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Por Juliana Lopes, da Revista Idéia Socioambiental
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Expansão do mercado de empregos verdes expõe déficit em formação de profissionais e pressiona escolas de negócios de todo o mundo a inserirem as questões socioambientais em seus currículos e proposta de ensino.
Alguns meses após o anúncio de pacotes de estímulo a investimentos em energias renováveis e eficiência energética - anunciados pelos governos do Reino Unido, Estados Unidos e China – recrutadores já alertam para a dificuldade de encontrar profissionais capacitados para preencher as vagas criadas no setor de empregos verdes. Fica claro, portanto, que a transição para uma economia de baixo carbono só virá acompanhada de uma profunda reforma educacional.
Coincidentemente, os sinais de preocupação se manifestam também nos Estados Unidos, onde a ruptura com os modelos atuais tem sido sobretudo emblemática, a considerar o estilo de vida baseado no consumo perdulário que aquele país consagrou e disseminou para o mundo nos últimos anos. “Os homens e mulheres que, em 20 anos, vão liderar os negócios, instituições de ensino e agências de governo estão na escola agora. Precisamos oferecer a eles formação acadêmica e profissional que os preparem para enxergar e criar um novo mundo”, ressalta Kevin Coyle, vice-presidente de educação e treinamento da organização norte-americana National Wildlife Federation, no relatório Campus 2008.
Ainda segundo ele, esse novo mundo com certeza terá formas mais limpas de produção de energia, transporte, agricultura, gestão dos recursos naturais, saúde, pesquisa científica, modelos de negócios e outros avanços tecnológicos essenciais. “Alcançá-lo, na velocidade necessária, demandará um suporte sério, incluindo acompanhamento e financiamento do governo federal e estadual e uma revisão completa das propostas de ensino em todas as áreas do conhecimento”, conclui.
O chamado para uma economia verde ecoa principalmente nas instituições de ensino, que são cobradas a assumir um papel mais ativo no debate de soluções voltadas ao desenvolvimento sustentável. Para George Stein, professor no Insper, na FIA e na PUC-SP, além de pesquisador do GEPI (Grupo de Estudos e Pesquisa em Interdisciplinaridade – PUC/SP), a quantidade de mobilizações e troca de experiências entre empresas e organizações da sociedade civil têm ocorrido em uma escala e velocidade superiores às da atividade acadêmica. Por isso, segundo ele, a percepção da academia como detentora exclusiva do conhecimento precisa ser revista a fim de mudar a direção para uma ação conjunta com esses diferentes atores. “O primeiro passo é estabelecer uma pré-disposição para criar conhecimento e compartilhá-lo de uma maneira mais participativa, segundo a qual empresas, academia e sociedade trabalhem lado a lado visando formar o mais rápido possível profissionais preparados para os novos desafios da sustentabilidade”, ressalta.
Em resposta a essa pressão, muitas instituições de ensino têm revisado suas práticas. Mas o levantamento da National Wildlife Federation, realizado junto a universidades norte-americanas, mostra que as ações de boa cidadania corporativa nem sempre vêm acompanhadas pela adaptação de currículos para a sustentabilidade, pelo menos não com o mesmo vigor. O diagnóstico foi feito a partir da comparação dos resultados do levantamento de 2008 com os primeiros dados colhidos no primeiro relatório Campus, publicado em 2001. “Há muitas mudanças positivas ocorrendo nas instituições de ensino norte-americanas, especialmente no que diz respeito ao `esverdeamento` dos campus. Inesperadamente, no entanto, a análise do período de 2001 a 2008 revelou que a quantidade de programas relacionados à sustentabilidade não cresceu. Como um educador, acredito que esse é um motivo de preocupação”, ressalta Coyle.
Para Stein, essa tendência não se observa apenas nas instituições norte-americanas. Segundo ele, as universidades estão começando por onde é mais fácil começar. “De fato, daqui alguns anos será inconcebível uma instituição que não tenha boas práticas socioambientais. Mas uma universidade deve ser cobrada muito menos pela sua pegada ecológica e muito mais pela responsabilidade de formar pessoas mais competentes nesse assunto”, afirma.
MBAs na vanguarda
Os programas de MBA têm se mostrado mais ágeis na adaptação de seus currículos e atividades à crescente valorização do tema da sustentabilidade. Na opinião de Stein, isso se deve à maior proximidade que possuem com a realidade das empresas. “As grandes companhias estão mais preocupadas em atender seus públicos de interesse e já sentem a necessidade de começar a formar profissionais diferentes”, afirma.
A diversidade da teia de stakeholders que passou a orbitar em torno dos negócios também se reflete nas turmas de MBAs, que hoje não se limitam mais a executivos de empresas. Empreendedores sociais, consultores, gestores públicos, banqueiros sentam lado a lado e partilham do mesmo propósito de buscar soluções que aliem benefícios econômicos, sociais e ambientais. Essa é a realidade à qual as escolas de negócios vêm tendo que se adaptar à medida que os diferentes segmentos da sociedade se deparam com o desafio da sustentabilidade, iniciando uma corrida por especialização na área.
“Cada vez mais os programas de especialização em negócios reconhecem a necessidade de preparar líderes com valores que entendam a importância de um ambiente saudável, comunidades fortes e sustentabilidade no longo-prazo”, reforça a publicação Business as UNusual 2008, da Net Impact, um rede global com mais de 7000 lideranças na área de sustentabilidade, que compilou a opinião de 1.552 estudantes-membros da organização e 62 líderes de programas de ensino.
A primeira edição da pesquisa foi realizada em 2006 em resposta à procura crescente de candidatos às escolas de negócios que recorriam a Net Impact em busca de informação sobre os programas que melhor integravam questões sociais e ambientais aos seus currículos. Na outra ponta, as universidades também batiam à porta da organização norte-americana, interessadas em demonstrar como seus programas tratavam essas temáticas.
Desde então, o levantamento Busines UNusual vem servindo como uma ferramenta para que as instituições possam comparar seus esforços e desenvolver currículos de maior impacto social.
Outra publicação na mesma linha é o guia Beyond Grey Pinstripes, do Aspen Institute, organização não governamental sediada nos Estados Unidos, um levantamento que traz um ranking dos programas de MBA líderes no movimento de integração de questões sociais e ambientais nos currículos. “Essas escolas já preparam os estudantes para a realidade de amanhã, munindo-os com as perspectivas econômica, ambiental e social requeridas para o sucesso do negócio em um mundo competitivo e de rápidas mudanças”, enfatiza o Aspen Institute em sua publicação.
Em seu site na internet, a organização publica uma síntese dessa pesquisa com informações de mais de 130 MBAs. Para seleção dos melhores programas, foram avaliados aspectos como o número de disciplinas eletivas e cursos relacionadas a questões socioambientais oferecidas pela universidade, bem como a relevância de suas propostas. O Aspen Institute também considerou os artigos publicados na área, projetos e departamentos dedicados à sustentabilidade.
Esses critérios, segundo Stein, também podem ser utilizados no momento de buscar o melhor curso de especialização em sustentabilidade. Tão importante –ressalta -- quanto analisar a oferta do curso é demandar qualidade. “Vejo o estudante como um stakeholder importante, que tem uma voz mais forte do que a que está sendo ouvida hoje em dia”, aposta.
O estado da arte em pesquisa para a sustentabilidade
Seguindo a trilha proposta pelas publicações do Aspen Institute e Net Impact, Ideia Socioambiental entrevistou representantes das universidades que melhor têm adaptado suas propostas de ensino para o desenvolvimento sustentável.
As informações resultantes dessa pesquisa - apresentadas a seguir –oferecem um panorama da produção de conhecimento na área de sustentabilidade, trazendo as principais linhas de pesquisa, casos de inovação e novas metodologias de ensino desenvolvidas em todo o mundo.
Esse levantamento proporcionou também a identificação de algumas medidas adotadas pelas instituições de ensino que tanto podem inspirar universidades brasileiras, que pretendem integrar questões socioambientais às suas atividades, quanto orientar profissionais em busca de especialização na área.
É possível identificar alguns movimentos comuns quando se avalia a trajetória das universidades pioneiras na integração das questões socioambientais nos seus currículos. Em muitas delas, esse esforço foi conduzido pelos chamados “campeões da sustentabilidade”, tema já abordado na edição 15 desta revista. No caso específico da Academia, são professores que iniciaram projetos de pesquisa no tema e acabaram por mobilizar alunos, demais docentes, diretoria e comunidade na busca por soluções sustentáveis nos mais variados campos, desde novas ferramentas de gestão até tecnologias e modelos de negócios.
Ignasi Carreras, líder do Instituto de Inovação Social da ESADE, escola de negócios espanhola que possui campus em Barcelona, Madrid e Buenos Aires, destaca a importância de criar o ambiente favorável para desenvolver e preservar esses “campeões da sustentabilidade”. “O elemento-chave é ter especialistas na área que catalisem essa mudança. Em contrapartida, a universidade deve ter a questão da sustentabilidade inserida em seus valores e estratégia. Assim, a preocupação de equilibrar aspectos econômicos, ambientais e sociais acabará permeando todas as suas atividades”, ressalta.
Tornar o tema transversal também faz com que a maioria delas recorra a disciplinas eletivas que abordam questões variadas como ética e empreendedorismo social. Outra tendência notável é a criação de departamentos ou núcleos de pesquisa para coordenar as atividades relacionadas à área de sustentabilidade. Há quem defenda, no entanto que essa centralização pode prejudicar a abordagem multidisciplinar, na medida em que estimula a reflexão acerca dos temas relacionados. Por isso, muitas instituições de ensino preferem pesquisar as questões socioambientais sob o olhar de cada área do conhecimento, sem abrir mão – é claro – do diálogo entre as diferentes ciências.
Aproximar-se de empresas e organizações sociais e até mesmo de outras universidades, por meio de projetos e programas realizados conjuntamente, representa também uma saída à qual as instituições de ensino têm recorrido para atender a demanda por conhecimento no ritmo e com a variedade demandados pela sociedade.
Para Stein, da PUC, é importante que a universidade fortaleça o diálogo com o seu grupo de stakeholders a fim de estabelecer um esforço conjunto de rever sua própria missão. “As empresas, organizações da sociedade civil e os próprios alunos podem apresentar as demandas específicas na formação que a universidade sozinha não tem dado conta de desenvolver”, afirma.
Por essa razão, é cada vez mais comum que casos de inovação voltados a sustentabilidade - como, os já notórios, Ecoimagination da GE e programa de microcrédito de Muhammad Yunus - ganhem as salas de aula e até mesmo se transformem no tema-central de programas e cursos específicos.
Há também experiências que recolocam a universidade em seu papel clássico de produtora de conhecimento. Mas mesmo nesses casos a cooperação ocupa papel central.
Confira essas e outras experiências no guia a seguir, que apresenta o que as algumas das mais importantes universidades do mundo estão fazendo na área de sustentabilidade.
Blekinge Institute of Technology
Vizinho de várias empresas de telecomunicações e softwares como a Vodafone (hoje Telenor), Ericsson AB, Wireless Independent Provider (WIP) na Karlskrona (Suíça), o Blekinge Institute of Technology (BTH) tornou-se referência em tecnologia. Nos últimos 10 dos seus 20 de existência, a instituição passou a colocar sua experiência a serviço de soluções voltadas ao desenvolvimento sustentável.
No BIT, quem fez ás vezes de “campeão de sustentabilidade” foi e tem sido o professor de engenharia Göran Broman. Ao participar da elaboração da estratégia do The Natural Step, organização suíça que propôs uma metodologia revolucionária de planejamento estratégico baseada nos sistemas da natureza, ele trouxe a discussão da sustentabilidade para o campus do Blekinge. Foi dele a iniciativa de integrar o tema ao currículo e às atividades de pesquisa, a princípio do departamento de engenharia.
Outros professores como Lars Emmelin, da escola de Cultura Tecnológica, Humanidades e Planejamento e Claes Wohlin, da Escola de Saúde seguiram os passos de Broman, alçando o BIT ao olimpo das instituições de ensino líderes na produção de conhecimento para a sustentabilidade.
Segundo Anthony Thompson, pesquisador de PhD em Inovação em Produtos Sustentáveis, não bastou, nesse processo de mudança, apenas adaptar os currículos. Foi preciso rever também as metodologias de ensino. “Os estudantes não são meramente esponjas que vêm ao BIT para absorver conhecimento de especialistas. São capazes de contribuir com o seu próprio aprendizado e experimentar a rica experiência de co-criar”, destaca.
O Blekinge Institute of Techology inclui-se entre as escolas que, ao invés de criar um departamento de sustentabilidade, optaram por integrar o conceito em todas as áreas do conhecimento. “Certamente, há departamentos com mais experiência e conhecimento direto relacionados à sustentabilidade, mas de maneira geral é importante que todos tenham o entendimento de que seu trabalho deve estar alinhado ao grande cenário de oportunidades de uma sociedade sustentável”, afirma.
Como na Suíça sustentabilidade é algo que se ensina, mas também se pratica, o BIT tratou logo de reduzir seus impactos. Em 2008, tornou-se a primeira universidade do mundo carbono neutro. “Além de buscar formas de reduzir a pegada de carbono, a escola compra créditos de carbono para compensar suas emissões. Isso nos dá o incentivo financeiro para reduzir nosso inventário”, ressalta.
O Blekinge Institute of Techology oferece hoje quatro cursos de MBA focados na temática de sustentabilidade (veja box abaixo). Recentemente, criou o curso online Introdução ao Desenvovimento Sustentável Estratégico. Gratuito e com duração de duas semanas, o programa oferece aproximadamente 30 vagas e não há nenhum pré-requisito específico. As inscrições abrem no início de março de cada ano.
Duke University/ Nicholas School of the Environment
A Duke University, localizada na Carolina do Norte, nos Estados Unidos, colhe hoje os frutos do seu pioneirismo. Já na década de 30, a universidade mantinha duas unidades voltadas ao estudo de questões ambientais: a Escola de Reflorestamento e a Universidade Duke de Laboratório Marinho. Em 1991, elas foram integradas ao departamento de geologia para formar a Nicholas School of the Environment. (NSE)
Outro marco importante no processo de adaptação de suas propostas de ensino se deu em 2005, quando a instituição adotou a Política Ambiental do Campus pela qual se comprometeu a assumir a liderança em três áreas: pesquisa e educação ambiental; operações ambientalmente responsáveis e manejo ambiental na comunidade.
Hoje, com a crescente demanda por cursos na área ambiental, a universidade já dispõe de programas bem estruturados. “O interesse por cursos na área ambiental, especialmente programas de mestrado, cresceu significativamente na última década. Muitas companhias estão à procura de gerentes ambientais e cientistas preparados para liderar seus esforços em sustentabilidade. Essa demanda também se verifica nas agências de governo e nas organizações da sociedade civil”, afirma Tim Lucas especialista de relações institucionais da Nicholas School of the Environment.
A questão da sustentabilidade também está presente na graduação. Os diferentes departamentos da instituição têm criado cursos na área para atender o interesse dos alunos pelo tema. Assim, surgem disciplinas que aos olhares mais convencionais soam inusitadas, principalmente quando observadas as áreas de conhecimento onde são oferecidas: Alimentos e energia e Justiça ambiental (Sociologia), Recursos e economia do meio ambiente (Economia), Fronteiras ecológicas (Língua Inglesa), Ciência da conservação marinha (Políticas Públicas); Meio ambiente em situações de conflito e paz (Ciências Políticas), entre outras.
A tradição em pesquisa na área ambiental não impede que a instituição se dedique também à busca de soluções voltadas às questões sociais. O exemplo mais notório de iniciativa desse tipo é o Children Envirolmental Health. Desde 2002, os membros desse grupo trabalham na elaboração de estratégias, com foco no desenvolvimento, e uma nova ferramenta de mapeamento para que as agências de saúde pública e a comunidade possam identificar os domicílios em que existem crianças em situação de risco. Em reconhecimento a esse esforço, a iniciativa recebeu o National Achievement in Environmental Justice Award (Prêmio Nacional de Justiça Ambiental), da Agência de Proteção Ambiental, em 2008. Denominada Childhood Lead Exposure Risk Model, a ferramenta está disponível no site (http://www.nicholas.duke.edu/cehi/), já tendo sido implementada em estados como Carolina do Norte, Carolina do Sul e Michigan, além das de cidades como Detroit e Kenosha.
Na área de responsabilidade social corporativa, especificamente, a instituição também realiza pesquisas por meio do Duke’s Corporate Sustainability Initiative. A unidade é resultado da cooperação entre a NSE, a Fuqua School of Business e o Nicholas Institute of Environmental Policy Solutions. “A iniciativa tem como objetivo avançar na teoria e prática da sustentabilidade corporativa, preparando a próxima geração de líderes sustentáveis que assumirão os negócios. A maioria das pesquisas realizadas pela unidade estão relacionadas diretamente à questão das mudanças climáticas”, explica Lucas.
A universidade conta ainda com o Duke University Sustainability Office, criado em 2004 com o objetivo de assegurar que as atividades do campus sejam sustentáveis. O escritório possui oito integrantes dedicados integralmente a essa tarefa. São eles: diretor de sustentabilidade, coordenador de expansão da sustentabilidade, diretor de iniciativas de neutralização de carbono, coordenador de compras sustentáveis; coordenador de alimentação sustentável, gerente de energia, coordenador de reciclagem e coordenador do LEED (padrões para edifícios verdes).
Essa equipe coordena iniciativas como a Duke Computer Exchange, que doa computadores para escolas locais e centros comunitários, a compostagem de resíduos orgânicos e o programa de reciclagem, por meio do qual a universidade já recicla 33% de todo o seu lixo, por ano, incluindo lâmpadas fluorescentes e aparelhos celulares. A universidade também tem como meta reduzir em 70% o seu consumo de petróleo até o fim de 2009.
Além do mestrado de reflorestamento, área em que já possui tradição, a NSE oferece um programa de Gestão Ambiental, que agora ganha uma versão internacional desenvolvida em parceria com universidades na Índia e Emirados Árabes. “Esse programa tem como objetivo treinar futuros gerentes ambientais em economias emergentes, com um foco especial nas questões específicas da Índia, Oriente Médio e Norte da África”, ressalta Lucas.
O curso também está disponível na versão on-line por meio do programa de educação continuada Duke Environmental Leadership. Em resposta à demanda crescente por profissionais preparados para otimizar o consumo de energia nos mais variados processos, a NSE oferece ainda um mestrado de gerenciamento de energia e meio ambiente, que se tornou um dos seus programas mais populares.
Duquesne University
Localizada em Pittsburgh, no estado da Pensilvânia (EUA), a Duquesne University seguiu a tradição das instituições norte-americanas de adotar a discussão da sustentabilidade a partir da ótica ambiental. Em 1992, criou o seu primeiro programa focado no tema, o mestrado em Ciência e Gestão Ambiental. Foi uma resposta a recomendações do seu Conselho Externo, que, já naquela época, apontava a necessidade de formar profissionais capazes de fazer a ponte entre cientistas, engenheiros, gestores e advogados para lidar com as questões ambientais.
Em 2007, lançou outro programa voltado à área, o mestrado de Administração de Negócios em Sustentabilidade, integrando questões financeiras, sociais e ambientais ao conjunto de competências dos MBAs tradicionais. “Essa aproximação resultou da convicção da universidade de que a educação de negócios precisa antecipar os desafios que as companhias enfrentarão e preparar a próxima geração de líderes capazes de tornar os negócios lucrativos e competitivos no longo prazo, equilibrando responsabilidades na área ambiental, social e financeira”, afirma
De 2007 para 2008, o MBA em sustentabilidade dobrou seu número de participantes. Em 2009, a Duquesne espera um aumento de 40% na procura.
Em janeiro deste ano, o programa recebeu o Page Prize, que reconhece as instituições norte-americanas que oferecem os melhores currículos na área de Sustentabilidade. A premiação, promovida pela Moore School of Business, da Universidade da Carolina do Sul, tem como objetivo apresentar aos estudantes o que de melhor vem sendo produzido em termos de conhecimento para a sustentabilidade.
Apesar de não dispor de um departamento específico dedicado à sustentabilidade, as atividades de pesquisa nessa área são lideradas por algumas unidades como a Escola Bayer de Ciências Naturais e Ambientais e o Centro para Política Social e Pública.
As pesquisas em sustentabilidade estão concentradas em três grandes áreas. A primeira é a de Ciências Naturais, com projetos destinados ao desenvolvimento de indicadores químicos e biológicos de poluentes, além de soluções para reduzir a poluição. A segunda, de Ciências Sociais, dedica-se à busca de modelos e técnicas para assessorar a gestão pública na gestão dos problemas ambientais em áreas como política energética, planejamento urbano sustentável e ecologia industrial. A área de Negócios integra os esforços de pesquisas em sustentabilidade a partir do desenvolvimento de soluções e seleção das melhores práticas para aliar benefícios econômicos, ambientais e sociais.
Ter um campus sustentável é uma preocupação permanente na Duquesne. Por isso, ela mantém atividades como reciclagem e medidas para redução do consumo de água e energia. Essa experiência também vem sendo estendida à comunidade por meio de iniciativas como o One Step at a Time (Um passo de Cada Vez). Criado em 2007 pelos professores Pitt and Carnegie Mellon, o projeto visa estimular os alunos a buscar soluções para reduzir os impactos ambientais do campus. A partir de 2009, essas ideias passaram a ser compartilhadas com a comunidade em um simpósio voltado para elaborar um plano de desenvolvimento sustentável para a cidade de Pittsburgh. Os alunos do Centro de Pesquisa e Educação Ambiental, do MBA de Sustentabilidade e da Escola de Direito apresentaram soluções como a MARKAL, ferramenta desenvolvida para o departamento de energia dos EUA para monitorar o consumo energético e as emissões de CO2.
ESADE
O destaque da ESADE Business School não são os programas de MBA focados em sustentabilidade, como muitas das experiências relatadas até agora. A escola de negócios espanhola optou por integrar as questões ambientais e sociais em todos os seus programas de MBA convencionais, do Marketing ao Direito.
Segundo Ignasi Carreras, da ESADE, esses esforços começaram há aproximadamente 15 anos. Hoje são liderados pelo Instituto de Inovação Social, que reúne pesquisadores de diferentes áreas do conhecimento dedicados a identificar os melhores projetos na área e formas de levar essas experiências para os cursos da instituição. “O objetivo do instituto é desenvolver competências organizacionais e pessoais para a comunidade de negócios e organizações não governamentais de forma a reforçar a sua contribuição para uma sociedade sustentável”, ressalta.
As atividades de pesquisa piorizam três áreas principais: integração da responsabilidade social corporativa na estratégia do negócio e engajamento com stakeholders; liderança e gerenciamento para ONGs e empreendedorismo social.
Mas a pesquisa representa apenas uma das linhas de atuação da escola de negócios. A ESADE participa também de uma série de iniciativas em cooperação com outras instituições, como, por exemplo, o curso de Responsabilidade Social Corporativa, o único realmente focado na temática, resultado de uma parceria com a universidade norte-americana Standford.
A ESADE também é signatária de iniciativas globais como o Pacto Global da ONU e dos Princípios da Global Reporting Initiative (GRI). No âmbito local, formou em 2004, o Centro Regional de Experiência e Aprendizado para o Desenvolvimento Sustentável, junto com a Universidade Politécnica da Catalônia e outros parceiros, como os governos local catalão e de Barcelona. A iniciativa responde aos desafios colocados pela Década da Educação para o Desenvolvimento Sustentável (2005-2014) e tem como objetivo constituir um centro de referência de aprendizado em sustentabilidade.
Yale/ Center for Business and the Environment at Yale (CBEY)
Por trás de estratégias de organizações como a General Electric; Águas Nestlé e Conselho de Eletrônicos Verdes, que promove o design de produtos conforme critérios de sustentabilidade, estão profissionais formados pela Yale. A universidade, localizada em New Haven, Connecticut (EUA), realiza um programa por meio da qual seus alunos atuam como consultores na elaboração de estratégias para integrar a sustentabilidade ao negócio. Esse é apenas um dos esforços conduzidos pelo Centro para Negócio e Meio Ambiente da Yale. Suas atividades estão dividas em três áreas principais: ajudar a integrar a discussão das questões ambientais nas práticas de negócios, valorizar princípios de administração do negócio para organizações não-governamentais; e acelerar a criação de negócios, produtos e serviços verdes.
Foi graças a essa cooperação com o setor privado que Daniel Esty pôde, por exemplo, reunir as informações que resultaram no livro O verde que vale ouro, já destacado em Idéia Socioambiental. A partir da análise da trajetória de companhias-pioneiras na integração da sustentabilidade ao seu negócio, o autor apontou os erros mais comuns em estratégias desse tipo e medidas para acelerar a transição para um modelo de negócio sustentável.
Tais experiências transformam-se em rico material de apoio para as discussões em sala de aula. O estudo de caso da Suzlon, empresa indiana de turbinas eólicas, por exemplo, integra o currículo do curso de Estado e Sociedade. Já a experiência da General Eletric, com a linha Ecoimagination, serev como base na disciplina de competitividade. O mercado de carbono, por sua vez, está presente no temário do curso Perspectiva Integrada de Liderança.
A capacidade de pensar, identificar e analisar soluções voltadas aos principais dilemas da sustentabilidade faz com que cada vez mais organizações procurem os profissionais formados pela Yale. Não por outra razão, da General Eletric patrocinou um programa da escola denominado Próxima Geração de Líderes Ambientais, cujo objetivo é justamente estimular pesquisas na área de sustentabilidade, meio ambiente, saúde e segurança.
Além da área de responsabilidade social e sustentabilidade corporativa, há linhas de pesquisa mais específicas como Ecologia Industrial, Finanças e Mercados Ambientais; Economia do Meio Ambiente; Política e Legislação Ambiental e Marketing Verde.
Além dos programas focados na sustentabilidade (veja box abaixo), a universidade também criou novos cursos com demandas mais específicas, como Análise de Sistemas de Energia, e Investimento Privado e o Meio Ambiente, entre outros. “À medida que os estudante procuram os programas com interesse específico na integração entre negócios, meio ambiente e sociedade, a universidade tem oferecido mais cursos para atender essa demanda. Muitos deles surgem do interesse pessoal de professores que trabalham linhas de pesquisa específicas”, afirma Bryan Garcia, diretor de programas do Center for Business and the Environment daYale.
York University/ Schulich School of Business
Localizada na cidade canadense de Toronto, a York University começou a integrar as questões socioambientais em seu currículo a partir de 1992. A iniciativa partiu de George R. Gardiner, professor de Ética nos Negócios, e de Erivan K. Haub, chefe do Centro de Negócios e Meio Ambiente (hoje, Negócios e Sustentabilidade) que formularam os primeiros programas educacionais e de pesquisa na área socioambiental.
Ao longo dos anos, essas propostas evoluíram junto com a discussão da sustentabilidade, tendo que ser adaptadas para incluir temas como mudanças climáticas e inclusão da base da pirâmide.
Hoje as principais linhas de pesquisas estão lotadas nas áreas de Cidadania Corporativa, Estratégia Social e Certificação. A Schulich School Business (SSB) conta também com um Centro de Excelência em Responsabilidade nos Negócios, criado para incentivar o ensino e a pesquisa relacionados às questões socioambientais.
Para assegurar que o alinhamento dos esforços dedicados à produção de conhecimento na área de sustentabilidade com as reais necessidades da sociedade, essa unidade possui um Conselho que reúne líderes da comunidade. Por meio desse canal, eles expressam suas preocupações e prioridades, contando ainda com o apoio dos alunos no desenvolvimento de iniciativas de empreendedorismo social.
A SSB não possui um programa específico de sustentabilidade, mas o quarto módulo de seus MBA dá uma ênfase à responsabilidade social corporativa. Além disso, a escola de negócios oferece uma variedade de disciplinas eletivas na área tanto nos programas de mestrado quanto no PhD. Conheça a revista Ideia Socioambiental: http://www.ideiasocioambiental.com.br
(Envolverde/Revista Idéia Socioambiental) |