10/05/2008

Obras reforçam estereótipo do negro

Discurso preconceituoso atravessa quatro séculos e tira do afro-descendente até o direito à fala

Os 120 anos de abolição da escravatura, que se completam no dia 13 de maio, ainda não foram suficientes para sensibilizar os escritores brasileiros a abordar os afro-descendentes de maneira respeitosa em suas obras. A constatação é do especialista Amauri Rodrigues da Silva, autor da tese de doutorado “Presença e silêncio da colônia à metrópole: sina-is do personagem negro na literatura brasileira”, apresentada no Instituto de Letras (IL) da Universidade de Brasília (UnB) em novembro de 2007.

Amauri Silva analisou publicações dos séculos 17 ao 21 e encontrou, em praticamente todas elas, uma visão estereotipada e desumanizada do negro. “Ele aparece com todas as marcas sociais que já conhecemos”, afirma. O estudo em profundidade dessas características foi realizado com sete obras: os Sermões da 14ª, da 20ª e da 27ª do Padre Antônio Vieira; O tronco do Ipê, de José de Alencar; Vítimas Algozes, de Joaquim Manoel de Macedo; Menino de Engenho e Fogo Morto, de José Lins do Rego.

Em meio aos traços evidentes de ofensas às características físicas e diferenças de capacidade intelectual ou moral, o estudo identificou, nas entrelinhas, um artifício que reforça esse pensamento. Os personagens negros simplesmente não possuem falas em primeira pessoa. “Não temos a voz, o sentimento e a palavra do negro”, diz.

Desta forma, todas as informações sobre os negros são oferecidas pelo narrador, que as molda conforme suas idéias e crenças. Assim, ficam seriamente comprometidos os pontos de vista que poderiam mostrar angústias e frustrações, sem contar o perfil mais amplo dos integrantes que participam da obra.

A falta desses diálogos, de acordo com Amauri, é parte de um mecanismo ideológico para manter o negro no patamar de invisibilidade. Mesmo nos poucos casos em que há conversas, possuem conotação negativa, como ocorre em Menino de Engenho. Em determinada altura, dois escravos discutem e ofendem um ao outro. “Para o universo dominante, a situação de humilhação é favorável à ideologia da discriminação, ou um respaldo, já que ‘nem eles se respeitam`”.

Protagonismo – Preconceito e silêncio se misturam ainda a paradoxos nos papéis representados pelos negros. Em muitos casos, a figura deles é fundamental para o desenrolar da história. Mesmo assim, permanecem marginalizados. “Apesar de serem fundamentais para o arcabouço das obras, eles gravitam em torno dos acontecimentos como se fossem secundários”, explica.

É o que ocorre no romance naturalista O Cortiço, de Aluízio de Azevedo, que, embora não esteja no grupo de livros analisados pelo professor, é representativo dessa visão. Bertoleza, uma ex-escrava, é peça-chave para a atuação de Romão, português a quem se une e que, pela exploração da esposa, compra um terreno e constrói um cortiço, que se torna cada vez mais rentável. “Ela não diz uma palavra no texto”, revela. À ex-escrava está reservado um futuro trágico. Ela se suicida na festa de entrega da comenda do marido.

Brasilianistas – O estudo também revela que as obras limitam sua riqueza quando repetem o discurso dos livros acadêmicos, ao invés de explorar os recursos da ficção. “O comportamento dos afrodescendentes é o mesmo nas obras e nos textos históricos. Não é comum que o discurso literário se mantenha circunscrito e silenciado dessa forma” diz.

Para chegar a essa conclusão, o conteúdo das obras foi comparado com três livros de cunho histórico e antropológico: Casa Grande & Senzala, de Gilberto Freyre, Raízes do Brasil, de Sérgio Buarque de Holanda, e Os africanos no Brasil, do antropólogo Nina Rodrigues. Na visão de Amauri Silva, os clássicos apresentam os mesmos vícios sobre a condição do negro, resultando numa história “mal contada”.

Essa característica pode ser percebida em Casa Grande & Senzala, que oferece uma visão distanciada dos negros. “O normal seria que a literatura levasse o leitor para dentro da senzala e mostrasse como ela funciona”. No entanto, ao optarem pelo caminho contrário, essas publicações tornam-se tão carentes quanto a referência em que se espelharam.

Propostas – Em meio a mais de 300 anos de produção, Amauri encontrou dois únicos livros com abordagem diferenciada, não por acaso, de autores negros. Um é Emparedado, do poeta simbolista Cruz e Souza, e a outra, Um defeito de cor, da escritora contemporânea Ana Maria Gonçalves. “Para o universo literário, isso é muito pouco. Não conheço outras além do que foi citado. Se existem, é como procurar agulha no palheiro”, diz.

Emparedado traça uma metáfora da discriminação dupla do negro naquela época. De um lado, pelos brancos em virtude da raça. De outro, dos afro-descendentes que sabiam ler e escrever, numa época em que a maior parte da população era iletrada. Já Um defeito de cor conta a saga de uma escrava que retorna ao Brasil em busca do filho, e recebeu, em 2007, o prêmio Casa de las Américas, escolhido por unanimidade entre 212 obras.

Desafios - Durante os quatro anos do doutorado, que deve ser transformado em livro, Amauri Silva foi questionado do motivo de analisar os personagens negros, uma vez que os livros seriam, teoricamente, fiéis à realidade. “Nem todos os escravos eram submissos, mas não existe esse contraponto na literatura. Sem mudanças, mantemos o status quo e consagramos uma visão de mundo difícil de romper” explica. Por exemplo, as obras se calam para conquistas como a presença do primeiro ministro negro no Supremo Tribunal Federal (STF), Joaquim Barbosa.
A polêmica sobre Machado
Entre os críticos, há os que acusam Machado de Assis de não defender a causa negra, mesmo sendo mulato. E há quem o defenda. Amauri Rodrigues da Silva se posiciona no segundo grupo. “Machado é vítima de acusações. Eu diria que ele toca sim, na questão no negro, mas com a sutileza dele”, afirma. Essa vertente pode ser conferida em uma frase que o professor considera emblemática. Em “Esaú e Jacó”, consta o trecho: “A abolição é a aurora da liberdade; esperemos o sol; emancipado o preto, resta emancipar o branco”.

Século 18 ‘esqueceu’ o negro
No auge do ciclo do ouro, a produção literária privilegiou a temática da Inconfidência Mineira e se deteve em assuntos como os índios guarani. “A presença do negro não é o forte desse século”, explica. O poema também dominou o cenário, no lugar da narrativa.

Crédito da imagem: Amilton Augusto/UnB Agência



(Envolverde/UnB Agência)

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