Onde dar aula no Ensino Superior?
Por Lilian Burgardt
Docentes expõem diferenças entre lecionar no sistema público e privado.
Desde a Educação Básica até o Ensino Superior, não é novidade dizer que as disparidades entre lecionar no sistema público e privado são contundentes. Ainda nos primeiros níveis de Ensino, na escola pública, é marcante a falta de infra-estrutura e da defasagem educacional. As escolas particulares, por sua vez, oferecem melhores salários e condições de trabalho. No Ensino Superior, embora as instituições públicas sempre tenham sido a preferência, não só de vestibulandos, mas dos profissionais, por conta do status conferido àqueles que fazem parte de um "grande time", as privadas começam a ganhar espaço e já fica difícil dizer onde é melhor construir sua carreira profissional.
Quem entende do assunto defende que, em primeiro lugar, antes de optar por lecionar em uma instituição de Ensino pública ou privada é preciso ter em mente o que o professor quer de sua carreira. Aí, uma das primeiras perguntas que o jovem professor deve se fazer é: meu principal objetivo é lecionar, ou quero casar a docência com a pesquisa? Isto porque a infra-estrutura para desenvolver pesquisas ainda é um divisor de águas dentro de uma instituição. Se a sua opção é pela pesquisa, vale lembrar que há mais campo nas universidades públicas do que nas privadas, embora algumas destas também venham investindo pesado nesta área.
"Eu optei pela pública"
O professor e diretor associado do Centro de Pesquisas Meteorológicas Aplicadas à Agricultura da Unicamp (Universidade Estadual de Campinas), Hilton Silveira Pinto, ressalta que optou por fazer carreira dentro da instituição especialmente pela infra-estrutura laboratorial e de pesquisa que a universidade oferece. Ele, que já havia lecionado em uma instituição de Ensino Superior privada, lembra que como tinha por objetivo, além da docência, investir em pesquisa precisava se desdobrar para manter seus trabalhos em um grande laboratório e, ainda, dar aula para conseguir se sustentar. A jornada dupla, além de cansativa, comprometia seu rendimento. Sendo assim, não pensou duas vezes em optar pelo Ensino público. "A universidade pública confere maior tranqüilidade para aqueles que pretendem se dedicar a um projeto de pesquisa, além da sala de aula. Além disso, facilita muito a vida do pesquisador na hora de disputar um financiamento, graças ao status que confere aos profissionais envolvidos e à própria pesquisa em questão", ressalta.
O atual coordenador da pós-graduação da UFSCar (Universidade Federal de São Carlos), Almir Sales, ressalta a liberdade para administrar seu tempo entre docência e pesquisa científica como uma das maiores vantagens que as universidades públicas garantem a seus professores. Ele afirma que o setor público, em especial as instituições federais, não só incentiva como também reconhece os professores que investem em sua especialização e em pesquisa científica. "A vantagem é que as instituições públicas permitem que o professor coordene seu tempo de acordo com as suas necessidades, dividindo-se entre a docência e a pesquisa. Isso estimula os docentes a investir em qualificação. Tanto é que, na UFSCar, 90% dos professores são doutores", diz.
Em sua opinião, este não é só um benefício para o professor, mas também para a instituição que conta com um corpo docente mais bem preparado e, especialmente, para os alunos, que terão um aprendizado muito mais significativo. "Eu, que tive meu primeiro contato com a pesquisa ainda na Iniciação Científica, após meu doutorado, passei a orientar alunos da Iniciação. A partir daí, também comecei a orientar alunos de mestrado. É um aprendizado constante para mim e para os alunos, que contarão com o apoio de docentes cada vez mais qualificados", diz.
O professor titular e, também, ouvidor da Unesp (Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho), José Ribeiro Junior, aponta outras duas grandes vantagens que acredita que o setor público confere a seus docentes: a tão famosa estabilidade e a aposentadoria. "O professor concursado não é facilmente dispensado como acontece em uma instituição particular. Tem garantia de aposentadoria e, com o passar dos anos, recebe bonificações complementares proporcionais ao tempo de serviço", compara.
Além disso, Ribeiro Junior aponta o regime de contratação em dedicação integral como mais um ponto favorável das universidades públicas. "Na universidade particular, o professor tem que cumprir várias horas-aula para garantir um bom salário. Em boa parte dos casos, lecionando em mais de uma instituição. Isso compromete não só a sua qualidade de vida, como também, a qualidade das aulas", afirma.
Aliás, é justamente o perfil dos alunos outra questão apontada como diferencial entre o Ensino público e particular. "Claro que, há exceções, mas geralmente o que se vê é que nas instituições públicas há um maior comprometimento dos estudantes do que nas universidades particulares", pondera Silveira Pinto. Ribeiro Junior, da Unesp, afirma que esta consideração tem um "quê" de verdade, porém, defende que há instituições privadas de destaque - inclusive pela qualidade de seu corpo discente. "Creio que ainda há uma diferença entre o perfil dos alunos de ambos os sistemas de Ensino. De qualquer forma, não faço uma distinção. Certamente existem alunos do Ensino privado que são brilhantes, com a única diferença de que têm a necessidade de trabalhar", reforça. (Saiba mais sobre o perfil dos alunos das universidades públicas e privadas lendo a matéria Que universidade é mais a sua cara? no link acima e à direita).
"Eu optei pela particular"
Se por um lado, status, estabilidade, infra-estrutura de pesquisa e, ainda, uma certa predileção pelos alunos das instituições públicas, são fatores que convencem muitos docentes a migrar para o Ensino Superior público, ou ainda, fazê-los a não quererem abandoná-lo tão cedo, é preciso reconhecer que a disputa tem se acirrado. Fatores como maiores salários, plano de carreira bem definido, flexibilidade nas grades curriculares, mais recursos e novas tecnologias também fazem das instituições privadas um mercado convidativo para muitos mestres e doutores.
É o que defende o pró-reitor acadêmico da Unisinos (Universidade do Vale do Rio dos Sinos), Pedro Gilberto Gomes. Em sua opinião, as instituições privadas têm crescido e se organizado cada vez mais. Logo, mesmo a pesquisa, que sempre foi uma vantagem para as públicas e um revés para as particulares, começa a despontar nestas instituições e apresentar trabalhos de qualidade para a comunidade científica. "Há diversas instituições privadas que vêm investindo alto, não só em pesquisa aplicada e tecnologia, mas também em recursos humanos para o setor. É claro que nem sempre é possível ter pólos de pesquisa em todas as áreas do conhecimento, sendo necessário priorizar algumas delas. É o que acontece em muitas instituições confessionais de reconhecida excelência", friza.
"Melhores salários também são vantagens das universidades particulares", acrescenta Gomes. Especialmente neste momento em que o Ensino Superior público sofre com o achatamento das federais e com a demora na liberação de recursos. "A vantagem das particulares é que elas conseguem pagar melhores salários, além de oferecer benefícios para o professor, como plano de saúde e outros." Vale lembrar que, atualmente, as Ifes (Instituições Federais de Ensino Superior) vivem uma crise no que diz respeito aos planos de carreira, ainda maior do que nas estaduais paulistas como USP (Universidade de São Paulo), Unesp e Unicamp, onde, após o doutorado, o professor entra na categoria livre-docência.
Nas federais, não há como os professores serem beneficiados após chegar ao topo da carreira. Contudo, há uma esperança de que com a medida provisória aprovada no último dia 29 de maio, criando o novo cargo de professor associado para as Ifes e, também, com o plano de expansão das federais, melhorem as condições dos planos de carreira para tais docentes.
Para o coordenador da graduação em Administração do Ibmec São Paulo, Sérgio Lazzarini, que fez sua carreira toda no Ensino Superior privado, além dos melhores salários, as instituições privadas também ganham pontos, pois permitem que o professor tenha um plano de carreira bem definido, evoluindo hierarquicamente graças a seus méritos. "Ao passo que a instituição pública oferece estabilidade durante a carreira e a vantagem da aposentadoria, o Ensino privado abre portas para que o professor possa se desenvolver dentro da instituição, além de ter mais autonomia sobre os conteúdos de suas disciplinas", revela. Ao menos foram estes fatores, alinhados à infra-estrutura no setor de sua atuação, determinantes para que Lazzarini optasse por fazer carreira no Ensino Superior privado. "Estava buscando instituições que tivessem uma característica mais alinhada com as universidades internacionais de renome, ou seja, que investissem em pesquisa, mas que também oferecessem um plano de carreira de qualidade e uma boa remuneração" acrescenta.
Por fim, Lazzarini reforça que muito além de levar em consideração as vantagens e desvantagens que cada um dos setores têm a oferecer aos professores, vale a pena procurar saber mais sobre a gestão da instituição em que se pretende lecionar. Segundo ele, na prática, isso influenciará, e muito, no dia-a-dia em sala de aula, ao passo que uma boa ou má gestão pode ser responsável pelo sucesso ou pelo fracasso, tanto de uma universidade pública como privada. "A pergunta que o professor deve fazer é: estou começando minha carreira em uma instituição que tem uma gestão de qualidade? Reflexões como esta, certamente irão ajudar muito mais do procurar saber quais os benefícios que ambos os setores têm a oferecer", encerra.