21/08/2008

Obra cinematográfica não deve ser comparada à obra literária

Por Vivian Lobato, do Aprendiz

O Guarani, Iracema, Vidas Secas, Macunaíma, Memórias Póstumas, A cartomante, O Cheiro do ralo, Nome próprio. São inúmeros os títulos de obras literárias brasileiras que foram adaptados para o cinema. Apesar do discurso cinematográfico derivar do discurso narrativo, os especialistas presentes na 20ª Bienal Internacional do Livro de São Paulo ressaltaram que o cinema e a literatura têm duas linguagens distintas, portanto são diferentes e não devem ser comparadas.

"É muito comum as pessoas reclamarem que a obra cinematográfica deixou a desejar do livro original", comentou Mariarosário Fabris, mestre em Artes pela Universidade de São Paulo (USP), que estava presente na mesa "Escrever para o cinema", na última segunda-feira (18).

Para Mariarosário, o que as pessoas não percebem é que cinema e literatura são artes diferentes, com visões e objetivos distintos e cada uma possui uma linguagem própria.

O dramaturgo Mario Bortolotto, por exemplo, tem causado polêmica com a estréia do longa "Nossa vida não cabe num Opala", de Reinaldo Pinheiro, por não ter gostado da adaptação de sua obra para o cinema.

A mestre em Artes pela USP comentou que uma obra cinematográfica é uma obra a parte, ela não tem a necessidade de ser tão fidedigna a obra literária, pois cada um tem sua interpretação, o seu olhar individual. "A partir do momento que você vende os direitos autorais o ‘novo’ autor pode fazer o recorte que desejar", lembrou.

Para Ivan Marques, doutor e professor de literatura brasileira da USP e diretor do programa Entrelinhas da TV Cultura, que estava presente na Bienal e discorreu sobre os "70 anos de Vidas Secas", de Graciliano Ramos, o cinema tem um discurso próprio do diretor, que pode, ou não, fazer um diálogo com a obra original.

Mariarosário explicou que o cinema recorre com freqüência a outras áreas. "Das artes, por exemplo, surge a fotografia, a iluminação, o enquadramento; da música, o ritmo; do teatro, a encenação; da literatura, a narrativa, o texto, o roteiro e a poética. Por isso, as pessoas cobram demais do roteiro derivado de obras literárias".

O que acontece atualmente é um trânsito pelas artes, o que confunde muitas vezes o espectador, pois muitos roteiristas também são escritores. A mestre em Artes da USP disse que essa troca é uma tendência. "O cinema atual dialoga muito com a literatura".

Lourenço Mutarelli é um bom exemplo. O escritor já teve sua obra adaptada para as telonas, com o Cheiro do Ralo e acabou de vender os direitos autorais de "Miguel e Os Demônios" para o cinema, obra literária de sua autoria ainda inacabada.

Boas adaptações

Ivan Marques citou como exemplo a obra de Nelson Pereira dos Santos, que, em 1963, fez uma adaptação de Vidas Secas para o cinema. "Assistir o filme Vidas Secas, sem dúvida, só acrescenta".

Marques explicou que o filme Vidas Secas, de Nelson Pereira dos Santos, usa artifícios próprios da linguagem cinematográfica que dialogam e transmitem muito bem a obra literária. "O filme é praticamente mudo, com poucos diálogos e sem trilha sonora. A luz é estourada para transmitir um efeito de semelhança da seca para o espectador. Na hora em que Baleia está morrendo, o diretor usa uma câmera subjetiva, como se fosse o olhar da cachorra, para ver o que ela estava pensando no momento de sua morte. Sem dúvida, o procedimento é diferente, uma adaptação magistral", disse.

Segundo o professor de literatura brasileira da USP, o filme de Nelson Pereira tem a cara do Brasil. "O cinema novo, que veio junto com Glauber Rocha e Ruy Guerra, conseguiu capturar a estética visceral do romance e articulou um movimento muito legal. São obras primas que podem ser vistas independentes da obra original".

Brás Cubas, de Júlio Bressane, foi outro filme mencionado por Marques. "O longa tem uma estética do cinema marginal. Uma visão de mundo muito particular, mas identificamos com fidelidade toda a transgressão da obra original. Já Memórias Póstumas, de André Klotzel, é como uma adaptação didática do livro. O filme se parece com aqueles resumos literários para o vestibulando que não tem tempo de ler a obra, o que, sem dúvida perde todo o seu teor crítico e literário".


(Envolverde/Aprendiz)


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