O Fim da Fábrica de Peões: A Educação como Ruptura da Espoliação Social
Por Wolmer Ricardo Tavares – Mestre em Educação e Sociedade, Escritor, Palestrante e Docente – www.wolmer.pro.br
Currículo Lattes http://lattes.cnpq.br/9745921265767806
Joseph Stiglitz, agraciado com o Prêmio Nobel de Economia em 2001, traz em sua trajetória uma reflexão de suma importância sobre a meritocracia. Segundo ele, 90% dos meninos nascidos em lares pobres morrem pobres, independentemente de suas capacidades; em contrapartida, mais de 90% dos nascidos em lares ricos morrem ricos, por mais "estúpidos" que sejam. Com essa análise, ele demonstra que, em sociedades desiguais, o mérito não é o fator determinante para o sucesso.
Para o cidadão nascido na periferia, fruto da exclusão social, restam muitas vezes apenas as "migalhas" para a subsistência. Esse cenário remete ao feudalismo, sistema no qual servos eram obrigados a trabalhar em terras alheias, entregando a maior parte da produção e retendo apenas o mínimo para sua própria subsistência, além de pagarem taxas pelo uso de ferramentas.
O descompasso ético atual é evidenciado por episódios recentes, como o vídeo de um empresário do agronegócio[1] lamentando que a "fábrica de peão" acabou. Para ele, o problema é que o filho do peão não deseja mais repetir o destino do pai, pois agora é instigado a estudar para prosperar. O empresário chega a reclamar da proibição do trabalho infantil, demonstrando uma visão que prioriza o lucro em detrimento da dignidade humana.
Felizmente, hoje, o filho do peão, do pedreiro e da trabalhadora doméstica busca a universidade. Pessoas com o perfil desse empresário parecem favorecer regimes análogos à escravidão para maximizar lucros — visão esta que encontra eco em parlamentares que barram avanços como a PEC do fim da escala 6x1[2]. Tais políticos propõem um retrocesso histórico à Primeira Revolução Industrial, época em que, como elucidam Netto e Tavares (2006) [3], as jornadas chegavam a 80 horas semanais em ambientes insalubres e sem equidade, com mulheres e crianças recebendo muito menos que os homens por serviços similares.
Nesse contexto, a sociedade precisa reconhecer a importância da educação pública de qualidade. Ela é a ferramenta que permite à criança, antes sem perspectiva, romper com o ciclo de exploração e buscar um ideal de dignidade.
O empresário que busca a mais-valia absoluta foca na exploração extensiva da mão de obra e na espoliação, como define Demo (2000) [4]. Contudo, a educação — enquanto ação voluntária que desenvolve o discernimento e a autonomia intelectual — retira o trabalhador desse quadro de exploração bruta e o posiciona na mais-valia relativa. Neste campo, o diferencial é o capital intelectual e a inteligência, onde se percebe que a redução da jornada de trabalho não implica prejuízo à produtividade.
Em suma, que a educação continue permitindo que os filhos da exclusão ocupem espaços de decisão e ascendam na pirâmide social. Que eles não se deixem enganar pela falácia da meritocracia, mas confiem em sua capacidade de planejamento e consciência de classe. Assim, mesmo que escolham profissões tradicionais, que o façam como cidadãos esclarecidos de seus valores, imunes à ganância de quem visa apenas o lucro acima da vida.
[1] https://www.youtube.com/watch?v=A4U2Lc0uXzM
[2] https://www.youtube.com/watch?v=wS6nyUvlrgY
https://www.youtube.com/watch?v=z86nY5Db4Ug
[3] NETTO, Alvim Antônio de Oliveira; TAVARES, Wolmer Ricardo. Introdução a Engenharia de Produção – Estrutura, Organização e Legislação. São Paulo: Visual Books, 2006.
[4] DEMO, Pedro. Saber Pensar. São Paulo: Cortez: Instituto Paulo Freire, 2000 – (Guia da Escola Cidadã; v. 6)