dificuldades para os estudantes. De acordo com os professores consultados pelo Universia, a adaptação à linguagem é o mais difícil. Em especial para livros mais antigos. "Acredito que a obra mais complexa de todas é Sagarana, de João Guimarães Rosa. É um caso em que o que pesa mais é a linguagem da obra, o estilo do autor. Muitas vezes o aluno não conhece a linguagem coloquial mineira", comenta Cristiane. "E o nível de análise do Guimarães é complexo. Até mesmo a crítica literária ainda não alcançou completamente a obra dele. Para o aluno, então, fica muito complicado."

No caso de livros mais recentes, no entanto, a preocupação é outra. Com as seguidas inovações de estilo, o mais difícil é fazer a ligação entre todas as pontas da história. De acordo com o professor Couto, os textos mais contemporâneos não seguem uma estrutura tão linear quanto os autores mais antigos, com início, meio e fim bem definidos.

"A dificuldade aí não é mais a linguagem. A partir dos anos 50, a narrativa literária foi se tornando mais fragmentada. Então, algumas vezes, o aluno não consegue unir as pontas do enredo e perceber o que está acontecendo naquela obra", explica. "O leitor tem que entender que há um estilo adequado para se contar algo. Dentro disso, precisa perceber porque o autor escolheu determinada linguagem, ou forma, para dizer alguma coisa."

Se "dar uma lida rápida" já era um trabalho razoável, ler os livros obrigatórios analiticamente pode assustar - de vez - o vestibulando. No entanto, para o professor Couto, esse é um benefício que vai se estender por toda a vida do aluno. E não só para a vida acadêmica. "Se o aluno consegue ter uma boa percepção na leitura e estabelece uma relação entre os diversos fatores, ele se torna um leitor eficiente. E não só para o vestibular, mas também para a vida", explica.

Serviço

Se você está se preparando para o vestibular, o Universia disponibiliza obras exigidas no vestibular para download gratuito. Mas antes, uma dica. Se você está procurando ajuda com os livros, nada é mais importante do que ler o texto na íntegra. "É fundamental a leitura das obras. Resumos, análises, filmes e peças de teatro são excelentes complementos, mas não substituem, de maneira alguma, as obras completas", conclui Couto.

Abaixo, o Universia disponibiliza uma seleção de 20 obras exigidas em alguns dos maiores vestibulares do país:

Carta a El Rei D. Manuel / Autor: Pero Vaz de Caminha
A cidade e as serras / Autor: Eça de Queirós
A escrava Isaura / Autor: Bernardo Guimarães
A farsa ou auto de Inês Pereira / Autor: Gil Vicente
Auto da barca do inferno / Autor: Gil Vicente
Dom Casmurro / Autor: Machado de Assis
Espumas flutuantes / Autor: Castro Alves
Iracema / Autor: José de Alencar
Memorial de Aires / Autor: Machado de Assis
Memórias de um sargento de milícias / Autor: Manuel Antônio de Almeida
Memórias póstumas de Brás Cubas / Autor: Machado de Assis
O cortiço / Autor: Aluísio Azevedo
O crime do Padre Amaro / Autor: Eça de Queirós
O guarani / Autor: José de Alencar
Os Lusíadas / Autor: Luís de Camões
Os Sertões / Autor: Euclides da Cunha
Poemas completos de Alberto Caeiro / Autor: Fernando Pessoa
Recordações do escrivão Isaías Caminha / Autor: Lima Barreto
Senhora / Autor: José de Alencar
Triste fim de Policarpo Quaresma / Autor: Lima Barreto

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