30/11/2005

O desafio de se manter na universidade

Passar no vestibular, ao contrário do que pode parecer, não é o principal desafio que o estudante universitário deve vencer. Uma vez matriculado, sua preocupação passa a ser outra: a de se manter na faculdade. De acordo com as últimas estatísticas, divulgadas ainda no Censo da Educação Superior de 2003, 3.887.771 alunos matricularam-se em cursos superiores em todo o Brasil. No entanto, apenas 528.102 concluíram seus cursos naquele ano. O que aconteceu com os outros 3.359.669 alunos?

Nem o MEC (Ministério da Educação) tem uma explicação segura sobre o fenômeno: "Não existe uma relação direta entre o número de matriculados e o de concluintes e, para responder a respeito das causas da evasão em uma determinada instituição, deve ser feita uma investigação criteriosa junto à instituição de ensino superior, uma análise específica de cada curso, para entender a razão da evasão", afirmou Amir Limana, coordenador do Enade (Exame Nacional de Desempenho dos Estudantes).

No entanto, uma das hipóteses que explica a evasão é o fato de que, ainda que o aluno tenha conseguido ingressar em uma universidade pública, ele terá gastos com livros, material escolar e, dependendo do curso, com equipamentos tão caros quanto indispensáveis.

Algumas universidades buscam oferecer condições aos alunos para que eles permaneçam estudando. A UnB (Universidade de Brasília) oferece bolsas de monitoria e de iniciação científica. Os alunos cotistas da UERJ (Universidade do Estado do Rio de Janeiro) recebem vale-transporte, material de uso pessoal para cursos como Odontologia e Medicina, contam com o restaurante universitário e laboratórios de Informática, alojamento estudantil, além de bolsas. Na UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro), os alunos do alojamento recebem auxílio-manutenção, sem a obrigatoriedade de prestar algum tipo de serviço. Alunos sem condição financeira recebem bolsa-auxílio, e há ainda bolsas de monitoria. No Mackenzie, em São Paulo, alunos que passam por alguma dificuldade conseguem bolsas de estudo com relativa facilidade.

A jornalista Giose Caruso, por exemplo, na sua graduação, obteve bolsa integral durante um ano, quando seu pai teve um grave problema de saúde. Mas nem todas as universidades têm esse tipo de atitude. Então, resta ao estudante buscar um estágio, de preferência na área em que estuda. Para isso, eles podem recorrer à opções como: o CIEE (Centro de Integração Empresa Escola), o Nube (Núcleo Brasileiro de Estágios), a Gelre, o Universia Empregos ou a Fundação Mudes, ONG (organização não-governamental) que atua apenas no Rio de Janeiro, com o objetivo de estabelecer parcerias com empresas para oferta de oportunidades de estágio para estudantes.

Experiência

Depois de seis meses no curso de Turismo, na Universidade Anhembi Morumbi, Tomás Angraimi, 21 anos, resolveu mudar de curso e pediu transferência para Arquitetura, profissão de seu pai. Passou a estudar à noite, para ter o dia livre para os estágios. Começou em um escritório pequeno que só trabalha com estruturas de madeira. Depois de um curso extracurricular de Autocad na Fupam (Fundação para a Pesquisa Ambiental, ligada à FAU-USP), conseguiu estágio em uma construtora e nunca mais parou. "Embora os meus pais banquem o curso de graduação, todas as outras despesas do curso como livros, apostilas e material de desenho, correm por minha conta", explicou. Às vezes ele fica inconformado porque Engenharia não é a mesma coisa que Arquitetura. Mas está convencido de que o estágio vai representar um diferencial no seu currículo.

Mas nem todo mundo consegue um estágio tão fácil. Assim, alguns alunos encontram fórmulas criativas para se virar como podem e não desistir do curso. Rodrigo Barcena Mendes, por exemplo, estudante de Arquitetura na Universidade Anhembi Morumbi, saía uma hora mais cedo da aula porque trabalha em uma gráfica, com turno até as 7h. Trocar o dia pela noite valeu ao esforçado aluno um apelido, no mínimo injusto, dado por seus colegas de faculdade: "preguiça". Os amigos não entenderam por que naquela viagem no feriado ele só queria dormir. Dividindo-se entre o bairro da Freguesia do Ó em São Paulo, onde mora, a Vila Olímpia, onde fica a faculdade, e a av. Luís Carlos Berrini, no trabalho, Rodrigo fez um arranjo com os professores para sair uma hora antes da faculdade, a tempo de entrar na gráfica no horário certo.

Cecilia Rivellino, 23 anos, que concluiu o curso de Publicidade e Propaganda na FIAM (Faculdades Integradas Alcântara Machado) contou com a ajuda para escapar das estatísticas de evasão escolar. Dono de uma rede de nove lojas de móveis de alto padrão para escritórios, o tio ofereceu trabalho para Cecilia, que é a responsável pela área administrativa (contas a pagar e controle de estoque). Seu salário ajudou a concluir o curso. Ela sabe que na faculdade existe bolsa-auxílio, que dá desconto na mensalidade. Mas não conhece ninguém que se beneficia do esquema.

Outro exemplo de esforço e dedicação é do estudante Douglas Ísola Massari, de 25 anos. Neto de feirantes e filho de comerciante, Douglas aprendeu desde cedo o valor do trabalho. Estudando Administração de Empresas na PUC-SP (Pontifícia Universidade Católica de São Paulo), ele já se acostumou a ser considerado o CDF da classe. Isso porque quando os professores de Contabilidade, Marketing ou Psicologia dão as explicações à classe, Douglas sabe na prática do que eles estão falando. Aos 14 anos começou a trabalhar, ajudando seu pai em uma loja de roupas. Em 97, quando terminou o colegial, em vez de encarar a faculdade, preferiu se dedicar ao comércio, e ficou durante seis anos só trabalhando, antes de entrar na PUC. Filho do meio de três irmãos, Douglas é o único que seguiu os passos do pai, que ele define como "bem rígido".

Como o movimento maior da loja é à tarde e à noite, Douglas preferiu estudar de manhã. Entra na PUC às 7h30 e às 11h30 vai para a loja, de onde só sai depois das 20h30. "Eu fui educado assim, vim de uma família muito batalhadora", explicou.

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