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"A greve dos professores estaduais vai paulatinamente recebendo maior adesão e, a partir da semana que vem, provavelmente, o governo não poderá mais ignorá-la, atitude do governador José Serra noticiada pela folhaonline no dia de ontem. Quem não parou, quase sempre não discorda do movimento, mas tem medo, uma vez que se espalha a idéia de que os efetivos em estágio probatório e os temporários categoria “L” e “O” correm o risco de serem despedidos. O direito de fazer greve, entretanto, é garantido pela Constituição.
Esse medo irracional fundamenta-se, também, na postura fria do governador em relação aos previsíveis problemas humanos criados pelas Leis relativas aos temporários aprovadas ano passado pela assembléia estadual, que ameaçam a vida profissional dos inúmeros professores contratados, responsabilizados integralmente, pelo governo, pelo caos em que se encontra a Educação no estado.
Deixando de lado a má qualidade dos cursos de Licenciatura e até mesmo do ensino público, de onde provém a maioria dos professores, a Lei estabelece que os docentes não aprovados na prova para temporários ficam fora de sala de aula. Mesmo com a intervenção do sindicato dos professores, a APEOESP, que conseguiu que, este ano, a prova criada pela lei não fosse mais eliminatória, muitos profissionais com anos de carreira viram sua vida desmoronar, pois muitas vezes os mais jovens, às vezes sequer formados, principalmente na área de exatas, conseguiram desempenho melhor.
Professores mais antigos, com muitas aulas e pouco tempo para estudar, com problemas familiares advindos de um orçamento escasso e problemas emocionais por trabalharem em condições adversas e ás vezes até ameaçados pela violência, enfrentam o fato de que estudantes que pretendem um “dinheiro extra” ou que estão iniciando carreira tenham tomado o seu lugar nas salas de aula.
A resposta do governador ao movimento, afirmando ser medida suficiente para o caso a instituição da promoção por mérito, que estabelece que 20% dos melhores classificados em provas aplicadas anualmente receberão aumento, está sendo recebida pelos docentes como uma provocação, pois todos entendem que o que é necessário neste momento é haja aumento salarial para todos os professores, não para os que preenchem exigências muitas vezes fora da alçada deles próprios, como, por exemplo, permanecer na mesma escola por mais de três anos, feito impossível, pelo menos para os não-efetivos (cerca de metade dos professores) nos atual sistema de atribuição de aulas.
A estratégia atual do governo, ignorar a greve, pode não ser uma boa opção. Além de unir os muitos gregos e troianos que compõem o quadro de docentes num clima de revolta e instabilidade, ela não consegue generalizar a idéia de que a culpa do mau desempenho nas provas de avaliação nacionais e internacionais seja única e exclusiva dos professores, como quer o governador. Muitos de seus prováveis eleitores em uma eleição presidencial têm a exata noção dos problemas financeiros e de condições de trabalho por que passam os professores de seus filhos, fartamente noticiados na mídia."
(Envolverde/O autor)
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