Os jovens e as más perspectivas do mercado de trabalho
Por Paulo Nathanael Pereira de Souza*
Estágio supre a falta de experiência profissional que prejudica a inclusão profissional dos jovens estudantes.
É sempre interessante atentar para indicadores que, embora divulgados pela imprensa, não provocam o impacto e nem a reflexão que mereceriam. Na pauta jornalística recente, há dois casos exemplares para dimensionar a vulnerabilidade que ameaça os jovens brasileiros. Um é o relatório divulgado pela Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), apontando grave distorção nos gastos com educação ao registrar que o Brasil investe 127% do produto interno bruto per capita em cada estudante universitário, enquanto destina apenas 18% ao aluno do ensino fundamental - ou seja, uma diferença de 13 mil reais para 1,9 mil reais. O estudo constata que o Brasil é o campeão em investimento nos universitários, superando países como Japão, Estados Unidos e Coréia do Sul, entre outros. Mas, quando se trata do nível fundamental, cai para a penúltima posição, à frente somente da Turquia e atrás das outras 30 nações analisadas. Em outros números, tal distorção afeta 33 milhões de alunos matriculados no ensino fundamental, 9 milhões no ensino médio e 4 milhões no nível superior.
Aqui, salta aos olhos o funil em que se transformou a rede nacional de ensino, com apenas 12% dos alunos do nível fundamental conseguindo chegar à universidade e, assim mesmo, mal preparados. Como resultado, a universidade despeja no mercado de trabalho profissionais insuficientemente capacitados para a realidade da nova economia - aqui incluídos os futuros professores que certamente educarão mal seus futuros alunos, numa perversa espiral, a qual, se nada for feito com urgência, condenará o Brasil a permanecer nos últimos lugares do ranking de qualificação de recursos humanos. E o preço disso todos sabemos qual é: a manutenção das pífias taxas de desenvolvimento social e econômico que a sociedade vem amargando há quase três décadas, na contramão dos países emergentes que apostaram na educação e se beneficiaram dos bons ventos internacionais para turbinar seus índices de crescimento, de emprego e de qualidade de vida.
Enquanto isso, o que espera as nossas novas gerações? O Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (Dieese) acaba de divulgar a Pesquisa de Emprego e Desemprego 2005 (PED), dando conta de que 45,5% dos desempregados estão na faixa dos 16 aos 24 anos. Com isso, sinaliza para a existência de uma verdadeira bomba-relógio nas cinco regiões metropolitanas investigadas (São Paulo, Porto Alegre, Belo Horizonte, Recife e Salvador), além do Distrito Federal. Essas seis áreas registram um total de 3,1 milhão de desempregados, dos quais 1,5 milhão são jovens desocupados e vítimas de um forte obstáculo na busca de um lugar ao sol: a falta de experiência profissional. Já os 3,2 milhões dos jovens que tiveram a sorte de conseguir uma colocação, contentam-se com rendimento médio de 1 a 2 salários mínimos e, num percentual entre 60 e 70%, não conseguem conciliar estudo e inserção profissional, abandonando a escola - situação que, evidentemente, se agrava à medida que cai a renda familiar.
Levando em conta que a maior parcela de jovens ocupados possui ensino médio completo, numa escala que vai de 37% em Porto Alegre a 48% em São Paulo, a pesquisa não poderia terminar senão com um alerta: a urgência da adoção de políticas públicas que promovam melhor distribuição de renda e busquem o desejável equilíbrio entre a formação escolar e profissional e a inserção do jovem no mercado de trabalho.
É essa a função do estágio, que foi introduzido no Brasil há 42 anos por educadores e empresários exatamente para complementar a formação acadêmica com a prática em ambiente de trabalho. Trata-se de um trajetória bem sucedida, pois permitiu ao Centro de Integração Empresa-Escola (CIEE) encaminhar mais de 6 milhões de estudantes para estágio e, graças à parceria de 140 mil empresas e órgãos públicos, ostentar a marca de 64% de jovens contratados pós-estágio, com carteira assinada. E, o que é mais positivo, boa parte deles credita à bolsa-auxílio, que remunera 100% dos estágios administrados pelo CIEE com valor médio acima de 2 salários mínimos, as condições para custear seus estudos e, assim, manter-se na escola até a conclusão do curso escolhido.
*Paulo Nathanael Pereira de Souza é educador e presidente do Conselho de Administração do Centro de Integração Empresa-Escola - CIEE