O Crochê como Ferramenta Pedagógica: Interdisciplinaridade e Desenvolvimento Socioemocional
Por Wolmer Ricardo Tavares – Mestre em Educação e Sociedade, Escritor, Palestrante e Docente – www.wolmer.pro.br
Currículo Lattes http://lattes.cnpq.br/9745921265767806
A educação de qualidade deve aproveitar todos os recursos disponíveis para alavancar procedimentos que contribuam com o processo de ensino-aprendizagem. Uma das formas de isso ocorrer é por meio da atividade manual — prática por vezes pouco valorizada na sociedade, mas que possui valor significativo quando se busca desenvolver a criatividade, o empreendedorismo e as habilidades socioemocionais, entre outras competências que contribuem para o desenvolvimento do aluno.
Assim sendo, uma técnica que pode ser bem explorada é o crochê. Apesar de sua origem incerta, a técnica é considerada milenar, com apontamentos que remetem à Pré-história; outros acreditam que surgiu em 1500 a.C. [1], e há historiadores que traçam sua origem desde o início das civilizações. Nesse contexto, Massari e Miglino (2022) [2] complementam ao esclarecer que a palavra "crochê" deriva de um dialeto nórdico cujo significado é "gancho", referindo-se à extremidade da agulha utilizada para enganchar os pontos.
Para os pesquisadores citados, existe divergência quanto à origem desta arte; todavia, há indícios de seu uso na China antiga, Turquia, Pérsia e norte da África, chegando só depois à Europa e, consequentemente, à América. Segundo Silva (2017)[3], o crochê pode ser visto como um patrimônio imaterial que reforça a identidade cultural local e que deve ser preservado. O que antes era uma arte ensinada de geração em geração — vista como uma limitação para mulheres de idade avançada — hoje atua inclusive como alavanca para gerar ou complementar a renda familiar.
O crochê, quando bem aproveitado, pode ser utilizado em práticas pedagógicas. Segundo Massari e Miglino (2022), ele serve "como ferramenta para ensino-aprendizagem de Ciências Morfológicas e como método complementar ao processo instrucional da Anatomia Comparativa". As pesquisas levantadas para este texto comprovaram que a técnica do crochê, no contexto educacional, favorece o desenvolvimento cognitivo e motor do educando. Por ser uma atividade que exercita o cérebro, auxilia o aluno a ter foco e paciência, ensinando-o a contar pontos, observar e seguir padrões, o que exige concentração.
Vale ressaltar outras benesses de igual importância, como o desenvolvimento da criatividade e da autoestima, permitindo ao educando exercitar sua inventividade e aumentar sua autoconfiança. Isso contribui efetivamente para a redução do estresse e da ansiedade, já que a prática exige relaxamento e a desaceleração dos pensamentos.
Cabe pontuar que, quando o projeto voltado para esse artesanato é bem elaborado, o crochê auxilia na interdisciplinaridade com disciplinas como Matemática, Matemática Financeira, Geometria, História e Artes, entre outras. Além disso, contempla habilidades socioemocionais inseridas na BNCC, que visam à formação de cidadãos capazes de gerenciar emoções, construir relações saudáveis, resolver conflitos e agir com ética e resiliência.
Um fator ressaltado por Silva (2017) é que o crochê efetiva a educação financeira e o empreendedorismo, permitindo que os alunos produzam, precifiquem e comercializem as peças trabalhadas. Dito isso, cabe à escola demonstrar que o crochê é, de fato, um bem imaterial que não deve ser limitado por preconceitos, visto que é um recurso para capacitação, interação e senso de pertencimento à identidade cultural local. Ao mesmo tempo, a prática torna os envolvidos protagonistas de suas histórias, afastando-os da vulnerabilidade social.
[1] https://escoladeartesmanuais.com.br/blog/a-historia-do-croche
[2] MASSARI, C. H. DE A. L.; MIGLINO, M. A.. Artesanato como ferramenta complementar ao ensino-aprendizagem de Ciências Morfológicas. Revista Brasileira de Estudos Pedagógicos, v. 103, n. 263, p. 221–240, jan. 2022.
[3] SILVA, Angeirley Santos. A Arte Do Crochê como Patrimônio Imaterial da Cidade São Bernardo Ma / Angeirley Santos Silva.- 2017. 52 F. Orientador (a): Prof. Dr.Maria Franciaca da Silva. Monografia (Graduação) Curso de Linguagens e Códigos - Lingua Portuguesa, Universidade Federal do Maranhão, são Bernardo, 2017.