18/03/2011

O desafio de superar a própria história

Por Mário Cesar dos Santos, reitor da Universidade do Vale do Itajaí (Univali)
Todos nós acompanhamos com apreensão o desenrolar da tragédia natural que estremeceu o futuro do Japão e lançou uma onda de problemas quase comparáveis aos da Segunda Guerra Mundial, quando a nação caiu de joelhos diante do poderio nuclear dos norte-americanos. Apesar dessa sombra de medos que encobre o país, há um traço marcante da cultura japonesa que preserva a confiança da comunidade internacional na recuperação da nação nipônica. É a sua capacidade de superação, posta à prova no pós-guerra, quando, de país destroçado e fragilizado estrutural e moralmente, chegou, em apenas algumas décadas, à condição de terceira maior economia do planeta. Sua situação atual comove a comunidade internacional, que torce por uma recuperação rápida, confiante no esforço e na organização de sua gente.
É essa lição de superação que o Japão nos ensina, e sobre a qual a Universidade do Vale do Itajaí tem também a sua própria história a contar.  Sem a dramaticidade do caso japonês, a trajetória da Univali dependeu, entretanto, desse mesmo espírito que agora anima homens e mulheres do país milenar. Também nós, no passado mais remoto ou mais recente de nosso enredo histórico, enfrentamos crises que nos arremessaram a um fosso de incertezas e dificuldades.  Fomos continuamente desafiados pelo destino nesses 22 anos da condição de universidade, comemorados neste dia 21 de março.
 
No entanto, como sintetiza metaforicamente o filósofo Rubem Alves, “ostra feliz não faz pérolas”, pois elas são resultado de um esforço do molusco contra um grão de areia que lhe roça as carnes áspera e incomodamente. Da mesma forma, as dificuldades de nossa história podem ter nos causado desconforto e angústia, mas foram também elas que nos extraíram a força de superar o adverso. Ante o impasse do reconhecimento dos primeiros cursos na década de 1960, ou a dificuldade de se reinventar gerencialmente para fazer frente à proliferação de novos players na educação superior, a Univali teve de se fazer mais forte, mais capaz, mais sustentável e mais excelente.
 
Embora jamais possamos aceitar como desejáveis os processos radicais de mudança como os impostos pela natureza, uma nação ou instituição, qualquer que seja, se desejar evoluir, precisará adaptar-se ao que eu chamaria de “atmosfera de tensão controlada”. Explicando: mudamos quando somos tensionados por alguma necessidade. Sem ela, “não produzimos pérolas”. Por isso, acolhemos de maneira proativa o impulso dessas forças de tensão, identificadas como dificuldades ou crises, e que foram justamente circunstâncias especiais de progresso institucional, fundamentais para a superação de nossa própria história.
 

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